Discursos de ódio, xenofobia, racismo contra pessoas e contra religiões, gordofobia, transfobia e todas as outras “fobias” que poderiam ser resumidas como ódio ao diferente, ao não normativo, tudo isto está cada dia mais presente na internet – e fora dela.

Discursos assustadores e muitas vezes vindos de “gente de bem” – que se do bem fossem não fariam isto – mas, quantas destas pessoas reproduzem seus discursos de ódio e preconceito fora da internet? Não tenho aqui dados numéricos, mas, pelo meu círculo de amizades e conhecidos, sou capaz de apostar que muitas das pessoas que esbravejam discursos de ódio na internet, pensam mais de uma vez antes de proferir essas mesmas falas em públicos.

Os motivos para a diferença dentro e fora da internet são vários, entre eles, por medo da reprovação social, por não se sentirem seguras para isto nos ambientes onde frequentam ou mesmo porque a internet aumenta sua sensação de “segurança” em reverberar este tipo de discurso.

É preciso que continuem existindo – e cada dia mais – espaços onde pessoas que tem todos estes discursos problemáticos, se sintam inseguras para fazê-lo em público. Enquanto ainda não conseguimos alcançar o ponto ideal, que é fazer com que essas pessoas deixem de reproduzir preconceitos na vida real e virtual.

Na outra ponta dos odiadores profissionais da internet, temos os amadores profissionais da internet. Explico.

As minorias sociais do Brasil estão hoje cada vez mais utilizando-se de espaços virtuais, como ferramenta de mobilização e engajamento das lutas reais, isso quer dizer que a internet se tornou, para negros, indígenas, mulheres, população LGBT, mães solo, entre outras, um aparelho de disseminação de informação, calendários, lutas, pautas e etc. E é neste contexto que surgem os “amadores profissionais”, aquelas pessoas que amam e apoiam todas as causas, de todas as minorias, entendem tudo, mas, apenas na internet.

Os “amadores profissionais” estão sempre ali, prontos para dar um “amei” no seu desabafo ou compartilhar a sua denúncia. Não quer dizer que isto não seja importante, muito pelo contrário. Se a internet é um instrumento de divulgação das lutas de minorias sociais, é preciso que existam apoiadores nestas lutas que alastram essas informações.

A partir daí vem uma questão: quando nossas lutas saem do ambiente virtual, ou seja, deixam de apenas apoiar uma ferramenta, para se tornarem ferramentas contra essas opressões?

Uma das funções da internet e das redes sociais – porque é importante frisar: a internet não se resume às redes sociais do momento –  é ser um dispositivo de engajamento de outras pessoas nas lutas das minorias. Ou seja, se aquela campanha, post, texto, denúncia ou vídeo chegam até você, a ideia é que aquilo te transforme ao ponto de alterar a sua percepção e, consequentemente, a forma como você lida com determinada opressão, mesmo que não seja você o oprimido. E, como sabemos, opressão e opressores estão longe de existir somente na internet.

Não afetaria, portanto, a vida das mães, em especial as mães solo, por exemplo, o apoio às nossas pautas nas redes sociais se na vida real você despreza as necessidades das mulheres mães, apoia moralmente o abandono paterno ou se relaciona com um companheiro que sobrecarrega uma mãe, por exemplo. Qual a função de compartilhar posts em apoio às mulheres mães e universitárias, se você não contribui para que a vivência destas mulheres em ambiente acadêmico seja menos árdua?

O Brasil é hoje o país que mais mata a população transexual do mundo e é importante que apoiadores virtuais existam para denunciar, apontar e propagar informações que beneficiem a população transexual, mas, será que apenas isto seria o suficiente? Se o Brasil é o país que mais mata essas pessoas, nós enquanto sociedade temos total responsabilidade na vida real sobre estas ações. Não seria útil, por exemplo, apenas compartilhar um texto sobre a vivência da população “T” e não repreender o seu amigo transfóbico na mesa do bar. Nosso apoio deve ir além das redes sociais.

Falando de nós, homens e mulheres negras, os exemplos ficam ainda mais explícitos. Apoiar o empoderamento estético das mulheres e homens negros na internet deve refletir, portanto, em apoiar a estética negra em todos os lugares, retirando do seu vocabulário expressões que depreciam o fenótipo negro, por exemplo, é um primeiro passo para que seu apoio saia das redes sociais e passe a ser real. Falando do campo profissional, os “amadores profissionais” da internet poderiam incluir ao seu campo de ação, apoiar profissionais negros em seus processos seletivos, recriminar processos de triagem racistas ou discriminatórios e se colocar profissionalmente contra comportamentos segregacionistas em seus ambientes de trabalho.

Precisamos refletir se estamos verdadeiramente vivendo o que pregamos nas redes sociais, fora dela. É benéfico e necessário que sejamos apoiadores de campanhas, ações e lutas, que se utilizam da internet como aparato para se fazerem mais conhecidas. No entanto, é preciso que nosso discurso sempre ultrapasse a barreira das redes sociais, fazendo com que nossos textos e compartilhamentos virem ações reais, nas vidas das pessoas que compõem as minorias sociais do Brasil.

Apoiar este processo de empoderamento das pessoas negras, gays, lésbicas, transexuais, enfim, das pessoas que, até bem pouco tempo, não contavam com a ferramenta da internet para se fazerem ser ouvidas, é muito mais que falar na sua linha do tempo pública que você apoia esta ou aquela causa.

Apoiar as minorias significa bem mais que compartilhar textos de apoio às mães, aos negros, às mulheres, aos homens e mulheres transexuais.

É, portanto, transferir para o seu dia-a-dia, em pequenas e grandes ações, o seu apoio. É utilizar de quaisquer privilégios sociais que você tenha, para demonstrar este apoio, é estar pronto para se for preciso, abrir mão de certos privilégios em benefício de uma minoria.

Fazer isto é mostrar para estas minorias sociais que a internet está sendo, de fato, um excelente aparato de atuação social para seu grupo.

Não devemos esquecer que a internet é uma ferramenta, não um fim.

 

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