Não se culpe todas as vezes que as coisas derem erradas. Ou quando perceber que você leva muito mais tempo para alcançar um objetivo ou algo que deseja… Lembre – se do nosso passado. Estamos 100 vezes em condição de atraso social. Nós tivemos que nos reinventar do nada, depois de anos inseridos num sistema escravocrata. Nossos ancestrais foram jogados as margens, expulsos dos limites da fazenda, sem terra, nem comida e com a incumbência de carregam nas costas as mazelas da vida de um cativeiro que se reinventa a cada tempo-espaço de modo diferente e singular.  

Nossos mais velhos e antepassados deram conta de carregar as dores dos nossos irmãos e irmãs transatlânticos. Criaram formas de resistências e praticas de existir numa história tecida por violações e tentativas de apagamentos da presença negra no Brasil. Por isso nós reinventamos, nos  recriamos em saudações aos Orisás, nos cultos afro-brasileiros, nas danças e cantigas, nas formas como preparamos os alimentos nos moldes e praticas de organização da comunidade negra. Levantamos terreiros, criamos irmandades, grupos escolares, quilombos, mocambos e quintais, demos cor aos movimentos sociais e político no Brasil, resistimos e recriamos formas de salvaguardar nossa memória… E minha irmã, isso também foi uma estratégia de sobrevivência.

Gerações inteiras foram obrigadas a empreender no novo, diante as escassas possibilidades, subvertemos a ondem que visava extinguir a presença negra neste país. Realizamos uma busca continua por espaços e reconhecimento étnico racial, elaboramos lugares de memória e afeto entre nós, abalamos as estruturas racistas deste país através de mobilização social, cultural e politica. O nosso corpo é politico e um espaço resistência.

Perceba que ainda estamos nessa busca! Cada um de nós quer o seu lugar ao sol.  A questão é que aquilo que deveria ser um direito é alvo de contemplação para alguns e objeto de desejo para outros. Agora, quem são os outros? Somos nós. O sol não brilha da mesma forma para todos, isso é um fato. Precisamos nos reencontrar. Conhecer esse passado – presente negro transatlântico e nos entender nesse violento processo. É preciso saber de qual lado da fronteira estamos. Isso nos ajuda a perceber a perversidade á qual fomos colocados. Tudo que é nosso foi fruto de conquista e organização política, nada foi dado á nós.  

Quando o sol brilha sobre nós, ele traduz séculos de rugosidades raciais, apresenta um conjunto de corpos, povos, etnias e nações negras que juntas conformaram as verdadeiras nuances deste país. Não é possível pensa-lo sem pensar em nós. O nosso corpo demarca uma dimensão território á medida que ele consiste num continuo histórico e geográfico de narrativas de resistência negra. Nosso corpo é um verdadeiro quilombo, já dizia Nascimento (1987). É a imagem e semelhança de corpos que foram transmutados de África e recriados no Brasil. Quando o sol nos ilumina ele apresenta a imagem  e semelhança de um país eminentemente negro, por isso também somos sobreviventes.

Nós resistimos ao cativeiro, reinventamos, recriamos e superamos as condições impostas e a falta de possibilidade de existir nesse grande transatlântico negro. Hoje ainda sentimos as consequências desse conjunto violações, ao passo que ainda criamos formas de resistência negras.

Isso é importante, a nossa história mostrou o poder transformado da união negra movidas pelo desejo de justiça e mudança social. É PRECISO QUE SUPEREMOS A CONDIÇÃO DE SOBREVIVENTE E ALCANCEMOS A CONDIÇÃO PLENA DE CIDADANIA, só assim, poderemos um dia sorrir diante do sol que ainda hoje brilha de modo diferente para nós, mulheres, homens, meninos e menina, senhores e senhoras, negros e negras do Brasil. Nossa pele, corpo, cabelo  e  traços faciais é o verdadeiro registro histórico das origens sociais, politicas, culturais e raciais do Brasil.

Lembre- se! Nossos antepassados resistiram á brutalidade da travessia transatlântica, as dores e a humilhação, nos temos o dever de não deixamos essa luta cair no esquecimento. Por isso resista e ajude a existir nessa sociedade desigual.

 

Imagem de destaque: Tributo aos 40 anos do Ilê Aiyê