O texto é uma crônica criada a partir da notícia do caso do Cabula que completa 3 anos

 

Às cinco horas da manhã Maria Aparecida pôs o café para coar enquanto acordava os seus filhos. Acordou os dois mais novos e começou a observar o corpo do mais velho em sono profundo. Marcos estava ainda exausto por sua tripla jornada: de manhã ele estuda, à tarde e à noite trabalha. E nos três turnos é o filho e o irmão mais velho e dedicado que cuida de todos.

Ele ouve as histórias da irmã Júlia já confusa pelas mudanças da adolescência e cheia de pudores diante de um mundo que lhe fecha as portas. Acha tempo também para entrar no mundo lúdico do caçula Carlos que em alguns dias é um aventureiro caçador de dragões e em outros é ele mesmo um dragão. Marcos tem dezessete anos. Está no último ano do ensino médio na escola pública do bairro e trabalha em uma pizzaria das dezesseis horas até o horário que ainda houver movimento. Vive com um salário mínimo e quase nunca um extra pelos turnos em que o movimento vai madrugada adentro. Maria Aparecida contempla Marcos dormindo e pensa na manchete que tinha ouvido naquela manhã um pouco antes de colocar o café para coar. A notícia trazia a chacina ocorrida no bairro do Cabula. Dezoito jovens encurralados pela polícia. Doze foram mortos e seis precisaram acreditar estarem mortos para não morrer. Como o animal faz com seu predador. Mais de 500 tiros foram disparados.

Segundo o laudo, quase 100 atingiram os corpos. Cem tiros! Não foi uma ação pela segurança. Foi pelo ódio. Tudo pelas mãos de policiais. Não! Tudo por mãos que naquele momento eram as mãos do Estado. Maria Aparecida até então confiava mais no Estado do que nos seus vizinhos.

Dizia: “ruim com ele, pior sem ele”. Ela não escondia de ninguém sua paixão pelo país pentacampeão em copas do mundo. Mas naquela data o estado desse mesmo país num campo de futebol pôs fim a vidas por ele já abandonadas desde a concepção. Ouvir àquela notícia a fez ver com outros olhos o mundo no qual vivia. Não que ela desconhecesse anteriormente a violência na atuação da polícia. Ela não era alienada. Mas não havia ainda sentido aquela ânsia que sentiu ao pensar “meu filho!”. Como toda mulher preta, pobre e criada no meio da periferia ela conhece bem desde menina os horrores que assolam o seu povo. E agora algo naquela notícia e no corpo adormecido do Marcos a fez tremer. Era como se ela que estivesse dormindo e naquela manhã fosse acordada com os disparos de mais de 500 tiros. Por um instante ficou paralisada pela angústia. Quem irá proteger o seu filho enquanto ele trabalha na madrugada em uma pizzaria periférica? Qualquer problema que houver seu filho pode ser o culpado. Não por causar problemas, porque Marcos é sempre muito certo. Mas já é a princípio o culpado por ter nascido preto e por viver em meio à pobreza. Marcos antes de nascer já é o culpado porque sua mãe engravidou aos catorze anos e desde então passou a ter a sua vida dominada por um homem explorador, autoritário e violento. Maria Aparecida sabe que seguiu um caminho comum às meninas nascidas ali. Ela é mais uma no bando. Bando que por sua própria condição de ser já é abandonado. Bando daqueles que habitam as margens étnicas, sociais, econômicas e geográficas. Maria Aparecida nunca foi protegida pelo Estado. Ela é ora parte do inimigo a ser combatido ou da doença a ser extirpada, ora refém por depender dele que pode talvez lhe garantir direitos básicos. Marcos é refém do Estado.

Carlos é refém do Estado. Júlia é refém do Estado e, por ser mulher, sua resistência é ainda mais acompanhada pela mãe: “nunca se cale porque um homem não quer a sua voz”. Depois de tanto sofrer, de quase morrer por conta de um marido violento Maria Aparecida o processou e pôde se enxergar uma mulher forte e capaz de seguir. Essa é a mulher na qual Júlia se inspira e com a qual Marcos e Carlos aprendem que todos têm direitos iguais e devem ser respeitados em suas diferenças. Agora algo a mais nela está diferente. Pensando não mais nos seus, mas em todos os filhos ela teme por sua comunidade. Os seus vizinhos são por ela muito mais do que o Estado. Com eles mantém uma rede de solidariedade pela história semelhante e pela mesma perspectiva embaçada de um futuro que é pelejado a duras penas. Naquela manhã Maria Aparecida não chamou Marcos como fazia todos os dias. Ela tocou em suas costas carinhosamente e o despertou. Ele levantou e ela pensou em uma das mães vítimas da chacina. A mãe que teve que desenterrar o seu filho com as próprias mãos. Cavou pouco a pouco a terra que cobria o corpo do seu filho. Corpo morto e enterrado pelo Estado, pelas mãos legitimadas pelo Estado e que naquele momento eram as mãos do Estado. Maria Aparecida lembrou-se do calor da pele do seu filho que dormia tranquilamente.

Ela imagina como aquela mãe tocou a terra para retirar o corpo gelado do seu filho sem vida e que jamais poderia se levantar como Marcos acabara de fazer. O garoto banhou-se, vestiu-se e sentou-se à mesa. Ele irá para a escola, à tarde chegará, fará o almoço dos irmãos e depois irá para a pizzaria. Maria Aparecida  permanece atordoada por ter consciência de que o seu filho é condenado por ter nascido. O café passou e todos tomaram. Mais um dia começou. Mais um dia no bando. Mais um dia à margem. Mas, a partir de hoje Maria Aparecida sabe. Não por mais uma reportagem, mas por sua consciência que a fere e assim a desperta. As mortes dos jovens do Cabula e as mortes que ocorrem todos os dias não a atinge com uma tristeza de recolhimento. Chegam a ela como um soco no estômago. Ela agora vive o seu cotidiano contemplando a existência ordinária que resiste de modo extraordinário. O café servido é hora de desligar o fogo do cuscuz