Texto escrito por Julia Moraes e Ângela Ramos

 

Zó tem sido pauta de muitas conversas já faz um bom tempo.  Mulher negra com múltiplas habilidades desenvolvidas, inúmeras leituras e estudos, vastas experiências e vivências em diversos espaços educacionais. Quem teve a honra de conhecê-la sempre tem algo para contar. Assim sendo, este texto, o quarto que trazemos aqui para os Blogueiras Negras sintetiza uma conversa entre duas pessoas, entre tantas, que Azoilda aproximou. Nele, cada uma, do seu jeito, foi buscando na memória afetiva as melhores palavras para tentar descrever como entrou neste círculo de amizades e afetos tornando-se um pouco do legado de Zo.

De minha parte, fico pensando nas inúmeras possibilidades de aproximação entre as pessoas. Um olhar, um gesto, uma palavra… Qualquer que tenha sido o fio condutor, o que mais importa é o que faz permanecer na vida do outro, pois há fios que são tão frágeis que não conseguem virar laço. Com Azoilda Trindade, a aproximação veio por vários fios: o amor pela educação, o amor pela literatura, o amor pela vida, e o entusiasmo ao falar sobre o chão da escola. Fios puxados pela resistência na luta e com muita intencionalidade. Não poderia ser diferente. Viraram laços.

Ouvir e ler o que Azoilda pensava sobre educação, sobre o fazer pedagógico, sobre as relações raciais, principalmente, no ambiente escolar e sobre a vida, sempre foi encorajador. Era uma forma de olharmos para o nosso ser e nosso fazer entendendo que estávamos no caminho, mas que poderíamos fazer muito mais. Não era o olhar da falta, mas o olhar da potência. As nossas potências como mulheres e como educadoras ainda mais potencialiazadas por sermos mulheres negras educadoras. O entendimento de que se nos fortalecemos nessas potências, buscamos formas de fortalecermos também as potências de nosso(a)s alunos e alunas negros e negras.

Azoilda apontava vários caminhos potencializadores como: o conhecimento e autoconhecimento, o cuidado e o autocuidado que podem ser conduzidos por diferentes fios. Um deles, e que nos aproximou ainda mais, foi a literatura infantil. Foram vários fios de prosas sobre os livros e histórias que alinhavavam as nossas conversas, nosso trabalho, nosso olhar sobre as produções literárias e como e porque esta ou aquela obra poderia ser significativa para nossas crianças e profissionais da educação também. Produções que trazem histórias de lutas das populações negras, contos africanos, livros com protagonistas negros e negras e os de autoria de mulheres e homens negros se constituíram como os mais significativos para nós e nosso trabalho. Embora também trocássemos impressões sobre livros que nos são muito caras pela sensibilidade como escritoras/escritores, ilustradoras/ilustradores com palavras e traços nos afetam e nos tocam na alma.

Nossos múltiplos olhares para a literatura infantil e suas possibilidades nos fizeram, de certa forma, colecionadoras de livros para crianças. De minha parte, não imaginava que Azoilda tivesse tantos livros. Com a incumbência de ajudar a pensar sobre o destino a ser dado a um dos legados que ela deixou, procuramos ter um olhar cuidadoso sobre que livro iria para cada instituição escolhida. Uma tarefa que poderia ser simples, para nós, suas amigas, tornou-se complexa. Cada um daqueles livros carrega em si, para além da história que conta, uma história com a Azoilda. Quantas vezes nos pegamos olhando uma publicação e tentando imaginar o que ela pensava sobre aquele livro, que significado teria tido em sua vida, que conversas e olhares poderíamos lançar sobre aquele material. Será que ela viu algo neste livro que não percebemos ainda?, Sobre alguns nós até sabemos os laços que a uniam a eles, mas outros não. E para doar…  Se ela pudesse escolher, para onde entregaria? Quais desses livros ela acharia mais significativos para cada grupo?  Qual desses ela imaginaria que fizessem os olhos das crianças brilharem mais em determinada instituição? Muitas perguntas passam pela cabeça de cada uma de nós que participamos da tarefa de disponibilizar este acervo, mesmo que com alguns critérios já discutidos. Para a maioria das perguntas não temos respostas. Então, seguimos com a nossa intuição, nossos olhares e puxando fios para que outros peguem a ponta e deem a continuidade estabelecendo novos laços potencializadores com tantas histórias que Azoilda nos permite compartilhar.

