Texto originalmente publicado em Alma da Preta
No dia 6 de maio, Donald Glover, assinando como Chidish Gambino, chamou a atenção milhões de expectadores no mundo ao lançar um clipe que levanta o debate sobre racismo institucional nos Estados Unidos. O vídeo de This is America, faz referências históricas à cultura afro americana, esteriótipos  negativos atribuídos aos negros e ataques racistas como o que aconteceu na Igreja de Charleston em 2015.

A produção além de ser uma verdadeira overdose de alusões a cultura negra pré e pós escravidão, questiona a indústria cultural, como o artista negro está diante de todos os conflitos que ainda alcançam a maior parte dos moradores de periferias, o culto às armas e a violência policial.

Um coro de vozes que canta liberdade – parte da tradição oral afro americana canções como essa que aparece logo no início serviam como forma de comunicação. Orientavam outros escravizados que caminho tomar para não serem recapturados com facilidade ou para tornar o trabalho exaustivo mais suportável. De manifestações como essa, surgem gêneros musicais como o Blues e o Jazz. Ambos nascem da tristeza e da esperança de livrar-se do cativeiro e essa autonomia é interrompida pela violência até hoje.

O ambiente estéril é tomado por uma série de conflitos armados e perseguições. Enquanto isso, Glover e um grupo de bailarinos esbanjam habilidade e domínio corporal misturando passos de Brake e Gwara Gwara sul-africano. Não precisa se esforçar muito para encontrar as mais diversas análises desse clipe na internet, mas é importante lembrar que não é a primeira vez que um artista negro provoca tamanho incômodo e reflexão sobre o racismo.

Lançado em dezembro de 2016, o clipe Formatation, é parte do sexto álbum da Beyoncé, Lemonade. Trabalho aclamado pela crítica especializada na época, sucesso de público com 653 mil cópias equivalentes (sendo 485 mil puras). Foi o álbum mais vendido do ano, abocanhou no Grammy de 2017 os prêmios de  Best Urban Contemporary Album e Best Music Video com Formatation.

“What Happened at the New Orleans?”

Em agosto de 2005, o furacão Katrina alcança o sul dos Estados Unidos. Foi o terceiro que mais causou mortes na história do país, ficando atrás do Galveston, em 1900, no qual morreram entre 8 mil e 12 mil pessoas, e do Okeechobee, em 1928, no qual 3 mil vidas foram perdidas. Mesmo 10 anos após o desastre natural as famílias ainda sofriam com o descaso e a falta de assistência do governo americano. Por isso, Bey começa o clipe em meio a uma inundação.

A cantora propõe uma nova construção social, rompendo com os padrões que estabelecem o negro como protagonista da pobreza e criminalidade. Celebra pensadores afro americanos como o pastor Martin Lutter King e Macom X e pede o fim do genocídio negro pelas mãos de policiais. Assim como This is America, o vídeo suscitou uma série de análises.

O Brasil também não fica atrás em produções com abordagens igualmente incômodas. No último dia 13 de maio, 130 anos da assinatura da Lei Áurea, veio a público o clipe da música Crime Bárbaro, segunda faixa do álbum Galanga Livre, primeiro CD do Rincon Sapiência, lançado em maio de 2017. A data não é celebrada pelo movimento negro no Brasil com muito entusiasmo devido a conjuntura histórica que se deu a assinatura do documento.
O disco ganha o nome de um homem escravizado que fugiu depois de matar o senhor do engenho em que era cativo. No clipe, Rincon encarna o personagem histórico e é perseguido por um policial armado.


Em 2015, chega o álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa do rapper brasileiro Emicida, e que dificuldade escolher uma só música desse disco para essa lista. Mandume conta com a participação dos rappers Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike, Raphão Alaafin numa narrativa que reivindica o protagonismo negro, a liberdade de culto e a ancestralidade. O título da música é uma referência ao rei angolano que tornou-se símbolo de resistência às invasões portuguesas e alemãs.
Mandume Ya Ndemufayo, morto em fevereiro de 1917, foi o último rei de um povo que ficava entre o sul da Angola e o norte da Namíbia. Emicida usa a história desse líder para invocar o orgulho negro perdido. A mensagem forte e urgente se alinha perfeitamente às várias militâncias negras que os rappers convidados representam ao longo do vídeo.
Ainda no mesmo álbum, com o igual peso, a canção Boa esperançanão podia ficar de fora da lista. A relação patrão/empregada no Brasil é carregada com a herança escravocrata. No clipe, domésticas brancas e negras se rebelam contra os senhores. O título da música já foi nome de navio negreiro que traficava pessoas para o Brasil no período colonial. Os traficantes usavam nomes assim indicando a esperança de dias melhores, traziam os capturados para uma situação melhor do que eles a que viviam em África.
O clipe é resultado de uma série de entrevistas com mulheres que trabalharam como empregadas domésticas A própria Jacira, mãe do Emicida, aparece no vídeo. A produção encerra com a casa grande dominada, os patrões subjugados e a expressão

“Cês diz que nosso pau é grande, espera até ver nosso ódio”

O Rappa surge em 1993, no Rio de Janeiro misturando reggae, rap e rock. O primeiro disco não caiu no gosto do grande público de cara, mas o álbum Rappa Mundi, lançado em 1996, os colocou na cena musical através canções como A feiraPescador de ilusões e Homem bomba. A banda sempre pautou suas composições em questões sociais. Boa parte das faixas do Rappa Mundi são de autoria do Marcelo Yuka, o mesmo que escreveu Minha Alma.
Parte do CD Lado B Lado A, Minha Alma não passou despercebida. O clipe passava exaustivamente na finada MTV aberta. Um grupo de amigos se encontra, e o que deveria ser um simples ida a praia vira um cenário de guerra por conta de um mal entendido.