Texto originalmente publicado no blog Alma da Preta

 

O impacto positivo do Pantera Negra no Brasil e no mundo transformou-se numa avalanche de conteúdo nas redes sociais e portais de notícias do segmento. E não é para menos, pois o que vemos é uma celebração a ancestralidade, a diversidade cultural dos que vivem no continente africano.

A primeira aparição do herói no universo dos quadrinhos foi em 1966, numa edição do Quarteto Fantástico. Esse período foi marcado pela luta dos direitos civis sob a liderança do pastor Martin Lutter King e Malcom X, e a criação do Partido dos Panteras Negras. No entanto os criadores garantem que o nome do personagem não foi uma referência à organização partidária. Jack Kirby e Stan Lee não queriam se envolver com as questões políticas da época tão diretamente, chegaram a pensar na mudança do nome do personagem para Leopardo Negro. Felizmente os fãs não gostaram da ideia e eles deixaram como já estava.

Não tem como não ser. Wakanda foi atingida por um meteoro rico em vibranium, metal poderoso do qual é feito a roupa do pantera e o escudo do Capitão América, e desde então se desenvolveu tecnologicamente muito mais que o resto do mundo. Sabendo da ganância dos homens brancos seus líderes decidiram se disfarçar de país pobre para o resto do mundo. Temos de cara uma questão diplomática.

O Pantera dos quadrinhos foi o primeiro herói negro a aparecer numa revista de grande circulação, abrindo caminho para outros personagens como a TempestadeLuke Cage e até mesmo o Lanterna Verde. T’Challa, que perdera o pai, e até então Rei de Wakanda, no filme Capitão América e a Guerra Civil, vive o dilema de lidar com o fato de ser o possível herdeiro do trono de Wakanda, proteger seu país ou ser herói para o resto do mundo.

Marvel Studios’ BLACK PANTHER
L to R: T’Challa/Black Panther (Chadwick Boseman) and Erik Killmonger (Michael B. Jordan)
Credit: Matt Kennedy/©Marvel Studios 2018

Outra questão que não pode ser ignorada é que a história do personagem se encaixa no conceito estético do Afrofuturismo. O termo foi usado pela primeira vez pelo escritor Mark Dery em 1993, quando ele publicou o artigo Black To The Future: ficção científica e cybercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra. O movimento artístico se propõe a acabar com os famosos esteriótipos negativos e exóticos criados pela cultura branca. A grosso modo, nada mais é do que uma projeção do futuro onde o negro está inserido. Isso inclui tecnologia, realidades distópicas e todo a gama de possibilidades das ficções científicas.

Historicamente a identidade negra foi suprimida, e muitas vezes invisibilizada. Na cultura pop muitas vezes o argumento usado por anos era a não rentabilidade. Histórias como 12 anos de escravidão, Animata Dialo em O livro dos Negros ou Kunta Kinte em Raízes, são muito importantes sim e precisam ser contadas, mas  o problema está em ocuparmos somente espaços como esses. O protagonista que sofre e precisa se afirmar o tempo inteiro.

O trabalho de direção de arte assinado por Hannah Beachler, cuida em mostrar a diversidade cultural do continente africano numa riqueza de detalhes que é de encher os olhos. Os colares de contas coloridas dos Etíopes, a coroa de penas dos Massai, os cabelos das mulheres Himba, os tecidos e estampas vibrantes de Gana. Beachler confirmou no twitter que se inspirou em Blade Runner para compor o visual de Wakanda, onde arranha céus modernos estão repletos de elementos rústicos como palha, madeira ou até bambu.

Wankanda se abriu para o mundo provocando palpitações, lágrimas e gritos de vitória. Sem dúvida é tempo de celebrar.