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Então Ângela, comigo foi um pouco diferente. Não convivi com Azoilda com a intensidade das que escrevem celebrando a sua memória, mas quis o destino que nosso encontro se desse no último ano de sua vida e que eu pudesse ter o privilégio de conviver com Zó nas aulas particulares de inglês que ela solicitou. Não preciso dizer que as aulas eram recíprocas e que a convivência foi fundamental para ressignificações e retomadas em minha vida. Parte dela e do legado continuo conhecendo através da rede de afetos que ela mesmo começou e teceu.  Somos alguns dos fios que ela durante uma vida, com generosidade, puxou e acolheu para uma tessitura em conjunto.

Me perguntava, como aqueles olhos que tanta coisa já tinha visto, sentido, lido, estudado, pesquisado, o quanto ainda se encantavam a cada descoberta sobre a vida das (os) nossas(os) ancestrais e companheiras/companheiros transatlânticos… Dos templos monolíticos de Lalibela às Quatro Mulheres de Nina Simone – tudo emocionava a sempre menina Zó. Sua vontade em conhecer, ir além das fronteiras, era imensa. Pesquisadora nata, era apaixonada pelas relações humanas, as quais observava e se afetava ora com acolhimento, ora com sagacidade e ironia moleca que nos fazia também rir com ela. “Nossa, é sobre isto esta música? Macho traído?”, quando teve em mãos a tradução de uma conhecida canção interpretada por Marvin Gaye.  E abria uma gargalhada enquanto balançava-se ao som da música.

E diante das minhas inseguranças e dúvidas acerca de uma vida acadêmica, a voz firme e ao mesmo tempo tenra diz: “Cuide de sua filha! Ela vai viver em um país racista e machista… preocupe-se no que você pode fazer por ela agora”. Sim, ela enxergava as nossas multiplicidades. Que somos potentes – palavra constante em seu cuidar e que todas nós incorporamos –  aonde quer que estejamos e queremos estar, sendo no micro ou no macro, em casa, na rua, na sala de aula, na universidade… Temos histórias para contar, fazeres e experiências para compartilhar.

Azoilda teceu várias teias em sua militância, uma delas de educadoras e educadores que fizeram como ela uma aliança com a escola pública . Hoje me sinto parte de uma destas teias, formada por educadoras negras que celebram a vida, se fortalecem, se questionam e questionam esta sociedade estruturalmente racista e classista. Tal como um conto de Anansi em que ele e seus irmãos juntam suas forças e expertises/dons para salvar o pai, nós também trocamos experiências, nos apoiamos em nossos espaços para fazer um chão da escola dentro de uma perspectiva multirracial, que precisa urgentemente conhecer, pesquisar, recontar a história, romper com a cartilha da cultura hegemônica, descolonizar pensamentos e buscar diálogos para a emancipação de nossa(o)s aluna(o)s – a verdadeira razão de estarmos na escola.

Existe sim, acomodação, a rotina alienante e a reprodução de desigualdades na escola, mas existe, também, um fluxo fascinante promovido pela pluralidade de vidas, interesses, desejos presentes no cotidiano escolar. Existe, sim, o sucateamento da escola pública, em função do “cronificado” quadro, no nosso país, de produção e manutenção de desigualdades sociais, raciais, culturais, de gênero, etc. Mas há, também, histórias de lutas contra esse quadro. Há e sempre houve muita gente querendo romper com o quadro de exclusão e legitimação da exclusão que alguns querem colar à escola.

Trindade, Azoilda Loretto da. Olhando com o coração e sentindo com o corpo inteiro no cotidiano escolar. In.: Multiculturalismo – mil e uma faces da Escola..

Hoje, fazendo parte de um coletivo de amigas professoras que organizam e destinam os livros desta grande visionária da educação antirracista e plural, me sinto honrada de ter sido abraçada por esta rede. O rápido convívio com Zó também me ensinou que na vida não há melhor época para isto ou aquilo, a hora é sempre o agora. Ela corajosamente viveu, inscreveu sua história e nos deixou um legado. Há pessoas que vivem intensamente e nos deixam precocemente… Zó é uma delas.

 

Julia Moraes e Angela Ramos são professoras da Rede de Educação Básica do município do Rio de Janeiro.