“Memórias aparecem no corpo de muitas formas”. A frase dita pela jornalista e professora Bianca Santana não sai dos meus ouvidos. Quantas erupções, marcas, manchas e sinais nosso corpo insiste em acumular, deformar e conformar ao longo do tempo?! Muitas, sem dúvida. Incontáveis também são os tropeços, lampejos e desapegos que fazemos nesse curto caminhar pela vida. Algumas e alguns de nós diriam que diante de tantas possibilidades, boas e ruins, podemos optar apenas pelo “segue o baile”, outras e outros preferem mesmo desaguar um rio de emoções. Seja qual for seu time, viver é mesmo coisa para profissionais, como disse o escritor Nelson Rodrigues.

Nesse tímido “ensaio” – sim, a palavra me cativa pelo tom de teatralidade – não pretendo diagnosticar nada, nem sequer presumir, apenas insistir, insistir, insistir… Os temas trazidos aqui são de conhecimento, esquecimento e reafirmação de todas e todos que convivem entre a escola, a universidade e a militância. Não há novidade, apenas uma grande vontade de insistir. Não existe palavra mais repetida, mencionada e pensada que essa, todas e todos sabemos, devemos ou pelo menos tentamos insistir. Há quem prefira seus sinônimos, tais como: teimar, permanecer, persistir, perseverar, prosseguir, continuar. Seja lá como for, estamos nos negligenciando nessa jornada.

Existe uma tentativa antropofágica de engolir sapos, segurar choros e sufocar abraços. Esforço admirável pelos que procuram transformar, modificar e tencionar as estruturas de poder dominantes. Na última semana adoeci, uma amiga me ligou e mandou o recado: você não é a mulher maravilha, Carolina. Eu ri, de nervoso claro. Ou melhor, escuro que sim. Não sou a supermulher heroína, mas ainda teimo em fingir para mim mesma que dou conta de fugir de mim. Sim, porque em vários momentos, a saída que procuramos para encontrar novas e melhores formas de melhorar esse país transforma-se em uma rota de fuga, de nós mesmas/mesmos.

A educadora Azoilda Loretto da Trindade dizia: “a invisibilidade é a morte em vida”. Chegamos ao tempo em que nossas lutas a favor dos direitos humanos, das minorias e das maiorias, invisibilizadas e criminalizadas, está em ritmo crescente. A despeito de todo crescimento do racismo, machismo, fascismo, conservadorismo e de toda xenofobia, homofobia e transfobia, que vivemos, nós também avançamos em construções coletivas. Entretanto, temos sido cada vez mais negligentes com nós mesmas/mesmos. Falamos a todo tempo de lutas e pautas grupais, em contrapartida transportamos para o coletivo a responsabilidade de nos curar das nossas próprias feridas, dores e agonias. Grande parte dos nossos traumas são comuns e generalizados, por isso devem ser compartilhados, denunciados e entendidos em conjunto, mas a recuperação tem a sua dimensão individual. E não só a recuperação emocional, mas também a física, a espiritual e a psicológica. Temos memória e também sofrimentos ancestrais que 128 anos de fajuta abolição não dão conta de resolver. O capitalismo continuou a perpetuar novas e sofisticadas formas de escravização.

Não quero nesse quinto texto do conjunto de atividades intituladas “Giras da Zó”, falar da Azoilda, propriamente dita, até porque não convivi com ela em vida, mas sim, do seu legado, das suas giras. Ao mesmo tempo, falar da sua produção e herança, é também falar dela. É admirável a quantidade de mulheres, educadoras, que continuam a intrínseca tarefa de circular os ensinamentos e vivências da Zó, apelido carinho que recebeu. Digo intrinsecamente, porque não se trata de citar seus conceitos inteligentes, mas sim de viver e propagar, na prática, o que construíram com ela, coletivamente. Está aí uma palavra que observo muito na sua vida e na vida dessas intelectuais: prática. A escola também é o espaço de fluir sensações, emoções, comportamentos e intuições que a racionalidade cartesiana eurocentrada não consegue formular ou traduzir.

O perigo da história única, como bem descreveu a escritora nigeriana Chimamanda¹ fez o ocidente soterrar toda potência e criatividade das culturas diversas que construíram seu percurso. Azoilda, pensando nesse processo, enfatizou a importância do uso dos “valores civilizatórios afro-brasileiros” para a educação infantil e trouxe novas perspectivas sobre os saberes africanos, constantemente apagados, que herdamos:  “Valores inscritos na nossa memória, no nosso modo de ser, na nossa música, na nossa literatura, na nossa ciência, arquitetura, gastronomia, religião, na nossa pele, no nosso coração”².  Assim, destacou princípios como energia vital, oralidade, circularidade, corporeidade, musicalidade, ludicidade e cooperatividade. Trazer essas narrativas e memórias, e compartilhar com outros educadores traz alternativas para superar o racismo, e colabora com o projeto que luta por uma educação inclusiva e crítica, na qual o racismo, o sexismo, a homofobia, os conflitos e os preconceitos de classe, não fiquem esvaziados em um discurso de universalismo cego às diferenças, mas sim, sejam objetos a se desconstruir em uma luta por igualdade.

Mas o quanto, nessas lutas constantes, somos invisíveis para nós mesmas/mesmos? O quanto de nós achamos ser capaz de restaurar apenas voltando-se para o externo, para o que está lá fora, para o outro/outra. É preciso abrir os baús, sacudir os panos e bagunçar as certezas com a coragem de quem se percebe único no meio da multidão. É lógico que entender a história do seu povo faz parte disso, mas existem percursos que só seremos capazes de desvendar sozinhas/sozinhos. Senão continuaremos a projetar grandes mulheres e grandes homens comprimidos em suas capas de proteção.

