Texto originalmente publicado em População Negra e Saúde

Por: Rosalynn Vega, PhD (antropóloga)

Traduzido por: Eliza Williamson, MA (antropóloga) –  Artigo original 

 

Enquanto as classes média e alta do México estão descobrindo as maravilhas do nascimento natural, as parteiras indígenas tradicionais estão sendo ativamente desencorajadas a fornecer os mesmos serviços às classes mais baixas.

Pilar* deu à luz em um hospital privado e “humanizado” na Cidade do México que tem uma abordagem holística à saúde e combina medicina de alta qualidade com os confortos de um hotel cinco estrelas. As paredes exteriores do hospital estão cobertas de hera, os pisos são de mármore, e música tranquilizante de um piano frequentemente ecoa no foyer multinivelado. Hóspedes são servidos comida orgânica. Os banheiros vêm com roupão de tecido felpudo bordado com o emblema do hospital, e as pontas do papel higiênico estão cuidadosamente dobrados em triângulos. Quando eu a entrevistei, Pilar me contou sobre o seu parto prazeroso na água em um dos jacuzzis do hospital.

Mas em uma aldeia que parece um mundo aparte da realidade de Pilar, a experiência de parto de Lupita deixou uma mancha escura na sua memória e uma dor no coração. Quando ela percebeu que estava na hora de parir, ela buscou a ajuda da parteira da aldeia, Leonila—uma mulher idosa que usa as técnicas tradicionais mexicanas para trazer as crianças ao mundo há gerações. Recentemente, Leonila tinha assistido uma oficina obrigatória do governo onde ela e outras parteiras foram informadas sobre potenciais emergências obstétricas que podem ocorrer durante o processo de parto, e foram orientadas a transferir todos os partos para o hospital regional. Assim que Lupita e a sua família subiram em um camioneta, que se arrastou ao longo de um caminho ventoso e irregular da montanha.

A história que Leonila conta do que aconteceu em seguida é chocante. Na hora que chegaram no hospital, Lupita estava prestes a parir. A sua família clamou pela ajuda dos profissionais de saúde, mas a assistência lhe foi negada. Quando ela não conseguia mais segurar o bebê dentro, Lupita correu para um banheiro e pariu a um natimorto no vaso sanitário. Uma enfermeira invadiu o banheiro onde Lupita estava, aflita e chorando, e a repreendeu pelo poço de sangue. Ela mandou Lupita limpar a bagunça.

Embora mulheres em todos os países têm relatos únicos de parto, no México o contraste amedrontador entre as histórias de pessoas como Pilar e Lupita evidencia barreiras profundamente arraigadas de raça e classe. As mulheres afluentes e de pele clara desfrutem de opções humanizadas fornecidas na assistência particular e pelas parteiras acreditadas, enquanto as mulheres pobres e indígenas estão sendo ativamente privadas de acesso aos métodos tradicionais de parto, com os quais contaram por gerações. Ironicamente, apesar de um aumento de interesse no parto natural no país, a parteira tradicional no México está sob um estado de sítio.

De 2010 até 2014, eu entrevistei, conversei com, e observei mais de 2.000 profissionais de saúde, diretores de hospitais, professores e instrutores, antropologistas da saúde, pais, e mães por toda parte do México. Os meus informantes incluíram parteiras, médicos, e mais de 100 mulheres em processo de gravidez, parto, ou pós-parto. As suas histórias iluminam o chocante vão no sistema de parto no México entre as mulheres mais vulneráveis e as mais abastadas, que é onde o meu trabalho se situa.

Entre as comunidades da classe média e elite, os partos de alta tecnologia, como o parto cesariana, comumente são a norma. Segundo o Enquete Nacional de Saúde e Nutrição do México, 45,1 porcento de todos os partos em 2012 foram cesarianas—mais ou menos quatro vezes mais que a taxa geralmente considerada ideal de 10-15 porcento. A Organização Mundial de Saúde encontrou que as taxas de mortalidade para mães e bebês não diminuem quando a taxa de cesáreas está acima de 10 porcento, tornando-se difícil de justificar o risco e o custo de fazer parto cesariana além deste marco. Contudo, a taxa de cesáreas está ainda mais alta nos hospitais privados do México do que nas clínicas públicas, indicando que os mexicanos das classes média e alta estão buscando ativamente este procedimento, mesmo quando não é clinicamente necessário.

É dentro deste contexto que milhares de pais fervorosos estão buscando apaixonadamente partos “humanizados”: parto natural (que significa sem remédios para o alívio da dor, como o peridural), o parto em casa, o parto na água, e parto assistido por parteiras europeias e doulas. Mas estas técnicas não são baratas. Em 2014, um pacote de parto humanizado assistido por parteira na Cidade do México custou aproximadamente 32.000 pesos (US$1.719 na taxa de câmbio de hoje [6 de abril de 2018])—1,3 anos de renda para alguém que recebe o salário mínimo de 67 pesos por dia, ou mais ou menos a metade da renda anual de uma pessoa da classe média.

