Maria Clara acordou cedo, escovou os dentes, tomou um café amargo e foi se arrumar. Não conseguiu se olhar no espelho, mas insistia em dizer, a si mesma, que não era tão feia quanto parecia. Enfim, encarou o espelho, pegou um vestido colorido, curto, tecido leve e vestiu. Logo depois, tirou, estava gorda demais para usar aquilo! Pegou outro vestido, outro, outro, e logo sua cama parecia uma pilha sem fim de roupas. Já não era possível ver nada além dos tecidos, que se acumulavam em cores desconexas, e formavam um amontoado com o cheiro azedo de uma insatisfação profunda e intermitente. Pegou uma saia, mas ficava justa demais, marcava os quadris largos, os culotes, mesmo tendo listras verticais que, segundo não sei quem, emagrecem. Suando, exausta e cansada de tanto experimentar roupas, colocou a saia e não tirou, apesar de não se sentir bem.

E agora? Que blusa colocar? Melhor usar preto para disfarçar os seios volumosos, os braços largos e a barriguinha saliente. Colocou mais de dez blusas e nada ficava bom. Mas o problema era do espelho! Gritou a mãe e disse: “Mãe esse espelho deforma, engorda, destroça…”. Resolveu tirar a saia, mas dessa vez estava movida por uma ideia redentora, esperançosa! Abriu a terceira gaveta da cômoda e pegou uma cinta, daquelas que comprimem do joelho até o pescoço. Começou uma nova saga, um novo calvário de sal para enfiar no corpo a maldita cinta, deitada na cama, puxando de lado, de frente, machucada, vermelha, arranhada, chorando, e, por fim, molestada. Pediu ajuda da mãe, as duas seguiram puxando, puxando, até que finalmente entrou. Agora se sentia bem, o corpo definido, encolhido, sem conseguir respirar, mas com a cintura pequena e os seios fartos escondidos, como bem achava que deveria ser. Saia de listras verticais, blusa preta, cinta apertada, blazer preto por cima, estava pronta e feliz. Machucada, mas feliz.

Segue uma nova etapa: maquiagem e cabelo. E lá se foi mais uma hora para escovar os benditos fios do “cabelo duro”. Mas estava satisfeita, porque antes levava ainda mais horas para pentear os fios que se embolavam nos encaracolados tipo “miojinho”. Algumas queimaduras na mão e no couro da cabeça, muito cabelo no chão, por causa da química alisante, entretanto, a sensação de que estava no caminho certo. Nessas horas, ficava contente quando os amigos diziam: “minha nossa, está igual uma japonesa”. Agora como maquiar a pele oleosa, manchada de sol e tão escura que não era possível encontrar um tom adequado de bases nas lojas?! Ela dizia: “como vocês não tem a cor marrom bombom? ”. Aprendeu a categoria de pele “marrom bombom” logo cedo, na escola. As professoras a chamavam de bombonzinho, e no parquinho, as mães das outras crianças perguntavam a sua mãe: “Nossa que bombom lindo, aonde você adotou? ”. Lembra que sua mãe ficava enfurecida e dizia: “Consegui trepando com uma caixa de bombom NEGRA de um metro e oitenta”.

Maria Clara não queria ser negra, não achava que deveria ser, porque gostava do afeto que continham as palavras “Bombom”, “Chocolate” e “Morena”. Para ela, a palavra “negro” soava distante, sofrido e muito duro. “Negro” a fazia lembrar do pai que a abandonou ainda criança, e que a avó fazia questão de lembrar como “nego safado”, dos escravos que eram chicoteados nos livros didáticos da escola, das empregadas domésticas nas novelas, dos bandidos das páginas policiais… Assim, não era bom “ser negro”, por isso acreditava que graças a sua mãe, branca, tinha se livrado do “ser negro”, para ser “bombom” na infância e, mais tarde, “mulata”! Ahhh, descobriu que era “mulata” com 16 anos. Mas isso é outra história. Por enquanto, misturava bases diversas na pele e tentava embranquece-la o melhor possível, ainda procurava vídeos na internet com maquiadores famosos, daqueles que trabalhavam só para as estrelas globais, que ensinavam a diminuir o nariz, a boca e apagar as manchas, manchas negras, da pele.

