Texto originalmente publicado na SintoniaRap

 

Quem curte RAP sabe que o estilo musical envolve várias vertentes, e até uma certa disputa entre elas. Entretanto, foi interessante perceber que nas listas de melhores álbuns de RAP em 2017, “Eletrocardiograma”, da rapper brasiliense, Flora Matos, foi selecionado por um grupo diversificado de mulheres. Flora não abordar temas sociais de grande repercussão, mas escolhe um tema necessário e comum às mulheres que se relacionam amorosamente com homens: o abuso psicológico e o desgaste emocional.  Ao longo das 10 faixas, Flora relata situações, criando cenário, e ajuda a identificar sentimentos que muitas vezes nem sabemos dar nome.

Já na primeira música, Flora se propõe a falar na perspectiva masculina, demonstrando como nós mulheres percebemos esse comportamento. Se de um lado, quando cobramos responsabilidade emocional, eles interpretam como um pedido de namoro. Por outro, a medida em que eles se envolvem, acreditam que “estão perdendo o juízo”, não correm o risco de assumir o compromisso, e dizem que só querem ser “melhores amigos”.

Flora também demonstra como constantemente estamos dispostas a ceder e mudar. Como muitas vezes temos até consciência do que queremos, mas são eles que “quase sempre convencem tão bem”. Esses e outros comportamentos que demonstram como o machismo se expressa nas relações afetivas, batem certo nas letras não por acaso.

Flora assumiu o risco de fazer um álbum “romântico”, do ponto de vista da autoanálise, literalmente falando. Ela coloca na rua uma experiência que é real e pessoal, mas que se repete quase que como receita de bolo nas relações heterossexuais. Numa sociedade que estereotipa o amor feminino, construído desde os primeiros livros e filmes infantis, com referência em princesas à espera do príncipe salvador, letras como “Eu não quero saber de você no meu pé toda vez que eu for passar o fim de semana longe” é um impulso a ruptura.

É verdade que o tema do álbum não é novo no RAP. Tássia Reis por exemplo, aborda a questão em diversas músicas. A música “Semana vem” do álbum “Outra esfera” por exemplo, fala da clássica mijada no poste: o cara que some, e quando vê que a mina tá de boa, saindo pros rolê, volta, e ilude pra garantir a prioridade no território. Mas Eletrocardiograma é um álbum totalmente dedicado ao tema, apresenta um roteiro ao longo das músicas, intercala o lugar da carreira e do relacionamento, fala da dúvida, admite fragilidades, questiona e incentiva a liberdade.

Obviamente nem tudo é consenso no álbum. E não há dúvida de que “Preta de quebrada” é a principal polêmica, não apenas de eletrocardiograma, mas da carreira de Flora. Particularmente tenho duas polêmicas com a música. Primeiro, porque não acredito que todo homem seja capaz de amar as mulheres, ainda! Na maioria das vezes eles nunca amaram de verdade as mulheres e como elas são. Estar junto é muito mais pela comodidade, pelo que a mulher pode oferecer, uma referência quase que maternal.

E essa necessidade de encerrar o conflito quase que em um apaziguamento da responsabilidade masculina, diz muito sobre a experiência de Flora com a negritude. Os limites para violência dos homens contra as mulheres sempre foi bastante diferente entre brancas e negras. A hipersexualização do corpo negro, coloca as mulheres negras no lugar do sexo e a mulher branca para o casamento. Isso também fundamenta uma ideia de força e fragilidade que se expressa no tratamento dos homens com suas parceiras a depender da raça. Isso é tão sério quanto o fato de que em 10 anos (2003 – 2013) o número de mulheres negras vítimas de feminicídio cresceu 54%, enquanto que de mulheres brancas diminuiu 9,8%.

Num país que teve a miscigenação e o embranquecimento como projeto de Estado, a confusão sobre o que determina a raça é real. É diferente dos Estados Unidos, por exemplo, onde a sua raça está ligada a genealogia da pessoa, sem negar que a expressão do racismo, contudo, se dê de forma diferente a depender do fenótipo que as pessoas carregam. Eu mesma, já me peguei por mais de uma vez em dúvida quando perguntada sobre a raça de pessoas de pele clara, porém, com fenótipo que remete à heranças negras.

Mas é a convivência e o diálogo sobre, não apenas a estética, mas a expressão da raça na trajetória individual que possibilita chegar à uma conclusão correta. E é justamente esse reconhecimento e essa vivência que Flora ainda não conseguiu demonstrar em sua produção. Nem “Preta de Quebrada parte 2” consegue dar conta de aspectos raciais na vida da rapper, e isso mantêm em debate a legitimidade da sua autoafirmação racial.

As questões raciais têm alcançado espaço e visibilidade, gerando lucro e permitido avanço para pretos em diversas áreas de mercado. Nesse processo, pessoas não negras, tem se afirmado de forma conveniente, com a finalidade de colher os frutos dessa luta. Afirmar-se preta e não avançar nesse debate abre uma cortina de fumaça sobre o local de fala da Flora Matos. A autoafirmação é uma atitude política que pressupõe um compromisso com a luta antirracista. Se Flora não sabe falar sobre as expressões do racismo em sua vida, vai continuar falando que é preta e tendo sua legitimidade questionada.

Flora é uma grande artista, seu protagonismo quanto aos rumos da sua carreira num estilo musical ainda masculinizado é de importante representatividade. Sua escolha e capacidade de abordar, em termos gerais, os aspectos do machismo nas relações amorosas entre homens e mulheres é igualmente importante. Mas ser preta não é uma opção, como é trançar o cabelo ou pegar um bronze. É uma condição que nos acompanha estando ou não na quebrada. E combater a violência racista exige que esta seja reconhecida por quem vive e admitida por quem pratica.