Sempre me impressiona muito como a palavra “experiência” está sempre presente nas falas e nas exposições das mulheres negras. Seja em textos, discursos, diálogos em reuniões o termo experiência sempre aparece.  E sempre com significações muito profundas. Essa observação me levou a redigir esse texto, que é um convite a uma reflexão coletiva entre nós, mulheres negras.

  Antes de mais nada importa localizar que a noção de experiência também está profundamente marcada na produção acadêmica dos negros e negras.  Um dos textos mais lidos do filósofo Frantz Fanon debruça-se exatamente nas questões relativas a experiência vivida do negro. Os recursos para fazer uma análise mais profunda desse texto não me são suficientes no momento, minhas leituras sobre o pensamento de Fanon ainda são rudimentares. Contudo o pouco que li desse intelectual negro fundamental para compreender o racismo nas Américas, me permite exercer uma escrita mais livre, mas não menos comprometida, onde seja possível refletir de maneira menos encapsulada em tecnicismos, citações e notas de rodapé. Esse texto é uma reflexão pessoal, muito honesta, sobre as epistemologias negras e, especialmente, sobre o conceito de experiência e sua relevância para a práxis intelectual da negritude.

  A articulação de epistemologias negras está inscrita dentro da ótica de superação do pensamento colonial, o qual começa a ser questionado por ativistas e intelectuais terceiro-mundistas e/ou racializados, os quais rompem com a lógica hegemônica de pensamento e passam a questionar conceitos e fórmulas que até então estavam consolidadas no cânone acadêmico  sem maiores tensionamentos. O agir intelectual negro, portanto, apresenta-se a partir de uma outra localização intelectual, a qual desloca as maneiras tradicionais de organização das produções teóricas. Essas formulações tem sido reapropriadas pelo próprio movimento negro, que muitas vezes utiliza esses arcabouços teóricos de formas que extrapolam os objetivos iniciais do conceitual desenvolvido pelo teórico A ou B. Fanon é um exemplo nesse sentido, como demonstra o ativista intelectual Deivison Nkossi.

   Os conceitos desenvolvidos pelo autor são fonte de diversas perspectivas da militância dos movimentos negros no Brasil, especialmente nos movimentos intelectuais ativistas que passam a ocorrer no seio das instituições superiores de ensino a partir da vigência da política de ações afirmativas que possibilitou que os sujeitos para os quais Fanon dedicou parte de seus esforços teóricos pudessem estar mais próximos de seus escritos. Eu mesma estreitei minhas relações com o pensamento fanoniano na universidade. Depois de muito ouvir falar em peles negras e máscaras brancas resolvi que estava na hora de ler Pele Negra, Máscaras Brancas e tentar entender do que se tratava. Assim, iniciei um pequeno grupo de estudos, em que 3 jovens negros (incluindo eu na conta) tentavam sozinhos compreender a experiência vivida do negro.

   Da mesma forma (ou talvez de maneira mais intensa ainda devido sua nacionalidade e ao fato de que essa pensadora ainda habita um corpo físico), Patricia Hill Collins, tem sido bastante apropriada pelos movimentos negros no Brasil, especialmente pelos movimentos de mulheres negras. E, assim como se deu com o pensamento de Fanon, os conceitos desenvolvidos por Hill Collins chegaram até mim já na universidade. Também, depois de muito ouvir falar em interseccionalidade e pensamento feminista negro, resolvi aprofundar o conhecimento acerca das formulações da intelectual ativista norte-americana a partir da academia.

  A obra de Patricia Hill Collins passou a ser meu objeto de estudo  no mestrado e a partir daí comecei a perceber que a intelectualidade negra também se apropria dos marcos teóricos do chamado pensamento clássico para organizar enquadramentos teóricos que propõe soluções a problemas teóricos e práticos que até então não eram analisados pelas ciências. Ou seja, a própria forma com que estes autores utilizam marcos teóricos da filosofia tradicional para descrever o conceito de experiência a partir de suas próprias vivências, fala bastante alto sobre faces do pensamento pós-colonial que nem sempre são encaradas de maneira direta pelos ativistas da área. Revelar os ocultismos da retórica da modernidade não significa negar ou abandonar construções filosóficas importantes de autores clássicos, mas sim destrinchar as mesmas, expor esses conceitos a luzes que até então estavam contidas e fixadas em saberes pré-determinados e não localizados.