Agora estava pronta para sair, já conseguia olhar no espelho, arriscava uns biquinhos charmosos e pensava: “quem não ia desejar essa mulata hoje? ”. E, nesse momento, lembrou da sua história. Maria Clara descobriu que era “mulata” aos 16 anos quando conheceu Augusto. Era uma menina tímida, que se achava muito feia. Chamada de “macaca” no colégio, mesmo pelos amigos queridos, Clara nunca achou que um garoto fosse amá-la. Olhava os meninos loiros, brancos, cheios de sardinhas, como as de sua mãe, e desejava tanto que olhassem para ela, mas eles nunca olhavam. Augusto era branco, vinte anos mais velho, tinha carro, era simpático, engraçado e casado! Durante um ano foram apenas bons amigos, até que aconteceu o primeiro beijo. Ele fazia Clara se sentir única, desejada, uma linda “mulata”. Perdeu a virgindade com ele, que sempre desejou transar com uma “mulata”. Afinal, as “mulatas” eram mais quentes, todos os seus amigos diziam. Clara ficava orgulhosa e se esforçava para satisfazê-lo da forma mais intensa, fazendo jus ao título de “mulata exportação, quente na cama e no chão”! Ela nunca tinha saído do lugar onde morava, nunca tinha comprado uma roupa de marca famosa, nunca tinha viajado, e vivia isso tudo com ele. Gostava de samba e funk, mas ele refinava seu gosto oferecendo CDS de rock clássico, de músicas instrumentais e de Bossa Nova. Mas, logo toda felicidade da “mulata” virou pranto e dor, pois ele não andava com ela de mãos dadas na rua, não podia passear no shopping, porque era casado, e também, achava Clara, que, para ele, a linda “mulata” servia mais para os motéis do que para os salões. Os motéis eram a nova senzala, dizia Clara. Assim, o amor acabou.

Depois, Clara conheceu Lucas, um “negão de respeito”, como costumava dizer. Pagodeiro, que gostava de tudo que ela amava, inclusive o sexo. Bem-dotado e com muita disposição, as noites de sexo eram incríveis, do jeitinho que se espera de um “negão” junto com uma “mulata exportação”. No entanto, ela não o amava. Lucas trazia uma dolorosa lembrança do seu pai. Seu corpo preto, a fazia lembrar do seu corpo preto, do corpo preto do pai. Ela queria que ele fosse melhor, tivesse um carro melhor, uma profissão melhor, um cheiro melhor, uma cor melhor. Clara já era formada, não foi médica como a mãe quis, mas se formou e já fazia mestrado. Foi sempre a melhor aluna do colégio e também se achava a mais feia e pobre. A mãe sempre lhe dizia: “você é mulher, preta e pobre minha filha, por isso tem que ser a melhor”. A menina “bombom” e a “mulata exportação” levou essa sentença para o resto da vida: o dever de ser melhor, a MELHOR. Mas tinha o dedo podre para os homens, e como dizia sua avó: “só gostava de vagabundo”! Na verdade, ela nunca se achou boa o suficiente para ter um namorado doutor.

Lucas era muito popular com as mulheres, trabalhava na noite, era expansivo, bonito e galanteador. Conheceu Clara na Lapa, em um barzinho. Logo que Clara chegou no lugar, o garoto de dread, óculos colorido e guia de santo no pescoço lhe chamou a atenção. Foi um encontro divertido, Clara esperava que seria apenas mais uma noite com o pagodeiro, mas o que era para ser só um lance, durou três anos.

Três anos conturbados, de idas e vindas no relacionamento dos dois. Clara trabalhava num escritório de advocacia, tinha hora para entrar, mas não para sair. No início do namoro, ela virava noites sem dormir para acompanhar Lucas nos pagodes, foram momentos intensos e animados. Gastou todo dinheiro que podia em roupas para estar cada dia mais bonita, afinal disputava a atenção do rapaz com suas tantas amigas. Observava seus amigos casados saindo das festas com outras mulheres e morria de medo, de na sua ausência, ser a próxima traída. Sentia muito ciúme, mas escondia suas fragilidades o quanto podia. Lucas era possessivo e agressivo. Nunca tinha encostado um dedo em Clara, mas controlava suas amizades e fazia questão de reforçar sua personalidade sedutora para deixá-la ainda mais insegura. Certa vez, estavam saindo de um aniversário e um rapaz bêbado puxou Clara pelo braço, falando algumas gracinhas. Lucas não hesitou em esmurrar o moço até deixá-lo desacordado, e nem todo desespero da moça foi suficiente para freá-lo. Desculpou-se, em seguida, dizendo que sua fúria era incontrolável. Ela ficou alguns dias bastante impressionada, com medo de ser sua próxima vítima. Mas depois o sentimento de medo passou e decidiu levar adiante o relacionamento, nutrida pela esperança redentora de que pudesse modificá-lo…

