As famílias negras são atravessadas por fragmentações, abandonos, ausências e são vistas como meras coadjuvantes no processo de construção da identidade nacional. Com a minha família não é diferente.  Minha mãe nasceu em Campos, cidade do interior do Rio de Janeiro, e saiu de casa para tentar uma vida melhor na capital. Esse deslocamento geográfico por melhores condições de saúde, habitação, bem-estar e estudo, deu início ao processo de fragmentação familiar que acompanharia minha história.

Já no Rio e trabalhando como babá, minha mãe conheceu meu pai e engravidou aos 22 anos. Assim como tantas outras companheiras, viu-se sem rede de apoio e com a responsabilidade de criar sozinha uma criança (Aqui tem mais tretas, mas vamos seguir o baile!). Quando fiz um ano de idade, a “corda ruiu totalmente” e minha mãe teve que voltar para casa e pedir que ficassem comigo para conseguir voltar a trabalhar. Fui acolhida por minha avó, por minha bisavó e por dois tios e duas tias. A caminhada continuou com minha mãe dando suporte financeiro e acompanhando meu crescimento de longe, indo me ver sempre que dava.

Quando eu tinha lá pelos meus 3 anos, um dos meus tios, viciado em jogo, perdeu a casa onde morávamos (Sim, isso aconteceu!!). Para resolver esse imbróglio, acionaram minha mãe que alugou uma casa e fez a mudança de todo mundo para o morro do Juramento, Rio de Janeiro, onde tias avós moravam. Aí inicia o tempo de maior lembrança da minha avó e da minha bisavó e do restante da família. Lembro das minhas avós trançando meu cabelo, me dando banho, me abraçando. Lembro do meu tio me ensinando a ler com os gibis da turma da Mônica. Lembro que sempre tinha alguém me esperando na porta da creche. Lembro dos desafios diários também. Um belo dia minha mãe, muito consciente do que queria para o meu futuro, chegou lá na casa, arrumou minhas coisas e fomos embora morar com a patroa dela. Eu tinha 4 anos quando esse rompimento aconteceu.  Dessa separação, que o excesso de trabalho e a falta de grana não conseguiu unir, formou-se uma família de duas: Eu e minha mãe. A mágoa pairava e não falávamos sobre eles. A vida seguiu, aos trancos e barrancos, e levei a sério a máxima lá de casa: “Mary, estuda…É a única coisa que não tiram de você”.

Quando eu tinha uns 25 anos minha mãe “sentiu” (só entende quem sabe desses paranauês) que minha avó estava muito doente e fomos atrás de informações de onde estavam morando. Descobrimos que ela tinha voltado para Campos. Quando encontramos a casa já era noite e lembro que meu coração parecia que ia saltar pela boca. Não nos víamos há mais de 20 anos. Me olhavam como se tivessem me visto ontem. Foi um reencontro muito bonito, mas eu não os reconhecia. Realmente minha avó estava mal de saúde e minha bisavó já tinha partido. Voltamos para o Rio e pouco tempo depois minha avó faleceu. Quando minha mãe me contou, lembro que não senti nada, mas lembro de ver a tristeza dela. Não fomos ao enterro. A morte da minha avó não nos aproximou deles. A vida seguiu, ainda com barrancos, mas eu já estava na universidade.

Esse ano, 2017, uns dez anos depois, tomei consciência do processo de apagamento da memória da minha família e da minha história consequentemente (aqueles momentos ou vai ou racha!). Tentei recordar os nomes da minha avó e da minha bisavó, aquelas que trançavam meu cabelo, e não conseguia. Como não podia nem saber o nome das minhas antepassadas?  Como não sabia falar quem foram? Como não podia saber das histórias? Tampouco tinha fotos para lembrar de seus rostos (Nem preciso dizer que não temos brasão!). Com essas inquietações, fui até minha certidão de nascimento para reconhecer os nomes da minha avó e do meu avô. Que alivio. Os nomes foram reconhecidos imediatamente e a vontade de saber mais surgiu. Nesse pequeno movimento recordei que meu último nome, que nunca gostei, mas que agora me orgulho, é da família do meu avô, que morreu cedo e de quem sei poucas histórias.

O processo de conscientização moveu o mundo e gerou a possibilidade de reivindicar tardiamente para minha mãe um direito à pensão enquanto filha solteira de um ex-combatente da Marinha (meu avô morreu assim que voltou de alguma guerra em território nacional). Após um cansativo processo de reconexão, mais rápido com a utilização do facebook, pedimos a um dos meus tios as certidões de óbito dos meus avós, bem como a certidão de casamento para dar desdobramento a essa oportunidade. Foi assim que as certidões começaram a chegar no meu email, uma a uma, e que comecei a reconstruir a memória via esses documentos. Lembro da noite que recebi a primeira certidão de óbito. Era da minha avó. Chorei a noite inteira um luto tardio. Depois veio a certidão de casamento dela com meu avô e nada sei sobre a história deles dois. Minha mãe também não. Em seguida, a certidão de óbito do meu avô que morreu aos 40 anos deixando 3 filhos pequenos e que, assim como eu, não foi registrado pelo pai. Com esses dois documentos reconheci minha bisavó e meu bisavô maternos e minha bisavó paterna. Também reconheci as doenças, descritas friamente, que os fizeram partir. A cada certidão que chegava, um pedaço da história, um pedaço de mim se reconstruía. Nesse processo percebi que os meus antepassados homens tiveram uma vida curta no começo da vida familiar.

No fim de outubro, retomando contato com uma das minhas tias, descobri que ela é a guardiã de muitas memórias orais da família e da certidão de óbito de minha bisavó (Havia solicitado busca dessa certidão em cartórios de Campos e Miracema, mas sem sucesso).  São as memórias preservadas sobre ela e ressignificada por mim nesse contexto presente que a faz ser enaltecida. Lavadeira desde menina, deixou sua cidade natal, Miracema, para dar suporte a filha viúva e os 3 netos que moravam em Campos. A resiliência dessa família parece que vem dela, pois morreu com 85 anos, cega e ainda cuidando ativamente da família. E foi através da certidão de óbito da minha bisavó que cheguei aos nomes da minha tataravó e tataravô maternos. Renasceram.

Receber todas as certidões significou me reconectar com as pessoas que estavam com elas, saber como estão, como anda a vida (ainda muito difícil), ouvir histórias de resistência, de sofrimentos, de desafetos, de conquistas, de nascimentos e de mortes.

Que a gente consiga encontrar estratégias para preservar a memória dos nossos, pois existem muitas formas de exterminar um povo e o apagamento da memória é um deles. Não deixemos. Nazária Fernandes Ferreira (tataravó). Presente! Olácio Bento Ferreira (Tataravô). Presente! Maria América Ferreira(Bisavó). Presente! Sebastião Marques Ferreira (Bisavô). Presente! Maria do Espirito Santo (Bisavó). Presente! Maria de Lourdes Marques do Espirito Santo (Avó). Presente! Imperalino do Espirito Santo (avô). Presente!

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