Bodosa”, “brabona”,”foda”: todo mundo tem algo a dizer sobre as mulheres negras, ninguém tem tempo para ouvir o que elas têm a dizer sobre si mesmas.

Eu já escrevi esse texto. Quem acompanha meus escritos vai lembrar de todas/ as vezes que eu escrevi coisas semelhantes. Ainda assim, dado um misto de acontecimentos e sentimentos adensados a um maior aprofundamento teórico estou aqui escrevendo as mesmas coisas de um jeito diferente.

Esse texto nasce de um compartilhamento entre mulheres negras e de uma outra percepção a respeito dos engajamentos afetivos entre homens e mulheres negras, e quero deixar desde agora bastante explícito que por engajamento afetivo estou falando de coisas mais amplas que relacionamentos do tipo flerte/namoro/casamento. Estou falando de ausências de afeto, estou falando da inexistência de trocas concretas, estou falando de solidão não no sentido da falta de parceiros sexuais, mas em relação a escassez de parcerias político-afetivas entre homens e mulheres negras. Especialmente entre homens negros cisgêneros heterossexuais e mulheres negras cisgêneras heterossexuais. (E se você não compreende o que sejam pessoas cis, dá uma lida nesse texto aqui)

Há uns dias atrás eu escrevi sobre o ódio que feministas negras recebem de todos os lados. Outras mulheres já escreveram sobre isso aqui e recomendo a leitura dos textos delas pela importância do tema, não vou me debruçar diretamente sobre esse tópico nas linhas que seguem,  mas remeto a essa escrita porque na ocasião eu disse que não me importava mais, o que não é bem verdade. Essa análise do ódio, especialmente dos homens negros, me interessa para que nós consigamos enfrentar o mesmo e sair do lugar da angústia que tem nos tomado (há) tanto tempo.

Em um texto do ano passado que retornou as redes dia desses um homem negro descreve os processos de interação desses homens com mulheres negras desde a infância e, a partir desse diagnóstico , reflete e problematiza as razões das quais ele mesmo sempre nutriu desejo por mulheres brancas. Nessa descrição é bastante impressionante a forma com que as  mulheres negras são nomeadas por todos. Também é bastante impressionante que ao refletir sobre esses adjetivos todos o autor muito pouco reflete sobre o que essa adjetivação pejorativa implica na vida das mulheres negras: controle. Controle e desumanização.

Fica evidente que mesmo  quando homens negros querem nos elogiar eles recaem na desumanização. Eu mesma sou frequentemente o recipiente dessa lógica. Homens negros que gostam do que eu reflito e que se utilizam do arcabouço intelectual e afetivo que eu disponibilizo para eles quase nunca descrevem inteiramente o que eu significo para eles. Eu sou sintetizada ao : “a negona é fodona”. Jamais há um reconhecimento integral da minha potencialidade e relevância. Não me recordo de nenhuma vez ter ouvido ou lido publicamente de um homem negro: “Winnie, você é uma mulher importante para mim, extremamente inteligente, sua produção intelectual me auxilia a pensar melhor e você é um ser humano potente”. Esse é um exemplo entre tantos de uma descrição elaborada que eu vejo mulheres brancas receberem , mas que eu não recebo. Também pouco recebo esse tipo de articulação das mulheres brancas, recebo um substantivo-adjetivado(e me perdoem as especialistas em língua portuguesa se me equívoco nas categorias da gramática): musa, rainha, diva, fodona. Poucas vezes há uma descrição pormenorizada do que esses termos significam e isso é uma forma de controle de narrativa a respeito de mim mesma. Essa sintetização bastante sumarizada de mulheres negras opera na lógica da desumanização e da ausência de empatia.

Há para nós uma falta de dialética que opera em níveis múltiplos. O não reconhecimento entre iguais de cor ou iguais de gênero significa uma restrição ao nosso potencial emancipatório na sociedade. E nós precisamos criar estratégias para lidar com essas restrições, porque sem elas estamos presas em angústias sem fim. Essa angústia constante se transforma numa luta interna para que a nossa auto-valorização não seja soterrada , precisamos todos os dias acordar, olhar no espelho e fortalecer para nós mesmas o quanto somos , tomando emprestado o definição da pequena Tatiely, maravigoldies  e o que isso significa.

Uma mulher negra extremamente inteligente, articulada, afetuosa, talentosa e querida que admiro muito, me contou que uma vez estava sendo elogiada por um homem branco e o amigo negro que estava com ela disse : “é, essa é uma negra bodosa”. Há uma perversão tóxica nessa adjetivação, e também opera uma forma de manter a mulher negra “no seu lugar”. É um alerta controlador que objetiva manter a mulher negra no seu canto, o cantinho da humildade resignada em que você não pode potencializar suas habilidades e capacidades porque opera o medo de ser lida como alguém arrogante, nociva, venenosa. O medo que o seu igual de cor não reconheça mais você devido sua ascensão intelectual e/ou financeira nos paralisa. O medo da imagem que o igual fará de nós nos controla. O “bodosa” é uma  forma de inferiorização, da mesma forma que a imagem da mulher agressiva, da negra castradora que não permite que o homem negro viva sua virilidade e de tantas outras imagens controladoras que são massificadas a todo momento para que as mulheres negras não tenham êxito em seus esforços em fomentar narrativas que permitam o empoderamento ( e sim, eu sei que muita gente tem ranço da palavra empoderamento mas vamos aqui fazer a lição de casa completa e entender empoderamento numa perspectiva política e coletiva imprescindível para que as mulheres negras  alcancem justiça social) da coletividade negra.

