De um corpo fardado ao fracasso após tantas dietas imaginadas pelas manhãs e finalizadas antes do almoço, a uma mente que está além da sua idade corpórea capaz de ter seus 50 anos vividos, percebi que estou cansada.

Esse corpo já está cansado de tantos abusos, tantas infrações, tantos descuidos e, principalmente, a todas as vezes que ele se limitou diante do espelho. Meu espírito cansado de se limitar a uma existência corpórea de extremos opostos, do nascer ao morrer, de ter que sempre escolher um lado, A ou B, e cansado de tanto que ouviu que é chato.

E nesse meio estou eu, entre trincheiras de dois mundos separados a espera de qualquer forma de socorro. Ele vem, mas não é suficiente para me fazer seguir, para acalmar a pulsante onda do meu coração e todos os sentimentos e vibrações de minha mente. O que acontece comigo afinal?

Conversando com uma amiga no ônibus, ela me disse que sofria por ser uma velha num corpo de 23 anos. Eu me identifiquei na hora, eu me sinto assim: uma velha. Com todas as experiências possíveis, com o semblante de alguém que já viveu muito e sofreu principalmente, considerada sábia por muitos, além de seu tempo para alguns e extremamente chata por outros.

Num mundo onde as meninas mais velhas da família tiveram que aprender desde cedo a tomar conta de casa, cuidar dos irmãos menores, ir para escola, fazer os trabalhos domésticos e escolares e ainda sorrir, fica bem claro o porquê de um cansaço ainda nova.

Não, não há problema em ser velho, em ter adquirido lembranças, experiências, em ter vivido. Não há problema dos anos passarem e cada dia ter sido um instante de aprendizado. Não há nenhum problema em ficar em casa finais de semana lendo livro ou saindo para balada, em rir de piadas toscas ou ser o sério da turma.

Não há nenhum problema em ser você mesmo. Mas há problema de se sentir assim, tão velha, uma existência carnal tão curta.

Mesmo assim, você cresce acreditando que está tudo bem, acreditando que tudo vai dar certo e que as coisas acontecem no seu devido tempo e coisas e tal. Mas, como uma velha num corpo que não envelheceu seu relacionamento com familiares, amigos e namorado não será o mesmo.

Você já tratou seus pais como igual por pensar exatamente como eles? Já pensou que seus amigos são muito infantis e que estão desperdiçando seu tempo em baladas e bebidas? Já olhou para o seu namorado, ficante, crush ou qualquer homem da sua idade e o viu infantil? Ou simplesmente não consegue se relacionar com ninguém, pois todos estão no “aqui e agora” e você está 10 anos a frente? Se sim a todas as respostas, devo te dar o parabéns: bem vinda ao grupo de mulheres com corpo jovem e mente velha.

Num mundo onde se ensinou que tudo tem seu tempo, que existem fases ao decorrer da vida, acredito que me jogaram a algum atalho e eu avancei algumas fases perante o mundo e isto está me corroendo.

Não condeno de nenhuma forma a criação de minha mãe, acredito muito que os pais ensinam conforme creem que serão o melhor para seus filhos. As responsabilidades que minha mãe e meu pai me deram me fizeram ser quem eu sou e escrever este texto. Mas apesar de tudo, apesar de todo sentimento de gratidão, apesar de todas as certezas, eu me sinto cansada.

O sentimento é que fracassei aos 45 do segundo tempo, que corri muito durante o jogo e fui tirado de campo nos primeiros 10 minutos. Que nada estar certo, que serei condenada a qualquer momento, que alguém chegará e me colocará no banco de reservas para sempre.

Escrevi anteriormente um texto para esse blog e o sentimento inicial era de derrota, não ia conseguir que lessem se quer meu texto. Depois de fracasso, meus objetivos não foram alcançados, e sim o texto foi publicado. Mas é este o sentimento que fica: derrota.

Se escrevo esse texto, cara irmã, não é para que te faça sofrer. Só quero que saiba que alguém também está se sentindo cansada, fracassada, desanimada antes dos 30. E que esse alguém do lado de cá, escreve e desabafa em palavras para não sofrer e se afundar, para não morrer afogada nas próprias lágrimas.

Estou sim cansada e vejo inúmeras mulheres que também se sentem assim, mas irmã, além de desistimos, temos que unir forças, pensamentos. Educarmos nossas crianças para que se construa uma geração de mulheres fortes sim, mas em paz consigo mesmas, em equilíbrio, em amor-próprio, pois, antes de qualquer julgamento de minha parte, antes de procurar culpados, eu tento me encontrar no amor.

Imagem de destaque – Very Smart Brothas