“Eu prefiro o metrô em Portugal”

Foi com essa frase que a filha de uma professora de direito tributário descreveu o metrô no dia da abertura da Para Olimpíadas, no Rio de Janeiro.

Esse comentário feito a mesa do almoço, sem pretensões sociológicas e afins. Exatamente por ter sido feito de forma tão natural, que as reflexões me vieram a mente, elas dizem respeito a quão pobres de representatividade positiva nós estamos, quão distante da realidade construímos nossa vida social e pior, quão desassociados dos problemas concretos do cotidiano nos movimentamos pelo mundo.

Dentro desse contexto é fundamental analisar a conjuntura que estamos inseridos. O pensamento conservador avança a passos largos pelas alamedas políticas e ideológicas do país e do mundo. Atitudes e comportamentos que repelem a todo momento tudo aquilo que não cabe na caixa dos nossos costumes ou ainda que não se encaixam no olhar que acreditamos melhor delinear a sociedade, semeiam o ódio e a violência, impossibilitando o exercício da empatia.

O cenário mundial a todo momento nos empurra a segregação, ao isolamento, as verdades absolutas cultivadas desde o início dos tempos, que nos engessam no sentido de desconstruir certezas que conservam e sustentam o ideal do patriarcado que trabalha ideológica e cotidianamente para nos colocar a seu serviço, ou seja, cumprir um papel pré-estabelecido que obedeçam a signos pré-definidos de programação e atuação manipulados para seu controle.

O tecido social vem sendo desfiado com avidez pelo pensamento reacionário ganhando cada vez mais espaço e força nas redes sociais e nas instituições que por definição deveriam defender um estado democrático de direito. O estado deixa de ter representatividade e passa a ser repudiado como ente responsável pela falência cidadã.

É dentro desse enredo opressor que nasce a dificuldade de construir uma representação positiva daquilo que podemos entender como nação, como povo, como um conjunto de cidadãos que marcham para o mesmo objetivo.  A questão da representatividade está para além de nos enxergarmos na TV e nas campanhas publicitárias, ele está inserido num inconsciente coletivo que nos aprisiona em imagens distorcidas do cotidiano que se vinculam cada dia mais a violência e a corrupção.

Para a população negra pesa a ausência de corpos negros que se movimentem de maneira harmoniosa pelos espaços público e privado. A carga advinda dessa carência se faz presente no aumento das estatísticas dos índices de violência contra as mulheres negras, no genocídio da juventude negra, no encarceramento em massa e na sistemática negação dos seus direitos.

A criação de elementos que nos levam a criar signos de representatividade também está associado à nossa identidade individual e coletiva, isso significa dizer que viver em um país onde o racismo é elemento estruturante da sociedade, não nos permitirá perceber o ambiente a partir da diversidade, o que nos tornará reféns de um corpo social pautado pela normatividade.

A conjuntura nos nega ou dificulta a construção de uma representatividade positiva, que por sua vez não tem forças para se opor ao que está posto, perceba que intrinsecamente travamos uma luta inglória de desconstrução dos símbolos de opressão, ao mesmo tempo que aumenta o desejo de construir uma visão que consiga distinguir cada um de nós, como indivíduos capazes de contribuir de maneira diversa para construção de uma representação que abarque de modo coerente a diversidade que nos compõem.

“Somos um país continental” como diz um grande amigo, dentro desse universo chamado Brasil a unilateralidade ofusca o potencial criativo da nação que perde a oportunidade de se ver representada pela infinidade de individualidades que a compõem, é imprescindível que lutemos por uma conjuntura que nos seja favorável e não nos deixar mais aprisionar pelo poder hegemônico do capital financeiro e pelos conglomerados de comunicação.

Reconstruir o tecido social hoje é imperativo, é a lição de casa dos movimentos sociais organizados ou não e da sociedade civil, isso se, ainda cultivamos a esperança de nos constituirmos enquanto uma nação representada por pessoas singulares, cada um sendo um ser distinto colaborando de forma diversa com  a pujança da nossa sociedade.

 

Imagem destacada: Clip Gê de Lima, Observatório G.