   O que temos a partir das apropriações do cânone acadêmico tradicional é uma forma  de ressignifcar e problematizar conceitos que são pensados a partir de um ponto de vista eurocêntrico e branco. Tanto Patricia Hill Collins quanto Fanon utilizam-se desses marcadores teóricos para teorizar a partir de suas vivências sobre a questão do negro. No que diz respeito ao conceito de experiência percebemos que ele é central em parte significativa das formulações dos intelectuais negros e negras, especialmente das mulheres negras como é o caso de  bell hooks, Angela Davis, Luiza Bairros, Lélia Gonzales, Betty Lozano Lerna , Kimberlé Crenshaw entre outras. A experiência é abordada por toda a filosofia clássica, especialmente em Hegel, que é utilizado por Fanon de maneira bastante recorrente em Pele Negra, Máscaras Brancas.

 Hegel não cinde a experiência do conhecimento como outros filósofos, a dicotomia saber-experiência desaparece, dando lugar para uma relação consequencial. O saber está imbricado à experiência , bem como é a experiência que irá conduzir a consciência até si mesma.  Em “A experiência vivida do negro” Fanon descreve o lugar de objeto do negro, bem como as limitações dos conceitos hegelianos para explicar a condução da consciência para os subalternos. “Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro como objeto em meio a outros objetos”(FANON,2008).

   A experiência do negro descrita por Fanon é uma experiência no mundo, no mundo formulado por brancos, em que nem todos são sujeitos, alguns serão objetos. Esses alguns são pretos. O “ser para o outro” que Hegel descreve não se realiza para o negro, porque “ser para o outro” implica em condições de alteridade que não estão disponíveis em uma sociedade estruturada pelo racismo.  A inferiorização está inscrita inexoravelmente ao mundo como ele está posto, um mundo em que corpo e mente são distintos, em que as experiências são lidas de forma homogênea e hegemônica e em que a colonização não se dá apenas numa perspectiva de território, mas especialmente de corpos-mentes. Colonizar tem significados de ignorar o mundo vivido do colonizado e impor outras práticas, outros códigos, outros ser-estar que necessariamente implicam na anulação do Eu dos colonizados.

   A experiência nessa obra de Fanon se dá em relação a uma aquisição de consciência de si que passa por um processo de terror que não é constituído a partir do caminho da consciência, do sujeito que sabe que sabe, mas sim do terror imposto pelo mundo. O peso das interações do racismo constituem uma noção do ser negro. “OIhe, um negro” narra Fanon, e a partir do apontamento, do medo, do não-ser que se estabelece a partir de outro, que está aí no mundo e não enquanto um “objeto frente a outros objetos” temos a experiência vivida. A experiência vivida do negro é no mundo, ao crivo dos brancos, que apontam , olham, agridem e nesse processo acabam permitindo que o Eu descortine sua negridão para si.  

 Também é dessa forma que Hill Collins propõe o conceito de imagens controladoras para descrever a maneira com que o outro, branco, interpela o Eu. O “y’a bom banania” descrito por Fanon tem aproximações conceituais da  mammie descrita por Hill Collins. O que muda é que em Hill Collins a descrição da experiência ultrapassa o outro e se estabelece dentro de opressões contínuas que se aprofundam a partir da classe, da raça, do gênero, da sexualidade. A violência do estereótipo cunhado pelo outro e por ele fixado. A explosão do negro perante a violência do racismo é uma experiência que se dá na carne e é essa explosão que possibilita uma auto-determinação que rompe com o aprisionamento das imagens controladoras do racismo, as quais estão diretamente relacionadas com o aprofundamento da violência racial para mulheres negras.

  A experiência vivida do negro na diáspora é uma experiência de “estrangeirolocal”, o estrangeiro local é aquele que está no mundo não enquanto sujeito mas enquanto objeto. Ele é um estranho no mundo dos brancos no que pese fazer parte desse mundo, um médico negro nunca é só um médico, um professor universitário negro nunca é apenas um professor, uma estudante universitária negra nunca é apenas uma estudante. Somos, acima de qualquer coisa, um negro. Contudo, Hill Collins irá apontar que essa experiência pode também ser uma ferramenta importante da formulação intelectual das mulheres negras.  