Não modificou. Uma noite, véspera de feriado, Clara resolveu fazer uma surpresa e apareceu, sem avisar, num barzinho que Lucas tocava toda terça-feira. Coração acelerado, mãos suadas, olhos brilhando, e muita ansiedade para vê-lo. Sentia-se linda, cabelo solto, maquiada, salto alto e um vestido justo. Mas cadê o Lucas? Não estava. Ligou para o seu celular e nada. Quando já estava quase desistindo, andando para o ponto de ônibus na rua, avistou seu amor beijando outra mulher. Nesse instante quase não o viu, mas lembra com exatidão da loira alta e bonita que abraçava seu corpo exatamente na altura da tatuagem que dizia: “Clara, meu eterno amor”. Por alguns minutos não respirou, sufocada por uma dor intensa e ininterrupta. Um milhão de possibilidades de reação lhe vieram à cabeça, mas decidiu não fazer nada. Virou as costas e foi embora. Lucas não pediu perdão, não chorou, não hesitou, apenas a culpou por suas ausências, por seu trabalho, pela traição, por tudo.

Os meses que se seguiram foram difíceis, não por Lucas, não pela traição, não por ter se relacionado com mais um cafajeste, mas porque havia culpa. Clara também se culpou, culpava-se pelas vezes que achou ter o poder de redimir, modificar e salvar os homens. Por um momento sentia a dor de sua mãe, que por muitos anos achou ser possível convencer um homem boêmio e infiel a ter uma família. Fracassou, mas não desistiu.

Fazia alguns dias que seu pai ligava, mas Clara estava decidida a não atender. Sua mãe implorava, pedia para perdoá-lo e chorava. Ela então, para satisfazê-la, decidiu encontrá-lo. Esses momentos eram difíceis, sempre regados a muita mágoa e tensão. Porém, nesse dia tinha uma novidade, seu pai estava preocupado porque foi avisado em um jogo de búzios sobre alguns perigos que ela corria. Clara já tinha frequentado algumas festas em terreiros de umbanda, mas também ia a missa e gostava das reuniões budistas. Cismada com as revelações do seu pai, ela cedeu e aceitou seu convite para visitar a casa de candomblé da sua mãe de santo. Fez o que era preciso e passou a frequentar o lugar. Gostava de estar na companhia do pai, mesmo diante da sua brutalidade e arrogância.

Gostava mais ainda dos tambores, entrava em uma espécie de transe quando ouvia os atabaques. Em câmera lenta, observava as mãos dos ogans vibrando no couro denso e se deixava levar pela melodia harmoniosa. Suava frio diante do dono da casa: Xangô. O rei do império de Oyo, na África, despertava em seu coração um fascínio devastador. As pernas trêmulas, os olhos marejados e a respiração ofegante anunciavam que descia à Terra seu pai protetor. Foi na casa de mãe Dalva que Clara preencheu, pela primeira vez, o imenso vazio que morava em seu peito. Quando deitava o peito no chão e encostava sua cabeça diante das pedras sagradas do orixá, um furacão acolhedor tomava conta do seu corpo trazendo serenidade, equilíbrio, satisfação e paz. Sentia, então, que não precisava de mais nada, aquele encontro lhe bastava.

A cor negra de Xangô a fazia ter orgulho da sua cor, da cor do seu pai e, enfim, da sua ancestralidade. A “mulata” “marrom bombom”, despertava, finalmente, para tornar-se negra. E negra para que? Era a pergunta que se fazia.  Assim, já com a chave engatada na porta para sair e defender sua dissertação de mestrado, saia listrada, blusa preta, cabelo liso e pele perfeita, Clara começou a chorar. Seu pranto transbordava todo desespero de quem passou a vida negando ser o que é. A angústia de quem se machuca, se agride, se mutila para se enquadrar no padrão perfeito. Mas perfeito para quem? Perfeito por que? Clara se perguntava. Sentia que conquistou muitas coisas para uma “mulata exportação”, que só servia para satisfazer os homens brancos e pretos, mas ainda estava aprisionada, não mais nos motéis, mas ainda dentro do que esperavam dela. Com essa constatação e com toda a nova confiança que trazia no peito, tirou a roupa, rasgou a cinta, lavou a cara, amarrou um turbante na cabeça, que antes achava ser coisa só de macumbeiro e empregada, e deixou de ser Clara para se tornar DANDARA!

Dandara foi o pseudônimo que a princesa do reino africano de Oyo escolheu para assinar seus poemas, contos e crônicas, sua literatura preta! Clara, ou melhor, Dandara, como preferia ser chamada, escreveu mais de nove livros que contavam sua história, confundida com tantas outras histórias de mulheres negras no Brasil. Influenciou uma geração de rainhas, encorajadas a amar seu cabelo, seu corpo, sua cor e sua ancestralidade. E, toda vez que era indagada sobre sua vida e sobre o seu legado, ela dizia que não basta se descobrir preta, é preciso se perguntar, preta pra que? E no seu caso, a resposta imediata era: preta pra escrever!