Se você, assim como eu, mora no Planeta Ocidente, já deve estar a par da lista dos nomeados ao Grammy. Fuçando os nomeados que não conhecia, acabei caindo em “Makeba”, da artista francesa Jain.

O clipe foi rodado na África do Sul, e nele vemos a participação da própria artista e de vários anônimos que podemos deduzir ser também sul-africanos. Tem muita dança com movimentos africanos, a musiquinha é chiclete e a edição é bastante bonita. O clipe deve ter custado bem caro.
Assisti ao Making Of, disponível facilmente no Youtube pelo próprio Vevo. Jain foi bastante cuidadosa ao dar conta de quem colaborou com ela para o clipe, dos bailarinos (Perfect Storm Crew, de Soweto, que dançam variações da dança Pantsula) à ilustradora que criou o mural que aparece no início do clipe (a artista se chama Karabo Poppy Moletsane, vive em Johanesburgo e é ilustradora e designer gráfica). É claro que fazer este tipo de reconhecimento deveria ser automático da parte de qualquer artista que queira compor com/sobre culturas anteriormente colonizadas, mas como muita gente faz isso bastante mal – ou simplesmente não o faz – é importante deixar claro que no caso dela houve decência neste setor. É importante frisar que o produtor do clipe, Olivier Bassuet, é francês e é negro, fato que eu tenho 105 por cento de certeza que colabora para a construção de um clipe visualmente respeitoso às referências africanas que utiliza.
Duas coisas, porém, ameaçam essa aura de responsabilidade cultural do clipe. Uma é a letra. Vamos dar uma olhada neste trechinho aqui:
I wanna hear your breath just next to my soul
I wanna feel oppressed without any rest
I wanna see you sing, I wanna see you fight
Cause you are the real beauty of human rights
Na internet toda, o segundo verso, “I wanna feel oppressed without any rest” (Quero sentir-me oprimida sem cessar) é apresentado como “I wanna feel your breasts without any rest”(Quero sentir seus seios sem cessar). No Lyric-Genius.com, um site onde é possível ler as explicações para as referências de várias letras de música, a segunda frase também estava escrita como na maioria das transcrições da letra encontradas na internet, “I wanna feel your breasts…”, mas grifada e corrigida por outros usuários como “I wanna feel oppressed without any rest”. Eu ouvi, desde a primeira vez que ouvi a música, “I wanna feel oppressed”, mas fiquei intrigada com as transcrições e assisti repetidamente ao trecho correspondente do clipe para ter certeza.
Há a vantagem de haver um plano ampliado da artista cantando esta frase, o que, aliado às minhas aulas de fonética, fazem com que eu afirme que a versão correta é “opressed without any rest”.
É aí que entra o meu grande problema com a canção. Não existe nada de errado em ser uma artista francesa branca e prestar homenagem a Miriam Makeba e declará-la como uma grande influência musical em sua vida, ainda mais quando isso é feito de maneira visualmente responsável. Mas apesar de  Jain poder ser a maior apreciadora de Makeba de todos os tempos, ouvi-la todos os dias desde a infância e de estar a par de sua trajetória artística e política, ela precisa conhecer aquele elemento  sobre o qual falamos todo o tempo: o lugar de fala. O clipe estava muito bom, e a letra seria ótima se não contivesse esta frase na qual a artista diz que quer se sentir oprimida sem cessar.
Parece muita chatice da minha parte insistir num aspecto que parece tão pequeno dentro de uma canção. Eu sei que muitas pessoas nunca vão parar para reparar na letra completa (existem duas estrofes compostas e o restante são versos repetidos que servem de refrão eterno), mas acho que faz parte apontar essas coisas. Fica difícil saber se Jain entendeu que para ser aliada de Miriam Makeba na luta pelos direitos civis ela não precisa sofrer como ela, simplesmente porque isto é impossível justamente por ela ser branca e morar em um país diferente, numa outra época. É possível, é claro, ter empatia, dar conta do trabalho de Makeba, prestar homenagens de maneira respeitosa, mas não tem cabimento achar que sofrimento e experiência possam ser adquiridos através da escuta e apreciação de um conjunto de músicas. O segundo problema desta atitude de vontade de aquisição do sofrimento é a excusa: consumir cultura africana, relacionar-se com pessoas negras, e até viver num país de maioria negra não fazem de si um branco isento de culpa, já que esta desigualdade persiste na estrutura racista de diversas antigas colônias (como o Brasil, a África do Sul e os territórios franceses de além-mar).
Ser branco, mesmo sendo um branco “certinho”, é gozar de privilégios pelos quais não se pediu mas que vêm de brinde com o nascimento – como, por exemplo, não terem medo de você, não suspeitarem de você dentro de uma loja, não ser  desumanizado(a) em diversos aspectos.
Em tempo: a estética preta e branca é representada no clipe com insistência. O painel do começo do clipe é preto e branco,  as menininhas negras que dançam, uma com albinismo e outra não, sao visualmente encaixadas como num quebra-cabeças preto e branco, o vestido da artista é preto e branco e, por fim, a cena final é da artista pintando listras pretas numa zebra (que era branca). Não vou afirmar com tanta vontade sobre este aspecto, vou deixar meu “achismo” sobre esta parte: será que Jain tentou mandar um “vamos nos unir”, um “meu sangue é preto porque todos somos África biologicamente”, insistindo, desta vez sutilmente, nesta apropriação dos aspectos socio-culturais negros através do consumo audiovisual? Será que rolou aquele discurso da harmonia, do “vamos dar as mãos”? A intenção por trás deste tipo de afirmativa é quase sempre boa, mas apaga todo o histórico de opressão de uma categoria sobre a outra – algo que, a meu ver, deve ser considerado acima de qualquer coisa num país com a história da África do Sul. Deixo aqui a suspeita sobre as intenções desta escolha.
Meu objetivo não é freiar qualquer tentativa de homenagem à cultura africana da parte de artistas brancos, mas deixar claro que para fazê-lo de maneira correta é necessário muita reflexão e algum momento fora de suas zonas de conforto para não fazer besteira. Tivemos o exemplo aberrante de Malu Magalhães, com aquele clipe que foi o oposto da responsabilidade audiovisual, onde o povo preto todo avisou que tava ruim, que tava péssimo, mas que Malu preferiu ficar cega nos privilégios e coroou o papelão no programa da Fátima Bernardes com aquela afirmação patética.
Se houve um mínimo de cuidado no clipe de Jain, é graças ao martelamento do nosso discurso que anda sendo absorvido a duras penas. Mas ainda não ficou impecável por conta da afirmação infeliz. Se quem a ouve perceber o verso problemático e isso gerar reivindicação, espero que ela tenha a decência de ouvir, se posicionar e repensar sua atitude.
De cima para baixo: imagens do clipe de Jain – o preto no branco e a harmonia que apaga a história