Hoje a tarde uma palestra motivacional no Youtube me inspirou a escrever um texto sobre o que é ser bem sucedido e como conseguir tal objetivo no Brasil. Mas como eu, mulher negra e de periferia poderia falar de um tema desses sem levar em consideração a desigualdade racial do nosso país?

Seria impossível falar de sucesso sem abordar a temática do racismo institucional do nosso país, que priva o afrodescendente do acesso a direitos básicos que são fatores essenciais a garantia de uma vida digna.  Uma vida na qual não se trabalhe 40 horas por semana para, no fim do mês, ganhar apenas o suficiente para pagar contas e comprar alimentação, e ainda assim com muito esforço e não raramente com algumas privações.

Não entraremos aqui na esfera daqueles que sequer conseguem um emprego (ops, já entramos), que acabam adentrando o submundo da mendicância, das drogas, da criminalidade e outras formas de exclusão que com tanta normalidade são atribuídas ao caráter da pessoa, e não à forma de organização social injusta e desigual, onde poucas famílias ganham por mês aquilo que a maioria não consegue ganhar nem em uma vida inteira. É o capitalismo nosso de cada dia do qual poderemos nos ater de forma mais detalhada em outra oportunidade.

Mas o que quero deixar claro aqui nesse texto é a necessidade de se falar sobre a ideia de ser bem-sucedido para a pessoa negra no Brasil, um país construído sobre um regime escravocrata que durou 300 anos, e cujo governo só muito tardiamente resolveu implantar políticas de reparação e isso pela pressão do movimento negro e não por bondade ou bom senso. Não vamos também falar do quanto essas políticas são enfrentadas de forma atroz pela elite cruel e egoísta (ops, falamos) que reluta em reconhecer os privilégios que seus antepassados lhes deixaram, privilégios esses conseguidos na base da exploração, da pilhagem,  de assassinatos.

E por que é preciso falar? Por que o silêncio nos afeta de maneira negativa, nos faz pensar que há algo errado conosco. Só hoje percebo a falta que me fez nunca ter visto esse tipo de debate nas escolas, na mídia, ou mesmo entre nossos amigos que, seguindo a linha de pensamento da nossa suposta democracia racial, afirmam não haver problemas relacionados ao racimo numa terra onde ninguém é de fato negro ou branco, por que somos todos miscigenados. Vejam como toda a construção do processo é cruel.

Então vamos falar. Como estudante universitária, tenho acompanhado casos de colegas, com transtornos psiquiátricos dos mais diversos, depressão, ansiedade, síndrome do pânico e muitas vezes mais de um desses problemas, e que infelizmente não tem acesso a um tratamento adequado. O engraçado é que também sou moradora da periferia e dentro desse contexto ainda não vi casos de pessoas com esses quadros de saúde, o que não as exclui de outros, como alcoolismo e dependência química em geral.

Longe de mim querer adentrar em análise pscicológica, mas até que me seja possível empreender a minha sonhada pesquisa na área com essa temática, gostaria que algum profissional da psicologia, psiquiatria, psicanálise ou psicoterapia me dissesse se pensar demais em problemas faz bem. Se ter consciência de limitações que são completamente alheias aos nossos esforços pode manter alguém equilibrado sem que essas questões sejam trabalhadas por um profissional. Ficarei extremamente grata com essa contribuição.

Um dos relatos mais tristes que já ouvi na minha vida foi o de uma amiga (preciso dizer que é negra?) que disse se sentir culpada por não poder ter assistido melhor sua mãe doente. Tratava-se de um quadro de saúde grave, que como todos sabem, é quase sempre uma sentença de morte para aqueles que dependem do sistema público de saúde. A mãe da minha amiga faleceu, e além da dor extrema de perder aquela a quem mais se ama na vida, a menina ainda se sentiu culpada por não cumprir um papel que era do estado, mesmo estado que negligencia também a educação e o acesso à cultura.

O fato é que, além de termos consciência de não possuirmos recursos para proporcionar uma vida melhor a nós e aqueles que amamos, temos também consciência de que essa situação pode não melhorar nem a curto nem a longo prazo. Não é ser negativa, ou talvez seja, mas vamos à análise dos fatos.

