Caras gentes lindas, diversas e potentes,

Boa Noite!

Eis me aqui, exercitando, nesta homenagem às professoras, realizada pelo Salão Iporonchê de Cassia Marinho, mulher negra visionária e empreendedora do fazer a beleza negra que sonhamos – a externa e interna – em seu projeto “Calendários Iporonchê”, cuja estrela inspiradora é você Azoilda Loretto da Trindade, o desafio de ser costureira-cerzideira, pois que como me ensinou a linda Eliana Mara: ser cerzideira é ir aos detalhes dos buracos deixados em nossas mantas, arrematando as bainhas para que as linhas tênues não se desfaçam no uso e abuso do aconchego que buscamos no cobrir-nos, eu aprendiz de professora-pesquisadora de minhas práticas!

Antes da tessitura desta manta retalhada a ser transformada em colcha de retalhos no alinhavo de outras mãos cerzideiras, travestida em carta, imaginei diversos itinerários fundantes de nossos quase 30 anos de amizade. Fiquei a te imaginar, tu tão crítica, tão acolhedora, tão proativa, tão visceral na luta por humanidades potentes. O que dizer que te traga ao universo dessas gentes presentes e ausentes aqui e que seja significativo e inspirador a colcha aconchego confortável que buscamos todas e todos neste mundo?

Ser, segundo seu próprio relato na dedicatória do livro publicado/ organizado em co- autoria e com dois capítulos próprios, “Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. DP&A Editora – 1999 reedição 2014”, na noite do dia 25 de outubro de 1999:

Janete, minha irmã-eleita. Você me faz ter certeza que o amor existe, que a amizade existe e que eu sou uma privilegiada.

Te adoro, amiga

Beijos,

Azoilda

Irmã-eleita me autoriza estar aqui, negritando como você fez no Colégio Brigadeiro Newton Braga em 13 de maio de 2015, ultima vez sua naquela instituição, que me forjou educadora:

Saravá! Saúdo a ancestralidade neste dia

Agradeço o convite e parabenizo a equipe que organizou este evento e em especial Janete que desejo seja um marco na historia deste colégio na consolidação da real implementação das leis 10639 e 11645

Sarava!

Negritar você tem sido o que fazemos nas Giras da Zó, ontem te negritei no Encontro de Professores – Prêmio COMDEDINE de Pesquisa Escolar, promovido pelo COMDEDINE – Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro, em parceria com E/SUBE/GEC – Gerência de Projetos de Extensão Curricular da SME-RJ, através da oficina “As Giras da Zó no Prêmio COMDEDINE, cujo tema deste 2018 é “Professora Azoilda Trindade em seu passeio submerso na História dos 130 anos da Abolição, 30 anos da Lei Caó e seus reflexos na Educação – Quem é a Azoilda que você conhece?” Hoje te negrito aqui, ancorada na certeza de dar o meu melhor a tessitura dessa colcha-retalhos que é você.

Não tem sido fácil, assumir a identidade de ser protagonista de uma história com/sobre você. Muitas outras e outros reivindicam este papel, afinal você foi múltipla e diversa e pode ser inspiração a quem quer se dedicar às questões da multiculturalidade e diversidade cultural no tocante ao enfrentamento do racismo. Não controlamos como a/o outra/o vai receber o que somos, construímos, escrevemos e dizemos.

Nossa história é de amizade, estudos, pesquisas e superação dos obstáculos que nos impedem de ver. Sim, fomos amigas-irmãs, choramos juntas, rimos juntas, implicamos uma com a outra, brigamos, nos afastamos, encontramos outras parcerias, outras possibilidades de diálogos, outros sonhos.

Daí a belezura do nosso amor, pois que amor de criação, de aconchego ancestral entre mulheres, aquele “onde lavávamos nossas roupas nos rios conversando com outras mulheres. Quando entrávamos na lua, entrávamos todas juntas e sentávamos na terra, doando nosso sangue sagrado e tecendo sonhos com outras mulheres.” no dizer de Anna Sazanoff e que sempre voltava a nos unir e celebrar nossa existência. Aprendemos com nossa experiência que podíamos confiar uma na outra e confiamos até você se tornar estrela.

