Quero começar essa breve reflexão dizendo que a escrita para mim sempre foi uma barreira, eu sempre falei muito sobre o que penso e registrei pouco sobre o que penso, a verdade é que escrever sobre  ou pensar sobre nunca foi um direito concedido e sim conquistado com muita luta para nós negros e negras, o campo da reflexão é constante mas do compartilhamento nem sempre.
De um tempo para cá, alem da minha oralidade exercida diariamente, eu tenho registrados alguns poemas, devaneios, pensamentos, analises sobre assuntos que me rodeiam. “Nós somos sobreviventes e somos testemunhas, porta-vozes dos que foram mortos e silenciados. Nós estamos aqui. A elite intelectual deste país, no começo do século 20, só tinha uma preocupação: quanto tempo levaria para esta mancha negra ser extinta.” Sueli Caneiro, nos disse e assim quero começar minha reflexão sobre educação brasileira e seu racismo curricular.

No modelo estrutural das escolas brasileiras podemos ver que o processo de formação escolar acontece de maneira metódica, cartesiana e racista, assim que se pensou a escola ao longo dos anos, a instituição escolar sempre foi idealizada como funcionalista e disciplinar, no objetivo de formar pessoas que pudessem atuar no mercado de trabalho fazendo assim girar a economia da sociedade sem a menor preocupação com formação critica do exercício do pensar. A sala de aula é um dos espaços políticos mais potentes de atuação, de formação do pensamento libertário e critico, onde as subjetividades se apresentam de diferentes formas no cotidiano no processo de ensino aprendizagem, é um campo de batalha das narrativas. Então, como podemos avançar na aplicação da lei que garante a diversidade cultural nas escolas? Um desafio!
Estudar é um desafio para comunidade negra que sempre teve o direito de aprender negado, aprender assuntos fora da nossa realidade local, não se vê nas imagens dos livros didáticos, uma escola sem estruturas para desenvolver o trabalho de maneira efetiva, não ter professores que compreendam a complexidade de um corpo negro capaz de contribui positivamente para o desenvolvimento de uma sociedade, são os desafios para gestores, professores, comunidades da sociedade brasileira.

A perpetuação do preconceito em nosso país nos mostra a existência de um sistema racista que possui mecanismos para operar as desigualdades raciais dentro do seu convívio social,
as praticas raciais de caráter negativo ganham  mais força no processo em que a criança vai convivendo em um mundo que a coloca constantemente diante da narrativa negativa dos negros, dos índios, das mulheres, dos homossexuais, dos idosos e dos pobres. Podemos afirmar que os primeiros julgamentos raciais apresentados por crianças são frutos do seu contato com o mundo adulto. As implicações das práticas discriminatórias sistemáticas estruturadas pelo Estado de maneira direta ou indireta, se manifestam de diversas formas, seja pelo isolamento da comunidade negra em determinados bairros, escolas e empregos, seja pelo currículo escolar que não apresenta uma diversidade cultural que contemple sua realidade, seja pela não fiscalização necessária nas politicas públicas necessária que garantam a igualdade racial, seja nos livros didáticos tanto na presença de personagens negros com imagens deturpadas e estereotipadas quanto na ausência da história positiva do povo negro.

Eles estão nos matando de todas as formar possíveis, todas as vezes que avançamos em politicas publicas educacional, em direitos que promovam a igualdade racial nesse país, o racismo avança com uma faceta para nos aniquilar. Estamos na contra mão de um processo hegemônico, em busca de pluralidade, igualdade e diversidade nas escolas brasileiras, nós resistimos de todas as formas possíveis, nós educadoras negras estamos traçando estratégias na pratica pedagógica para alcançarmos multiplicadores da luta, seres pensantes e autônomos capaz de escrever suas próprias historias.

Não se pode ter uma visão estreita da educação, se a comunidade escolar compreender a desse processo plural de formação de uma maneira mais ampla, teremos uma educação não só formadora baseada nos currículos, mas também formadora de pessoas com responsabilidades sociais e transformadoras na sociedade, para uma sociedade mais colaborativa e um mercado de trabalho mais justo, se a escola entender esse papel transformador na vida do individuo desde a escola, ter em sua pratica pedagógica a sala de aula como espaço de luta contra o epstemicidio e as culturas negadas, teremos conseqüências significativas na sociedade e seu desenvolvimento estrutural, mais justa e igualitária.

 

Imagem destacada: Helem Salomão