A “intelectualidade” branca me aborrece. Pessoas brancas não sabem dialogar conosco sem desqualificar o nosso conhecimento teórico, ainda tem a mania infame de dizer as mesmas coisas que dizemos e dizer que não foi daquele jeito que havíamos enunciado. Isto compõe uma das dimensões do epistemicídio. Acredito que ainda há no âmbito da intelectualidade brasileira certa dificuldade de aceitar a intelectualidade vinda de pessoas negras. Pensar e dizer o que se pensa sobre os conhecimentos dentro da academia compõe a rotina de pesquisadores negrxs que assumem uma luta antirracismo dentro das Universidades.

Um contra argumento teórico de um/uma pesquisador(a) negro(a) nunca será visto como um exercício de intelectualidade, e sim como um desrespeito a mente ‘brilhante’ de pesquisadores brancos. Em meus diálogos com pesquisadores (as) brancos(as) observo uma  série de coisas, dentre elas a exaustão de explicação que é exigido de nós, pesquisadores e pesquisadoras negrxs, quando eu percebi que eu havia assimilado como natural esta postura exaustiva de explicitação de coisas que entre interlocutores brancos não era exigido tamanho esforço, atinei que era mais um mecanismo do racismo dentro do ambiente acadêmico.

Não que pesquisadoras e pesquisadores negrxs não devam ser questionados, mas não deve ser desigual o modo como somos questionados, a desconfiança epistêmica a qual somos submetidos provem do racismo mais do que do interesse na construção do pensamento  influenciador da nossa esfera discursiva de teorias.  Outra coisa, xs pesquisadorxs brancxs submestimam descaradamente a inteligência do pesquisador e pesquisadora negrxs, já presenciei posturas como estas em eventos acadêmicos e em sala de aula, quando se trata de pesquisadorxs em formação. A realidade racial nunca possuiu  um estágio de sutileza, mas atualmente encontra-se em um estágio cínico e até mesmo dissimulado. Quantos estudantes negrxs você já viu sendo prejudicado por manifestar um conhecimento maior que um pesquisador ou um professor branco?

O ambiente acadêmico já acostumou com a invisibilidade epistemológica da intelectualidade negra, basta observarmos as ementas curriculares dos cursos, principalmente de humanas, dentro das Universidades. O universo da Universidade é o universo da branquitude e isto é preocupante. Fico a pensar se a referência epistêmica não fosse as teorias francesas e sim as teorias africanas, como que seriam as nossas Universidades? Desculpem isto foi um sonho que eu tive enquanto escrevia.

Enquanto mulher negra presente no âmbito das relações acadêmicas da pós- graduação percebo que  é visível o desconforto diante do meu discurso coerente acerca das teorias da intelectualidade branca. E ainda se eu me posiciono contra uma teoria fazendo apontamentos no próprio texto, recebo o discurso de autoridade “é assim por que eu sou phd nisto ou aquilo” ou “ fiz doutorado em Austin”, nunca ouvi Harvard. Professores e professoras brancxs, não é que a vocês pesquisadorxs negrxs devam pedir alguma permissão, mas, deixem-nos pensar, e não sejam agentes do epistemicídio. Não é normal que o Lattes seja um privilégio branco e que os eventos sejam em sua grande maioria tão excludentes e racistas. Parem de mirar a sua   branquitude em nossas cabeças. Respeitem-nos, com ou sem Lattes. Beijos verdes.