Chorei sua partida enquanto cantava “O sobrado de Mamãe” junto com outras mulheres e em seu leito de despedida, orávamos para que o desapego da vida que tu tanto amava se desse e de forma a não sobrecarregar sua passagem ao Orúm.

Tu adorava uma reza, uma benzedura, no último ano era semanal suas idas à Igreja e aos Centros Espíritas, buscando nas suas palavras o “Dialogo com meu Deus interior, busco ouvir os sinais, oro, reflito, tento me conectar com o divino”.

Deve ter se amarrado na cantoria de nós todas e no momento do último suspiro deve ter querido negritar:

Sinto muito amor pela vida e pessoas, animais, plantas, mas também indignação diante das injustiças. Busco estudar, amo aprender, buscar ser coerente.

O câncer tem me levado a ter altos e baixos, ou eu perceber estes altos e baixos de amor, esperança, fé.

Mas estou bem, no caminho da cura, do amor, aprendendo, tentando fazer minha parte com dignidade.

Caminho da Cura, eis seu grande legado. Sinto isso no momento em que escrevo esta carta, sinto que você nos legou um caminhar, deu sua vida, deu seus sonhos, deixou sementes. Mas, o que terá sido a cura para ti? E cura do que? E para nós que seguimos? O que é a cura? Quais os sintomas de nossos adoecimentos?Tenho pensado muito sobre isso. O que nos faz adoecer? O que nos acontece? Você me dizia que eu nunca teria câncer, por ser muito alegre, muito vida, muito sabida. Não compreendia, brigávamos e eu dizia que doença não dá em postes e contava uma traquinagem qualquer. Tu ria das minhas singelezas e dizia que eu a fazia feliz.

Por te fazer feliz, te acompanhei em muitas de suas imersões curativas que se tornaram minhas também, uma delas foi uma sessão de Constelação familiar, onde sua questão era por que aconteceu comigo?. Era a primeira vez, em quase 29 anos de amizade que te vi desamparada em sua fragilidade, órfã de uma paternidade conhecida e reconhecida da família, dos amigos e da sociedade. Sim tu lutava pelo reconhecimento da paternidade de seu pai, já ancestral, médico famoso, amigo de infância do geógrafo Milton Santos que pelo adoecimento das relações amorosas homem negro X mulher negra te negaram um direito. Teu choro naquele dia negritou o quão é dolorosa a rejeição. Fico aqui a perguntar-me é ético contar isso? Será que estou atravessando os limites da mulher pública que você se tornou e querendo me favorecer dos segredos da família? Se sim, me perdoe, mas sinto que tua busca é a busca de muitas e muitos de nós e pode ser inspiradora a cura de quem me ouve.

Você se dizia com virtudes poderosas: a Escuta, Amor à vida, à Natureza (incluindo tudo) e a Inteligência e limitações. Eu assumo aqui as minhas no tocante as possíveis indiscrições nesta carta. As suas principais, segundo você era a Procrastinação, Critica exacerbada e o medo.

Essas virtudes e limitações estão no legado que você deixou, estão nas entrelinhas da sua produção intelectual, daí ter tantas você espalhadas por aí e a espera de tessituras, mas desconfio que a colcha da pedagogia brasilis na qual trabalhavas, só ficará pronta se for coletiva, se não tiver uma dona. Foi com essa perspectiva que demos continuidade ao Encontro anual Rainha Magas, momento de cura coletiva do feminino e de celebração de nossas vidas, pois se uma mulher se sente amada e querida, ama e bem quer todas as outras, né, não? Nessa mesma linha, nasce as Giras da Zó, da qual este encontro hoje faz parte não como idealização das amigas do pernoite de seus últimos dois meses. As Giras deveriam ter finalizado em março, pois foi pensada tal qual a lenda do Baobá, lenda que tu adorava, a das sete voltas em busca do elo perdido sob a égide violenta da escravidão, sendo aqui redundante, pois se é escravidão, é violência. Mas o girar não tem limites, assim como os elos que construístes com o Feminino e mesmo sem ter sido ativista do feminismo negro, o institucionalizado, saliento aqui. Tua raia sempre foi educação.

