Texto escrito por Tatiana Paz e Larissa Santiago

 

Para abrir essa discussão, é importante deixar claro que queremos juntas sair do mesmo ponto de partida, certo? A ideia primeira aqui é entender que o racismo tá na estrutura e que todas as críticas a serem feitas, portanto, são lançadas a esta estrutura. Estamos na mesma página? Tudo combinado?

Se vocês não entenderem, é só gritar nos comentários. Vamos lá:

Seja na saúde, educação, segurança pública, ou na mídia, pensar os espaços  (não) ocupados pelas mulheres negras requer o reconhecimento de que o racismo não está restrito às ofensas sofridas cotidianamente na esfera privada, mas sobretudo pensar que ele existe enquanto um sistema de opressão que  afeta mulheres negras de forma estrutural.

Ao pensar as realidades de mulheres negras como um coletivo, no Brasil, não podemos desconsiderar, que além da raça, fatores como classe e gênero afetam essas mulheres na suas vivências cotidianas. Contudo, ainda que diante do sistema de opressão de gênero, raça e classe, o protagonismo da mulher negra impulsionou e impulsiona ações políticas e intelectuais importantes que têm se renovado. Nas ruas, nos terreiros, nas suas famílias e comunidades, na saúde, na educação, e na Internet, as mulheres negras têm construído um legado de lutas.

Essas ações políticas sofrem, no entanto, com as perversas faces do neoliberalismo e o que podemos chamar de suas garras tentaculares: o processo de individualização, a exacerbação da meritocracia, valorização do capital  (seja ele social, financeiro, político). Estes valores que balizam a socialização dos indivíduos a partir da teoria neoliberal afetam a sociedade como uma onda, que avança sobre cada parte da nossa atuação na sociedade. Neste processo, o que percebemos então que as ativistas não estão livres de ser afogadas por essa onda!

Nós mulheres negras ativistas nos diversos lugares precisamos pensar, já que somos resultados dos imbricamentos de gênero, raça e classe (mulheres, negras e pobres), que as nossas realidades são permeadas por acontecimentos que são consequência desses sistemas (não entendir, bial!). Queremos dizer que, debilidade no acesso a educação, falta de oportunidade em empregos, nenhum acesso a tecnologia ou saneamento básico são consequências de um entrecruzamento de opressões quando tratamos de mulheres negras pobres, por exemplo.

Então, em verdade em verdade vos digo: não podemos nos dar o luxo de escolher uma opressão!!! Parece injusto e indigno com as nossas companheiras, mas é real. “Uma youtuber negra precisa ser anticapitalista” é uma sentença que machuca, mas provoca.

Se pensarmos numa perspectiva decolonial, um mudança na estrutura só pode ser feita fora da estrutura. Como assim? Se a gente chamar Audre Lorde pra conversa, ela vai dizer que “as ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a casa do mestre”, ora, o sistema nunca permitirá ser desmantelado por dentro, já que ele mesmo reconhece as possíveis transformações e as inibe (transformações diferente de mudanças – lembra de superestrutura e infraestrutura de Marx? pois bem!). Apesar da imagem-metáfora do muro ser bastante crível, – aquela que diz que só possível derrubar o muro estando dentro de sua estrutura -, seria razoável pensar que para transformações substanciais, de fato, precisamos estar distantes do muro, não só jogando pedras nele, mas sobretudo, planejando e construindo outros muros.

Ao pensar nos ativismos diversos e sua na conformidade com o sistema – ou o que chamaríamos de mudanças -, podemos perceber milhões de alternativas e de formas que provocam determinadas mudanças, como black money, afroempreendedorismo e outras estratégias que reforçam e aglutinam mais de nós (populações negras) em torno (ou mesmo dentro) do sistema. Ao refletir sobre isso, precisamos pensar: como indivíduos podem garantir transformações na estrutura a ponto de incluir coletividades (princípio básico do povo negro)? Apesar de reconhecermos aqui -neste texto e apenas nele- que muitos ativistas não romantizam nem estão alienadas nos seus relacionamentos com o capital, por exemplo, como estes mesmos ativistas podem garantir que haja abertura de espaço para outros?  O próprio sistema responde: não há espaço para dois Lázaros Ramos, nem duas Maju Coutinho. Não dá pra ter cinco Elza Soares, nem mesmo dez programas só de pretos na televisão. O sistema cheio dos seus tentáculos neoliberais, racistas e minoritários é contrário a principal estratégia das populações negras: a coletividade.

Portanto, as ações ativistas desenvolvidas na Internet (como um exemplo, tá gente, sem ranço) não estão imunes às estratégias do capital, pelo contrário, é ele quem define, de forma racista inclusive, as possibilidades de visibilidade nas plataformas por eles mesmos criadas. As opressões vividas pelas mulheres negras ao produzirem conteúdo na Internet são questões concretas. É necessário compreender, por exemplo, como as mesmas empresas que hospedam nossos conteúdos podem agir de forma racista restringindo o alcance e a visibilidade das nossas narrativas através de algoritmos. Isso pra ficar na nossa atuação na rede mundial de computadores. Se a gente pensar em outros ativismos, este texto jamais terá fim!

Assim, pensar os avanços e os limites do ativismos de mulheres negras na internet inclui pensar uma internet livre, pensada e transformada por nós, não colonizada pelo mercado ou pelo Estado, mas construída por várias mãos. Como conquistá-la? De dentro ou de fora? Estando dentro, como sabotá-la? Uma vez fora, como atrair atenção da coletividade?

Em que passo nós, mulheres negras brasileiras estamos? Estamos lutando por espaços nessas instituições racistas, neoliberais e ao mesmo tempo construindo novos-nossos espaços? porque o próprio sistema neo-liberal nos engole diariamente na busca pela sobrevivência? como estar nessas instituições e ao mesmo tempo construir nossos espaços e uma pauta antirracista, anticapitalista, antisexista, antitransfóbica sem sermos meramente conciliadoras?

Com todas essas perguntas e questionamentos, fica pra reflexão mais uma outra: incluir ou destruir?