Quando entramos em espaços em que os postos de trabalho, sobretudo os mais altos, dependem de num nível de escolaridade mais elevado, percebemos  a presença massiva de indivíduos brancos, e isso mesmo em uma cidade como Salvador, cidade com a maior concentração de negros fora do continente africano. Já estive em alguns desses espaços e tive a oportunidade de conhecer algumas dessas pessoas, e o que se percebe é que nenhuma delas nasceu com um dom especial, ou que conseguiu estar ali a base de sangue, suor e lágrimas como supõe os defensores da meritocracia. São pessoas cujas famílias puderam proporcionar, não apenas uma educação escolar privilegiada, como também acesso à cultura, lazer, e a própria valorização de tudo isso, já que não vivem com foco na sobrevivência. E os negros?

Não lembro onde li que a vida da pessoa negra no Brasil por si só já é um ato político e não há como questionar tal afirmação. Desde as condições em que os negros foram transportados no período de escravidão, às formas como eram tratadas e o modo como ainda vivemos, privados de tantas coisas importantes e sendo alvo da polícia, estar vivo já é muito e precisamos ter consciência disso. Em um vídeo da Youtuber Natály Neri, a jovem fala da importância de se conhecer formas de vida “zen” e saudável e como esse tipo de questão não chega à população negra que vive sufocada em meio a questões tidas como supostamente mais importantes (sim, mas importantes do que a saúde, avalie aí), como o trabalho e até mesmo a militância. Essa é uma ideia advinda de uma concepção racista e desumana da pessoa negra, que a associa a um corpo “oco”, mera força de trabalho.

Então como ser bem sucedido diante de tudo isso? Antes de responder, gostaria de dizer como comecei a escrever esse texto.

Eu estava tentando estudar numa bela tarde de domingo quando me vi impossibilitada de dar prosseguimento a essa atividade em função do barulho ao meu redor. Minha casa é pequena, meu quarto não tem porta e meus pais gostam de assistir televisão, uma forma de entretenimento barata que os ajuda a dispersar dos problemas do dia-a-dia. Meus vizinhos também gostam de ouvir um som bem alto no fim de semana, e como criticá-los, se após suas rotinas esmagadoras, extravasar na segurança de sua casa, a custo praticamente zero lhes parece uma boa opção? Não é culpa deles se no bairro não tem teatro, cinema, museu, biblioteca (para eu estudar, inclusive), parque ou nenhum espaço de lazer para levar os filhos. Também não é culpa deles se transporte coletivo no fim de semana é um evento raro que os desanima não apenas de ir às praias da cidade como também de ir aos espaços culturais já citados, que muitas vezes eles sequer conhecem a existência ou importância, pois não foram ensinados a apreciá-los em suas escolas públicas sucateadas, com professores mal remunerados e desmotivados, e muito menos em suas casas, onde os pais certamente tiveram muito menos “oportunidades”. Não falemos então dos pais dos pais ou dos seus avós por que sabemos que a tendência é piorar.

O fato é que desisti de estudar (leia-se não consegui) e comecei a me sentir mal. Fiquei ansiosa com a proximidade da prova e com a quantidade de assuntos que ainda havia para estudar, culpada por não conseguir assimilar o conteúdo em meio ao barulho e preocupada com a possibilidade de sofrer um ataque de pânico (mencionei que já sofri muito com o problema?). Deitei no chão, comecei a meditar, procurei umas músicas relaxantes no Youtube e o canal sugeriu a palestra de um homem branco que falava sobre como alcançar objetivos, pensar positivo, e outras teorias motivacionais de livros de autoajuda. Claro que eu já fiquei alerta quanto à possibilidade de o lugar de fala dele ter pouco a me dizer, mas comecei a ver o vídeo e o rapaz dizia coisas interessantes, tinha leituras muito boas e eu continuei assistir.

Foi então que em meio à palestra, ele começou a falar de suas experiências pessoais, de como foi difícil chegar até ali e inevitavelmente eu comecei a gargalhar daquele relato. O cidadão disse que quando criança morava numa casa bonita que tinha uma árvore grande no quintal, prestou vestibular aos 16 anos para engenharia, que com 21 anos fez sua primeira palestra para 200 pessoas, e por aí vai. Longe de mim querer desmerecer o moço, aqui deixo muito claro meu respeito por sua pessoa e sua história, mas eu buscava ajuda para entender minha própria dinâmica de vida, e comparando com a dele, ou eu ria ou eu chorava. E tenho muito senso de humor.