Desde os últimos acontecimentos, com tantas injustiças, incertezas, assassinatos e covardias, nesse país, li muitos escritos sobre autocuidado. Justo, o contexto pede cada vez mais para que nos cuidemos. Azoilda, que nos ensinou muito em vida e continua ecoando vozes, também teve muito a contribuir sobre o tema no seu processo de adoecimento. São incontáveis os relatos que ouço de como ela viu na doença uma oportunidade de cura, uma forma de entender o próprio corpo e seus trilhos. Compreender que o corpo que padece nos revela uma oportunidade de tirar da alma os espinhos que acumulamos em nossas caminhadas, é um grande desafio.

Outra questão que penso é como buscamos o autocuidado, mas o autocuidado que também contribui para o cuidado da outra/outro? Como que nossa luta pela visibilidade não se torna mais uma luta que contribui com a lógica da excepcionalidade, na qual apenas alguns poucos seres iluminados seguem alcançando espaços, antes negados. Em última instância, nenhuma produção é individual porque somos forjadas/forjados coletivamente. O que eu digo ser meu, unicamente meu, é na verdade um processo de reflexão liderado por influências e experiências diversas que fui capaz de condensar, de forma crítica e criativa, em discurso ou texto. Vocês já viram um griot, um preto velho ou uma preta velha cobrar seus direitos autorais? A sua sabedoria reside no que resiste, comunitariamente, ao longo do tempo.

Não há uma cartilha de comportamento militante ideal, somos feitas/feitos de lógicas e contradições, mas olhar, gentilmente, para nós mesmas/mesmos pode nos ajudar a atravessar com mais resiliência essa estrada. Há quem enxergue grande potencialidade nas escritas de si, salve as “escrevivências” realizadas por Conceição Evaristo! A potência da literatura preta tem refutado anos e anos de mentira que colocaram a escrita como ofício de intelectuais iluminados e diferenciados dos demais, reles mortais. A escrita também é coisa nossa, e importa muito falar sobre nossas vidas em múltiplas linhas.

Sobrevivemos através das histórias que contamos, das memórias que escrevemos, das marcas dos passos que demos pelo mundo. E somos capazes de viver, falar e escrever por e sobre nós mesmas/mesmos. Há dois anos frequento uma reunião de mulheres chamada “Rainhas Magas”, construída por Zó e por outras tantas mulheres incríveis. O encontro acontece todo dia 06 de janeiro, fazendo uma alusão ao dia de Reis. Nesse ano, escrevi um poema que tenta descrever, ao menos, a mínima parte do que significa estarmos juntas e queria encerrar esse texto, que não é fim, mas sim via, de auto cura, com ele. Marielle Vive! Azoilda Vive! Seguiremos…

Amazonas de Zó

Quantos pedaços, fragmentos e migalhas trazemos dentro de nós?

Quantos gestos, gotas de suor e marcas no rosto trazemos da Zó?

Um olhar, um sorriso, a sensação de abrigo, um consolo, a energia que irradia calor do nosso umbigo…

Para algumas de nós restam ainda fortes lembranças de encontros que nunca aconteceram, mas que de forma ancestral antecederam a potência das nossas memórias.

Eu nunca toquei Zó fisicamente, mas me sinto tocada, diariamente, por todo seu legado, seu espírito desformatado e os afetos circulados.  

Espalhou sobre nós todos os valores africanos da deusa, e se multiplicaram todas as fitas coloridas que ela amarrou pelo mundo.

Amarrou Janete, lenço vermelho que logo escapou. Voou ao vento e emanou força e amor.

Com fita amarela vem Valéria, guerreira alegre e sabida, que nos envolve com toda a sua alegria.

Mais para frente, de cor quente, avisto uma fita semente, é Sandra, coral reluzente!

Eis que surge Paulinha, sedosa fita verde que registra as memórias e norteia esperança.

Potente e bonita, vem Eveline, a fita lilás da sabedoria e da espiritualidade.

Mônica irradia fitas rosas do seu ventre que descem apressadas entre as pernas e espalham amor e fecundidade.

Azul serpente, imperatriz imanente é Fabi, munida de toda justiça na forma de tenras águas que sempre acham um modo de continuar seu curso.

De um vinho sóbrio e macio descubro Marta, madura nas palavras e grandiosa para os desafios.

Do alto da mata, com fitas douradas e imponentes vem Jurema, rainha de flechas nas pontas dos dedos que fertiliza as sementes das nossas lutas negras.

Sandra, mãe de João Cândido, fita branca como a luz do dia, nos ensina sobre resistir às tempestades e permanecer menina.

De fina estampa e fidalguia, segue esvoaçante Júlia, que ainda se vê tímida.

Nesse arco-íris de fitas ainda há muitas cores, muitas amazonas, muitas mulheres, rainhas, mães e filhas, amantes, amigas, borboletas transmutadas em vida.

Precisas ao voar levando o legado de Azoilda!

 

  1. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?time_continue=10&v=EC-bh1YARsc
  2.  TRINDADE, Azoilda Loretto da. Valores civilizatórios afro-brasileiros na educação infantil. In: Valores Afro-brasileiros para a Educação. Salto para o futuro. Disponível em: http://www.diversidadeducainfantil.org.br/PDF/Valores%20civilizat%C3%B3rios%20afrobrasileiros%20na%20educa%C3%A7%C3%A3o%20infantil%20-%20Azoilda%20Trindade.pdf.

 

Figura 1 Azoilda no Encontro Rainhas Magas 2018

Figura 2 Encontro Rainhas Magas 2018