Embora muitas das práticas do parto nos hospitais humanizados almejam “reviver” as técnicas das parteiras tradicionais, ironicamente, a parteira tradicional está sendo proibida em muitas das comunidades pobres e indígenas onde estas técnicas têm persistido por séculos. Estas técnicas incluem massagem da barriga da mulher grávida para posicionar o feto, preparação de chás de ervas para estimular o processo do parto, várias posturas de parto que abrem o canal vaginal, o ritual de enterrar a placenta perto da casa, e a recuperação pós-parto através de consumir caldo de osso e tomar banho de ervas.

Esta ameaça à prática da parteira tradicional se institucionalizou ao longo da última década: o governo fornece salários mensais ao quarto mais pobre da população, condicionados em seu cumprimento de várias regras, uma das quais é que a mulher grávida dê à luz em um hospital do governo. As parteiras tradicionais como Leonila são obrigadas a encaminhar todos os partos aos hospitais. E elas são ameaçadas com acusações de assassinato se uma mulher ou um bebê for morrer sob seu cuidado, não importa o tamanho da distância de hospitais. Algumas das mulheres que eu conheci ficam várias horas de ônibus ou camioneta do hospital regional mais próximo, onde são obrigadas a parir.

Estes requisitos fariam sentido se a qualidade da assistência à saúde fosse muito maior nos hospitais, como o governo alega, ou se a parteira tradicional estivesse levando a altos níveis de lesão ou morte. Mas a minha pesquisa não mostrou nenhum dos dois a ser verdade. Pelo contrário, descobri que as mulheres estavam muitas vezes recebendo assistência inferior nos hospitais, enquanto eu encontrei que a qualidade da assistência das parteiras era superior.

Embora o governo jogue a culpa pelas altas taxas de mortalidade materna e infantil nas regiões mais pobre do México nas práticas de parteira, eu percebi que a discriminação racial e a insuficiência de infraestrutura foram temas recorrentes quando os entrevistados relatavam as mortes de esposas, irmãs, amigas, e crianças recém-nascidas. As pessoas falavam de clínicas nas aldeias que fecham esporadicamente, operam cronicamente com baixo número de pessoal, e faltam medicamentos e instrumentos básicos; estradas em desintegração que tornam viagens de emergência ao hospital regional extremamente arriscadas; e superlotação nos hospitais regionais que leva a longas esperas e obriga as mulheres a deitarem em corredores em “macas” de papelão quando todos os leitos hospitalares estão ocupados.

Dado estas condições medonhas, muitas das parteiras tradicionais que entrevistei sentem que é a sua obrigação ética fornecer serviços de parteira a moradoras da aldeia que busquem a sua ajuda. E enquanto as suas intervenções estão em desacato direto dos mandados oficiais do governo, as suas ações são na verdade auxiliadas por médicos em postos governamentais que querem lavar as suas mãos da potencial responsabilidade por mortes maternas ou infantis. Às vezes, as parteiras tradicionais são estimuladas diretamente a intervirem: por exemplo, um médico residente com quem eu falei, me contou que ele preferia mandar uma emergência obstétrica para a parteira local do que assumir a culpa de qualquer desfecho negativo que pudesse houver. Outras vezes, as parteiras tradicionais se sentem, indiretamente, moralmente obrigadas a interceder em casos onde o pessoal de saúde fracassam em servir às mulheres: outro profissional de saúde me disse que a sua clínica mandaria uma emergência obstétrica ao hospital regional sabendo que a mulher provavelmente morrerá em trânsito, já que é melhor que sua morte seja registrada como “em trânsito” do que ocorrida na sua clínica.

O governo mexicano muitas vezes utiliza as parteiras tradicionais como bodes expiatórios; entretanto, não existem estatísticas oficiais dos desfechos dos partos assistidos por estas parteiras. As parteiras que conheci tinham variados níveis de habilidade e conhecimento; algumas mantém registros privados, que guardam escondidos de oficiais da saúde, detalhando milhares de partos exitosos. As reputações das parteiras mais bem sucedidas, como Eugenia, uma parteira tradicional renomada nas altas montanhas de Veracruz, são baseadas na premissa de observações empíricas dos desfechos dos partos que assistem por aldeiões e clientes da região arredor. Elas ganham nova clientela através de recomendações boca a boca. Mesmo um só desfecho negativo pode manchar severamente a reputação de uma parteira. (Esta forma empírica, baseada na participação da comunidade contraria as demandas ocidentais de provas estatísticas.)

Para muitas mulheres indígenas, ser assistida por uma parteira local de confiança é a opção melhor, quando comparada à possibilidade de ter uma experiência trágica como a de Lupita.

E o seu medo é compreensível. Embora seja ilegal, alguns profissionais de saúde nos hospitais discriminam suas pacientes com base na “raça”—é um fato bem conhecido que às vezes eles não dão assistência a pacientes indígenas. Alguns casos, como o de Irma—uma mulher mazatecaque foi humilhada e obrigada a parir em público na grama de um hospital—já foram registrados em canais de mídia importantes como Proceso. E um relatório vindouro do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas delineia numerosos abusos de direitos humanos contra os povos indígenas no México. A morte do bebê de Lupita sinaliza a sua vulnerabilidade na base de raça e classe, e a sua experiência não é única entre pessoas com o mesmo conjunto de vulnerabilidades—para as mulheres pobres e indígenas, o medo que a discriminação se torne fatal é bem real.

