O presente texto não tem por objetivo fazer uma resenha crítica ou uma análise cinematográfica do filme Pantera Negra, mas sim destacar algumas discussões que reverberam na minha cabeça após assistir ao filme mais esperado pela comunidade negra nos últimos tempos. E é esse o ponto de partida, a expectativa gerada pelo filme, que parece ser  mais um da franquia assinada pela Marvel; mas, em realidade, é um testemunho das demandas do população negra em diáspora.

Em vários países do Ocidente houve a organização de sessões especiais e a mobilização de coletivos de negritude para assistir ao filme “apenas” pelo sentimento de pertencimento que um elenco quase que absolutamente negro nos gera. Imagina então o que nos causará coletivamente essa recriação do imaginário social de Mãe-África que pertence a cada negra e negro em diáspora pelo mundo. Porque é isso que o filme nos oferece, a possibilidade de reconstruir, em uma imagem futurista, a africanidade que nos foi furtada após séculos de escravização e colonização.

Toda negra e negro, em sociedades ocidentais pós-coloniais, possui, dentro de si, a demanda pela construção de uma identidade racial que seja capaz de reconstruir uma unidade de povo negro, que teria sido destruído, ou ao menos separado, pela escravização colonial. Assim, o filme nos oferece um regime de representação que, de maneira poderosa, parece reconstruir uma identidade negra hegemônica, superior às múltiplas identidades raciais às que pertencem a nossa negritude diaspórica. Agora somos todos de Wakanda. Espalhados pelo mundo, buscando vingar nossos opressores e voltar a nos reunir numa terra prometida, que seria o Éden do qual não podemos ser expulsos.

Uau, só isso já é muita coisa para se pensar. Como um filme que retrata um herói de histórias em quadrinhos pode recriar um sentimento de pertencimento? Mas não é só isso. Wakanda nos oferece o que seria uma sociedade que flerta com a igualdade de gênero de uma forma tão sutilmente revolucionária, que enche os olhos de qualquer mulher que reflita minimamente sobre o tema. São guerreiras negras, mulheres jovens que são referências no manejo de tecnologia de ponta e que rompem com o imaginário racista que coloca a nós, mulheres negras, como seres inoperantes. Parafraseando o filme, não é mágica, ou realidade artificial, ou ficção científica; é uma amostra de intelectualidade e da autonomia que buscamos, como vemos no conselho de anciãos onde se estabelece uma paridade de gênero que nos faz aspirar por essa África, continente mãe da equidade.

No entanto, por mais que o filme nos dê apresente um matriarcado africano guerreiro, o que enche os olhos é a dignidade com a qual somos pioneiramente retratadas em tela. Um dignidade moral que se coloca na lealdade mordaz de Okoye ao trono e se replica em uma Nakia forte, independente, liberta dos diálogos água-com-açúcar, adulta e autônoma, inclusive quando a tela nos sugere romance. Já somos guerreiras. Talvez não militarmente poderosas como as de Wakanda, mas essa é uma representação da realidade que já possuímos. Como é bonito nos reconhecer em tela.

Observar T’Challa se materializar no modelo de masculinidade negra que buscamos construir é de encher os olhos. A representação do homem negro nas etnografias que nos citam é sempre uma duplicidade entre a feminilização ocasionada pela escravização de sua força de trabalho e seus corpos e a imagem pós-abolicionista do homem negro violador. Pantera Negra nos oferece um herói guerreiro, é verdade, mas também um homem extremamente culto, digno, honrado, elegante e que se destaca na maneira como trata todas as mulheres com que interage em tela. T’challa é Rei! É a prova de que é possível à juventude construir uma relação com a ancestralidade que nos leve, sim, para o futuro.

E como não se apaixonar pela história do antagonista – porque há muita legitimidade para que possamos chamá-lo simplesmente de vilão -, espelho dos jovens negros que se proliferam pelas periferias de grandes centros urbanos por toda a américa – de Nova Iorque a Rio de Janeiro-, cujos corpos racializados são apropriados, por meio da desumanização ocasionada pelo racismo; e como resposta a um ciclo de abandonos e sonegação de direitos básicos, como a dignidade, tornam-se vetores de uma violência que chegou a eles majoritariamente pelas mãos do Estado? Não é possível!

Talvez, em todo o filme, esse personagem seja a representação da única identidade negra, diaspórica, pós-abolicionista possível para nós: a raiva, o desconhecimento absoluto da história real de seus ancestrais e uma ilusão salvacionista de uma Mãe-África pertencente a um passado que não podemos alcançar. Não confundam a resposta do oprimido com a violência do opressor, certo? Pois sim!

Aqui estabelecemos uma relação de acalento com o imaginário do que teríamos sido. Sim. Teríamos sido Wakanda. Historicamente ignorados em tudo que o Ocidente nos tomou, todos os avanços tecnológicos pioneiros pelos quais somos responsáveis e nunca nos foi dado crédito, senão uma série de peças em um museu qualquer que representa uma forma de sociedade que nos dizem ser primitiva.Wakanda é a representação de uma unidade africana construída de forma igualitária, onde participam todas as nações e a ancestralidade é força motriz dos avanços tecnológicos.

Ao final, esse vazio que carrego em mim está tomado pela ideia de que é preferível morrer no mar, junto a nossos ancestrais, do que viver uma vida encarcerada – entendam como quiserem.