Eu iniciei  esse pequeno texto quatro vezes e em todas elas eu só conseguia pensar “cárcere ou cemitério”, pois é esse o sentimento de todas as mães pretas de filhos pretos.

Não importa o quanto a sociedade queira pregar sobre ( o mito ) da democracia racial, vivemos num mundo onde a mãe preta precisa ensinar aos seus filhos, sobre a necessidade de andar sempre com documento de identidade, sob a necessidade de explicar desde cedo que a cor da sua pelo o torna o principal suspeito para tudo o qualquer coisa, sobre a problemática de andar sozinha de madrugada. Mulheres pretas são guerreiras, mas as mães pretas são heroínas. Heroínas por sentir medo o tempo inteiro e ainda assim ensinar-lhes o caminho.

Mães pretas comemoram cada noite que seu filho chega da balada, que seu filho está vivo.

Na última semana meu amigo John fez 35 anos e postou assim no facebook “PASSANDO PRA DIZER QUE CHEGUEI AOS 3.5 SEM TOMAR UM TIRO DA POLICIA!!”

É esse o sentimento do homem/mulher preta e a sensação da vida inteira da mãe preta.

Quando eu ouvi pela primeira vez sobre Luiza Mahin, sobre a heroína que ela foi e todas as batalhas que lutou, a principal batalha que pensei foi o de ser uma mãe preta livre e o medo constante de ter seu filho retirado de você, medo esse que se concretizou e assim como muitas mães pretas teve que fazer do luto à luta.

Luíza Mahin, mulher preta e livre¹, casada com um homem branco teve seu único filho,  o abolicionista, poeta e advogado Luís Gonzaga Pinto da Gama, retirado dos seus braços aos 10 anos de idade,  e ver seu filho ser vendido pelo próprio pai como escravo.

Em fevereiro de  2014, em uma audiência pública sobre a Redução da Maioridade Penal, não me lembro exatamente o local, mas foi quando ouvi a Mônica Cunha pela primeira vez, a força, potência, garra e firmeza com que ela falava me fez admirá-la desde o primeiro segundo.

Nesse dia ela disse “Nossos jovens não estão conseguindo sequer ir para o sistema prisional, eles estão sendo exterminados, morrendo, simplesmente morrendo”. Senti não apenas a dor dela mas também a dor dela,  e a dor no olhar de cada mãe que ali se fazia presente, as mães do movimento moleque.

Mônica Cunha, mulher preta, moradora do subúrbio carioca, teve três filhos, porém há 17 anos perdeu seu filho Rafael Cunha aos 17 anos dentro do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro – DEGASE.

Rafael teve 4 passagens pelo sistema pelo ato infracional de furto e Mônica a cada visita sentia a necessidade de fazer algo não só pelo seu filho que ali passava por nítidas e enormes violências, como também por outras mães que ali se encontravam e desse sentimento nasceu o Movimento Moleque no Rio de Janeiro.

Nasceu no dia 10 de dezembro de 2003, com as mães dos meninos de todas as unidades do Padre Severino (unidade do sistema socioeducativo da cidade do Rio de Janeiro), vestidas de preto e viradas de costas para a porta da instituição. O Movimento Moleque é de denúncia, de reivindicações. Ele apresenta para as famílias de adolescentes cumprindo medida socioeducativa os direitos que elas têm, e os ajuda a cobrar sua implementação. É para empoderar estas mães, porque elas vão poder não só se ajudar, como ajudar os meninos.”²

A força da mãe preta vem desde os ensinamentos pela sobrevivência de seus filhos como também da sobrevivência da perda deles, lutando para que o seu luto não seja em vão, para que seus filhos não sejam esquecidos e tampouco a morte deles ignoradas.

Em abril desse ano foi lançado o documentário “Nossos Mortos Tem Voz”, frase que  puxa os protestos de mães de jovens assassinados por decorrência de violência estatal.  O documentário se dar através do depoimento dos familiares e vítimas da violência de estado da Baixada Fluminense e nesse documentário podemos verificar que mais de 90% são narrativas de mães pretas que lutam para que seus filhos tenham justiça.

Que esse dia das mães possamos não só comemorar a data mas lembrar da força, coragem, ensinamento e luto que todas as mães pretas precisam sentir e resistir desde.

Um abraço especial a cada mãe que não pode abraçar seu filho e sua filha hoje, Mônica Cunha, Marinete Silva e tantas outras.

E queria especialmente que esse texto fosse em homenagem da Vera Lúcia, uma das fundadoras da ong “ Mães de Março” que faleceu no último dia 7 de março de 2018.Vera Lúcia Presente!

 

REFERÊNCIAS:

  1. Sua origem é incerta, não se sabe se teria nascido na África ou na Bahia, membro do povo Mahi, de onde vem seu sobrenome, Luísa Mahin comprou sua alforria em 1812.
  2. Entrevista dada por Mônica Cunha para a Anistia Internacional em 2015 – https://anistia.org.br/noticias/6407/