As respostas a essa situação variam. Algumas parteiras tradicionais e mulheres indígenas obedecem as ordens do governo. Outras mulheres indígenas relutantemente assistem suas cinco visitas pré-natais obrigatórios do governo, com médicos que não falam sua língua, enquanto buscam assistência obstétrica de uma parteira em paralelo. (Em 43 meses de pesquisa etnográfica, nunca conheci um médico que falava a língua indígena da população local.) Após dar à luz com suas parteiras, estas mulheres explicariam aos oficiais da saúde que o parto simplesmente “veio rápido demais” e elas não puderam chegar ao hospital. Aldeias inteiras conspiram nesta farsa a burlar o sistema, que sentem que geralmente lhes falha.

A clientela nahuatl de Eugenia dirige até 80 milhas [130 quilômetros] em estradas sinuosas nas montanhas, vindo de todo o entorno do vulcão Orizaba, para parir na sua clínica-casa. Ao longo de alguns anos, ganhei a confiança de Eugenia, e eu observei ela atender às necessidades obstétricas e de saúde em geral da população indígena regional—que em uma ocasião significou assistir dois partos ao mesmo tempo. Depois que os partos terminaram, Eugenia me mostrou como ela registra os detalhes dos partos que ela atende em um registro privado. Embora Eugenia antes acompanhava as mães ao hospital para pedir um certidão de nascimento, ela não faz isso mais, já que a história oficial é que estas mulheres deram à luz sozinhas. Se os oficiais da saúde soubessem do envolvimento de Eugenia, as novas mães poderiam perder as seus benefícios do governo, e elas enfrentariam pobreza ainda mais extrema. A clínica da aldeia é provida por um médico estagiário que quietamente apoia a prática secreta de Eugenia, pois ela alivia ele de trabalho extra frente as limitadas infraestrutura e medicações.

Existem programas que tentam conciliar a brecha entre as parteiras tradicionais e profissionais de parto humanizado. As escolas acreditadas de parteira no México requerem que as suas alunas deem oficinas a parteiras tradicionais e familiarizem estas com as normas biomédicas ocidentais.

Os resultados podem chegar a ser um pouco absurdos. Alunas em programas de parteira profissional tipicamente têm muito pouca experiência assistindo partos; teoricamente, elas participam em partos em hospitais públicos—mas os obstetras tendem a não encaminharem suas pacientes para fora do hospital, preferindo guardar os pagamentos de seguros de saúde para eles. (A maioria dos partos humanizados ocorrem no setor privado, pois os obstetras nos hospitais públicos não assistem partos humanizados. Assim, os hospitais públicos oferecem poucas oportunidades de emprego para parteiras profissionais.) Em contraste, muitas parteiras tradicionais têm experiência com milhares de partos. Durante estas oficinas dirigidas por alunas, as parteiras tradicionais muitas vezes fitam os olhos no chão ou na parede, entediadas, às vezes até adormecendo, enquanto escutam os sermões de parteiras com menos experiência. Mesmo com este “treinamento”, as parteiras tradicionais não podem exercer suas práticas abertamente.

Algumas parteiras tradicionais são participantes proativas no movimento do parto humanizado. Uma exceção é Yanira, uma parteira tradicional que conheci em Tepoztlán em 2013. Yanira tinha conhecido por acaso a Jan Tritten, editora principal da revista oregoniana Midwifery Today. Depois disso, Yanira começou a receber numerosos convites para conferências de parto humanizado ao redor do mundo, inclusive na Europa, na América Latina, e no Oriente Médio. No entanto, Yanira tem pagado um preço social pesado pela sua renda maior e sua habilidade de viajar internacionalmente. Ela foi obrigada a fugir da sua cidade natal quando membros ciumentos da sua comunidade começaram a ameaçá-la com sequestro e demandar pagamentos para deixar ela em paz. Agora ela pratica com uma clientela muito menor em uma comunidade de expatriados maioritariamente europeus e americanos.

Eu sou proponente de práticas de parto que respeitam as escolhas das mulheres e resistem a hiper-medicalização desnecessária dos corpos femininos. No entanto, o parto humanizado no México não deveria ser disponível só para pessoas abastecidas e de pele clara. As pessoas pobres e indígenas não podem acessar serviços de parto como o que Pilar escolheu, é claro. Mas elas têm tradições próprias de parto que volta para milhares de anos. As tentativas do governo a controlar os corpos das mulheres indígenas são baseadas em discriminação econômica, cultural, e racial.

Quando Pilar teve alta da sua estadia no luxuoso hospital humanizado na Cidade do México, ela recebeu como brinde uma placa de madeira com as impressões dos pés do seu bebê, entalhada por um artesão indígena. Este não deveria ser o mais próximo que as pessoas indígenas vêm ao parto natural.

*Todos os nomes neste artigo, menos o da autora e o de Jan Tritten, foram mudados para proteger a privacidade das pessoas.