Como seus fios se multiplicam e inspiram, as giras estão se multiplicando e multiplicando como legado de sua existência. Visibilidade da vida após sua morte. Aqui cabe um escurecimento: As Giras buscam Zó antes de 2005, antes do Projeto A Cor da Cultura que inspirou educadoras e educadores nacionalmente e te projetou no cenário intelectual da educação brasileira. Sempre lembro da fala potente de Ana Paula Brandão, – Zó, eu sou porque você foi. E coloco um ponto e vírgula nesta carta, dizendo a você o mesmo. Zó, eu sou porque você foi minha amiga, parceira e irmã, me ensinou a ensinar, me ensinou que a cura está em nos conectarmos com o nosso sagrado e com o sagrado de quem nos quer bem. Ensinou também a acolher e escutar quem você acolheu e escutou. Tenho realizado este exercício e descoberto que AZOILDA é uma gira e para espalha-la serão necessárias múltiplas vezes o número 7.até um cerzimento de tantas e tantas partes que espalhastes por aí. Que consigamos nos conectar a este pensar grande e de fato retornemos ao que nos foi tirado O lugar Sagrado das Mulheres que se amam e se cuidam, cuidando-nos umas das outras e nos nossos termos.

Axé Azoilda, Marielle e todas e todos nós que insistimos em cantar, dançar, celebrar, encantar, ninar, pensar, instituir, transgredir. Hoje e Sempre

  1. S. Resumo do currículo de Zó, por ela mesma em 2015

Resumo de currículo de AZOILDA LORETTO DA TRINDADE

Formação

Psicologia (licenciatura, bacharelado e Formação de Psicólogo) – UGF

Pedagoga (habilitação em Supervisão Educacional) – Instituto Isabel

Especialista em Orientação Educacional – UNESA

Especialista em Sociologia – UFRJ

Especialista em Dinâmica dos Grupos – SBDG-FATO

Mestra em Educação com a dissertação O Racismo no Cotidiano Escolar. IESAE/FGV/RJ

Doutora em Comunicação pela Escola de Comunicação da UFRJ com a tese A Formação da Imagem da Mulher Negra na Mídia

Atuação genérica:

Pesquisadora das áreas de multiculturalismo e diversidade étnico cultural e étnicorracial brasileira, com uma produção de mais vinte anos (desde 1986) nesta área: artigos, textos, consultorias, produção de encontros, seminários, proferindo palestras, cursos e oficinas, formações continuadas.

Publicações:

 

  • Livro publicado/ organizado em co- autoria e com dois capítulos próprios:

 

Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. DP&A Editora – 1999 reedição 2014

  • O Racismo no Cotidiano Escolar (do livro Todas as cores na educação, 2008)

Atuações

  • Supervisora da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro (aposentada)
  • Professora de curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá (Disciplinas: Psicologia Institucional e Didática)- horista
  • Professora da disciplina Cultura Popular Brasileira no Conservatório Brasileiro de Música – 2011/2012- horista
  • Professora da Faculdade de Formação de Professores da UERJ (Disciplinas Psicologia da Educação, Currículo, Cultura Brasileira, Relações Raciais e Educação)- horista
  • Coordenadora Pedagógica Nacional do Projeto A Cor da Cultura
  • Coordenadora Pedagógica dos Cursos de Extensão do LAESER/IE/UFRJ- Laboratório de Analises Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações étnicorraciais
  • Consultora Pedagógica dos Cadernos do CEAP (Centro de Articulação das Populações Marginalizadas)
  • Consultora UNICEF

Azoilda Loretto da Trindade