Há algumas  semana éramos mulheres do todos os tons, origens, religiões e orientações sexuais comemorando, reivindicando, bradando conquistas, exigindo garantias e a expansão dos nossos direitos por todo planeta. Saímos em passeatas, organizamos atos públicos, discursamos.

Foi um dia em que nossas vozes, femininas e feministas puderam dizer sem pudor e com o aval da sociedade onde estão localizadas nossas mazelas, como elas podem ser resolvidas e principalmente que apesar da violência que permeia nossa existência, nós continuaremos a marchar.

Nenhuma de nós está a salvo da violência que insiste em nos silenciar, principalmente se essa voz estiver falando por quem não tem vez e estiver dentro da estrutura recrudescida e viciada do estado, mais precisamente de dentro da estrutura legislativa, judicial ou policial.

Todas nós mulheres sofremos com a deficiência do Estado quando se trata da nossa segurança no dia a dia, estamos expostas a arbitrariedade do machismo em que a sociedade está estruturada, isso é fato.

Quando decidimos usar do  lugar de fala e protagonismo para dar voz a quem não tem, denunciar o crime organizado e cobrar das autoridades as penalidades previstas no combate a criminalidade, as chances de se manter incólume e muitas vezes vivas diminuem drasticamente.

Algumas mulheres tiveram coragem de desafiar o sistema, sofreram e sofrem as conseqüências, entretanto continuam vivas:  Denise Frossard, juíza aposentada e ex-deputada federal, sofreu três atentados quando investigava o jogo do bicho no estado do Rio de janeiro, foi responsável  pela condenação, em 1993, de 14 acusados de integrar a máfia do jogo do bicho no estado; Fabíola Moura, juíza em São José do Belmonte sertão de Pernambuco, ameaçada de morte pelo  julgamento de 19 policiais suspeitos de crime de tortura.

Patrícia Acioli foi assassinada em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, atingida por 21 tiros, em uma emboscada, motivo: combate e repressão ao crime organizado, ela era juíza da quarta vara criminal de São Gonçalo, e agora dolorosamente acordamos sem a voz da vereadora do PSOL Marielle Franco, teve seu carro alvejado  por 13 tiros num bairro próximo ao centro do Rio de Janeiro, motivo: denunciar a truculência da abordagem policial do 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro na favela de Acari.

O que chama atenção tanto nas ameaças feitas quanto nos crimes cometidos é o fato dessas mulheres serem servidoras publicas, atuavam em defesa dos direitos humanos, trabalhavam em prol da justiça e do cumprimento das leis, seus algozes também, funcionários públicos da área de segurança da publica.

Há um grande equivoco por parte da estrutura do estado da concepção do que é trabalhar em prol da comunidade, em favor do crescimento e desenvolvimento de um território que possa acolher proteger e permitir que seus cidadãos tenham acesso a saúde, educação, lazer e segurança.

A execução de Marielle Franco e de Anderson Pedro Gomes não é só revoltante por ter sido um crime bárbaro e covarde, ele se torna indigno porque em tese vitimas e algozes deveriam estar do mesmo lado, é um crime que tem a chancela do estado, que vem matando indiscriminadamente todos que se arvoram a desafiar seus intrincados sistemas de poder e dominação.

O que nos choca enquanto sociedade organizada é quão o ordenamento publico está desordenado, a ponto de permitir que a mesma fonte pagadora emita contracheques que para uns levam o sustento para casa enquanto tira a vida de outras famílias. O que nos deixa estarrecidos é que a primeira vista as batalhas encampadas por Marielle Franco deveriam ser duramente combatidas pelo estado e ao contrario o Estado é a instituição que além de autorizar a barbárie lucra com ela.

O tecido social está em farrapos e qual a solução do estado frente aos desafios da segurança publica?

A intervenção militar foi a alternativa escolhida, a alegação é de que a violência causada pelo trafico alcançou níveis alarmantes, que o crime organizado está a cada dia mais enraizado na trama urbana, colocando em risco a população e em xeque a competência da administração publica em resolver o problema da segurança.

Na contramão dos resultados esperados, o exercito que deveria estar defendendo as fronteiras impedindo a entrada de armas, de drogas e todo tipo de contrabando, está de fuzis em punho, tanques nas ruas e vielas, conferindo documentos de jovens na sua maioria negra, intimidando uma população já tão fragilizada pelos embates do cotidiano apresentado pela ausência dos serviços públicos.

Hoje choramos a morte de mais uma mulher,uma mulher negra especial, militante, corajosa, que subiu e desceu o Morro da Maré incontáveis vezes para estudar, para trabalhar, para levar e buscar a filha na escola, para ser irmã e ser filha, para ser amiga, amante, namorada, ser uma cidadã.

A perda é profunda, tão vasta que atravessou os oceanos e ecoou pelos quatro cantos da terra a indignação de uma nação que se viu órfã da força que emana de uma mulher negra..

Amanhã depois do funeral quando as coroas não forem mais do que pétalas ao chão, secos estaremos. Ela não mais subirá o Morro da Maré ou adentrará a Câmara de Vereadores do Rio, não mais defenderá o direito a vida das minorias, no entanto nós que aqui ficamos temos o compromisso não apenas de exigir punição aos seus executores, mas principalmente de continuar nas ruas desafiando o status quo, bradando por acesso a saúde, educação, lazer e segurança publica.

“O futuro a Deus pertence” diz o ditado popular, eu me atrevo a completar, e somente florescerá quando a resistência se fizer no ar que a gente respirar.