   A autora sugere, de forma semelhante às intelectuais negras inseridas na perspectiva decolonial, a possibilidade de um fazer acadêmico posicionado, inserido no texto, localizado a partir da experiência.  No que tange especificamente a questão do “problema do negro”, que não é outro se não poder ser no mundo dos brancos, a experiência do racismo possibilita desdobrar a questão com uma objetividade incisiva.  A preta, que é tida como problema, aquela que é raivosa, agressiva, arrogante, difícil, tem condições robustas de compreender como que essas imagens são articuladas e utilizadas para a manutenção do poder hegemônico branco. A experiência de viver constantemente atacada por esses rótulos leva a uma necessidade inabalável de compreender os mesmos , reconhecendo a maneira com que operam e as formas de superá-los. A questão não está meramente numa perspectiva de uma  escrita acadêmica, mas numa possibilidade de sobrevivência a partir da razão que nesse caso atua como um escudo protetivo. “Para um homem que só tem como arma a razão, não há nada mais neurotizante do que o contato com o irracional(FANON, 2018).” Para mulheres negras a experiência é uma chave de produção intelectual que serve para consubstanciar o ponto de vista de mulheres negras para mulheres negras.

 Fanon e Hill Collins também dão conta de localizar o saber em outros espaços que não apenas aquele do cânone acadêmico, em Fanon temos uma utilização rica da poesia de Césaire, na obra de Hill Collins aparece a relevância da música e da prosa como um mecanismo de autodefinição das mulheres negras. Esses elementos também são uma forma de documentar a experiência do negro em constituir narrativas outras em que corpo e espírito não são entes separados. Imagens controladoras fazem parte da experiência vivida das mulheres negras, essas imagens operam como justificativas da violência racial e sexista a que estamos submetidas.

  Hill Collins utiliza como ponto de referência a experiência das mulheres norte-americanas ao controle desses estereótipos, especificamente a partir da forma com que se estabelecem as imagens da mammy, da matriarch,  da welfare mother e da jezebel
(E se você desconhece esses estereótipos dá uma olhada nesse texto da Suzane Jardim). Essas imagens são constantemente reproduzidas pela institucionalidade, no mundo dos brancos, por toda a América colonizada. A mídia, especialmente a televisão e a internet, são espaços de reprodução constante dessas imagens. A experiência que em Fanon é relatada a partir de uma relação direta e corpórea com o outro, em Hill Collins adquire outros contornos, explode na escrita de Hill Collins a forma com que as instituições reproduzem massivamente a violência racial. Essa experiência também será a fonte do fortalecimento da crítica do racismo institucional por intelectuais negras na diáspora.

    Dito isso tudo, se você não cansou da leitura, exponho eu alguns questionamentos que são reflexões de uma mente muito angustiada por isso tudo, uma mente que ainda precisa nomear seus terrores para poder sobreviver. O meu corpo ME questiona a todo tempo, nunca se dá por satisfeito. Reflete, pensa , escreve mas nunca encontra satisfação. Crise eterna. Horror puro. A razão que é ferramenta pra compreender esse sentimento também é inquietude e angústia. O saber que move e articula políticas de consciência, conhecimento e empoderamento coletivo também promove paralisia, terror e sabotamento. O saber é não saber e dúvida, reconhecimento de limitações muitas que talvez não estejam ainda possíveis de conclusões. O desprezo do racismo aliena e paralisa. O corpo que questiona sabe disso, mas frequentemente ele perece. Afinal, de que serve essas linhas quando eu mesma duvido que sei? Para onde vai esse refletir se não para um agir? E como agir? Porque e para quem? E se esse corpo em algum momento não me permitir mais ser alguém que questiona porque ele é um corpo feminino, negro, num mundo em que seu estar é frequentemente desvalido? Porque ele é um corpo que pode ser alvejado covardemente em uma rua qualquer e tombar cheio de projetos inconclusos.

A que servem essas experiências, a razão e a busca angustiada pela consciência se o projeto de mundo que temos hoje faz do meu corpo uma abjeção?

 

Referências:

BAIRROS, Luiza. Nossos feminismos revisitados. Estudos feministas, v. 3, n. 2, p.

458, 1995.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América

Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Racismos contemporâneos. Rio de

Janeiro: Takano Editora, v. 49, p. 58, 2003.

COLLINS, Patricia Hill. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica

do pensamento feminista negro. Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, p. 99-127, 2016.

COLLINS, Patricia Hill. Mammies, matriarchs, and other controlling images Black

Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment, 2000.

FANON, Frantz. A experiência vivida do negro. Pele negra, mascaras brancas,

2008.

FAUSTINO, Deivison Mendes et al. “Por que Fanon? Por que agora?”: Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil. 2015.