É preciso dizer também que a forma com que o homem negro se refere a mulheres negras está diretamente conectada com as consequências da desumanização da população negra de conjunto. Homens negros jamais estiveram desfrutando dos benefícios inúmeros da masculinidade hegemônica. Óbvio, por serem negros jamais estiveram numa posição hegemônica. Os homens negros são assassinados devido aos estereótipos violentos que se organizam exatamente na sua masculinidade.

A reprodução massiva da imagem  do homem negro enquanto um ser bestializado justifica o genocídio internacional da população negra, foi o que justificou a escravidão, é o que está por trás dos enormes níveis de encarceramento compulsório desses homens. Mas, no que pese a consciência de muitos homens de como essa lógica opera na sua morte, não há uma disposição efetiva em livrar-se da caracterização de macho-viril conquistador de mulheres brancas e uma das razões para isso é que ao se relacionar e estabelecer vínculos afetivos e tentativas de reconhecimento com mulheres brancas eles acessam um pouco(um pouco bem escasso e precário) da humanidade que essas mulheres têm devido a sua branquidão. O homem negro que se afeiçoa à mulher branca e recebe dela uma ficção de  reconhecimento é menos bruto, menos monstro, mais gente. Há ainda o óbvio contorno da negação da feminilidade para as mulheres negras, homens negros  recebem as mesmas imagens controladoras de mulheres negras que o restante da sociedade recebe e, diferentemente das mulheres negras, não são impelidos a refletir sobre a perpetuação desses estereótipos e suas consequências. Porque um homem se relacionaria com uma mulher que não pode e não quer estar reproduzindo identidades que são previamente construídas para ela?

Na verdade a leitura que esses homens fazem das mulheres negras está organizada diretamente com essas imagens. A leitura que os homens negros fazem das mulheres negras em sua família, por exemplo, orienta o desinteresse em estabelecer uma afetividade que esteja organizada em marcos outros que não o da responsabilidade materna, da hipersexualização ou da autoridade castratória. A anti-escuta dos homens negros e o silêncio insubmisso das mulheres negras, não compreendido, é um fator relevante no estabelecimento do preterimento afetivo dessas mulheres.

 

Há um outro significante importante aqui que é o elemento da perpetuação dos atributos corporais que a colonização designou aos homens negros. O corpo do homem negro é um corpo pré-fixado pela branquitude, mas essa pré-fixação não se estabelece da mesma forma entre homens e mulheres  negras. Os atributos físicos do homem negro são lidos como dádivas e são cobiçados com ferocidade por brancos(homens e mulheres). Uma alegoria que demonstra isso de maneira bastante didática é a que está imprimida no filme Corra! ( e se você ainda não viu esse filme e não gosta de spoillers pule diretamente para o próximo parágrafo). Nesse filme, os brancos alienem a mente do negro de maneira literal e ficam apenas com os seus corpos. E, a maioria dos personagens que tem a mente comprimida para que os brancos possa desfrutar das suas habilidades corporais são homens negros(e nesse ponto deixo que vocês mesmos façam suas reflexões sobre o que isso significa).

Eu tenho estudado com bastante rigor o pensamento de Patrícia Hill Collins, ela aparece frequentemente nos meus escritos e nesse aqui não é diferente, quase todo o conteúdo desse texto esta referenciado em seus estudos. Concordo com Hill Collins quando ela diz que nossa auto-definição precisa se dar em espaços seguros para mulheres negras, espaços nos quais possamos elaborar nós mesmas nossas narrativas, singularidades, desafios, contradições, complexidades, agendas políticas, afetos e tantas outras coisas. Espaços em que possamos reforçar e aprofundar nossas capacidades e habilidades, espaços onde nossos afetos tornem-se inabaláveis perante o racismo, espaços onde possamos falar e ouvir sem ser restringidas por imagens controladoras. Espaços onde possamos estabelecer estratégias políticas, fortalecer nossos laços, apresentar nossas vulnerabilidades e organizá-las de forma potente. Espaços onde possamos  compreender que nós somos muito mais do que uma mãe preta, uma neguinha bodosa, uma preta insaciável ou uma mina foda. Espaços em que nós mesmas sejamos agentes dos significantes que queremos que sejam mobilizados para o nosso empoderamento e para o fim dessa angústia tão grande que tem nos paralisado e silenciado. Espaços onde sejamos capazes de fortalecer as nossas vozes, as vozes que outras mulheres negras lutaram tanto para recuperar e que, agora, permitem que eu consiga ter consciência de mim: uma mulher inteligente, potente, afetuosa, solidária, disposta e muito, mas muito persistente.

 

Referências:

COLLINS, Patricia Hill. Black feminist thought: Knowledge, consciousness, and the politics of empowerment. Routledge, 2002.

NKOSI, Deivison Faustino. O pênis sem falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidade e racismo. Feminismos e masculinidades. Eva Alterman Blay (org.). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. Disponível em: https://kilombagem.net.br/wp-content/uploads/2015/07/O-PÊNIS-SEM-O-FALO-DEIVISON-NKOSI.pdf

CUSTÓDIO, Leonardo. Como palmiteiros nascem? Uma reflexão de quem sempre palmitou. Disponível em: http://www.leocustodio.com/site/?p=509

 

Contribuíram para a formulação desse texto : Ana Flor Fernades Rodrigues e Kaya Rodrigues