Além desse fato, recentemente discuti com uma amiga branca que, diante de uma postagem minha sobre um jovem negro aprovado em primeiro lugar no vestibular de uma universidade federal, afirmou que o segredo era estudar, independente da cor. Nesse caso me chamou atenção a insensibilidade das pessoas brancas para com os problemas daqueles que lhe são próximos, ignorando os números e os fatos históricos ao usar argumentos como “também existem brancos pobres”. Aí você precisa parar o que está fazendo pra dizer a pessoa que está falando da regra, e não de exceção (também existem negros ricos, né?), dentre outras coisas que ela DEVERIA saber, pois teve e tem acesso a informação.

Acredito que o breve relato sobre a experiência pessoal que me fez escrever esse texto pode ser visto pelos defensores da meritocracia como “choro”, “mimimi” e outros adjetivos que essas pessoas usam nas redes sociais para menosprezar a luta dos negros e outros grupos historicamente oprimidos. Da mesma forma não duvido que os adeptos às teorias motivacionais pudessem entender como desculpas, negatividade ou coisa parecida. Mas eu sei que não é e as outras pessoas que vivenciam essa mesma realidade também sabem que não, por que sim, vários amigos já comentaram comigo sobre a dificuldade que têm em estudar em suas casas, por razões idênticas ou parecidas àquelas que apresentei.  E antes que algum desavisado mencione as nossas poucas bibliotecas públicas, lamento em lembrar que elas estão todas longe da maioria de nós, e muito perto umas das outras.

Acredito também que as pessoas privilegiadas por terem tido acesso a educação e que quando adulta se tornam “bem-sucedidas” tem sim plena consciência dos problemas enfrentados ela população negra, bem como de onde se originam (afinal elas estudaram, não é?). Mas não reconhecem por que se o fizessem, precisariam admitir que não são superiores, como gostam de pensar, e que são egoístas por não fazerem absolutamente nada para tentar mudar essa estrutura desigual de que se beneficiam, já que isso não é “problema deles”. Por essa mesma questão também se incomodam quando o assunto é discutido. Elas precisam urgentemente parar de defender unicamente seus interesses e praticar empatia, aprender a ouvir o outro e entender problemas que não lhes atinge na mesma medida que atinge o outro.

Sim, mas e sobre ser bem-sucedido? Bom, acredito que existam diferentes concepções para esse termo, mas para mim significa ser feliz. Ter, além de do básico para uma vida confortável, uma consciência tranquila e em paz, ter por perto as pessoas que amamos e ser amados também. Ter a possibilidade de viajar e conhecer outros lugares, outras culturas e de ler bons livros. É óbvio que alguns itens dessa lista dependem de dinheiro, certo? Então qual o segredo?

Acredito que seja acesso e oportunidade. Acesso à educação de qualidade, a melhores condições de trabalho, a saúde, a cultura, ao lazer, e oportunidade de desenvolvermos nossas capacidades intelectuais. E digo segredo por que isso é silenciado todos os dias enquanto nossa hipocrisia cultural nos faz pensar que as conquistas são fruto unicamente de esforço pessoal. Que se a maior parte da população negra no Brasil é pobre, e vice-versa é por que não somos capazes.

Portanto precisamos entender que se nos sentimos ansiosos, desmotivados e tristes diante das nossas frustrações, nada disso é culpa nossa. Não somos fracos nem desprovidos de inteligência, apenas temos mais obstáculos que os ditos bem sucedidos, queiram eles reconhecer ou não. Vamos respeitar nosso tempo e nossa história de vida, reconhecer cada uma das nossas vitórias e nunca deixar que alguém nos diga que se não conseguimos alguma coisa é por que não nos esforçamos o suficiente, ou por  qualquer outra razão que nos aponte como culpados. Afinal, nesse contexto que temos, ser negro vivo no Brasil já é ser bem sucedido. Bem mais do que isso na verdade.

Referências

NERY, Nataly. Negritude, saúde mental e vida zen. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=jn-ov3ySWlE>. Acesso em 13 jan 20118.