Hoje ouvi Patricia Hill Collins falar ao vivo, a cores e a dois passos de mim. Apesar de não lidar com a grandiosidade das pessoas que admiro de forma que as coloque numa estante das intocáveis, dimensionar e marcar a importância de dividir o espaço com uma mulher negra que fez diferença na vida de tantas outras se faz necessário. Por isso guardo comigo essa impressão que diz muitas coisas – Hoje pude estar com Patricia Hill Collins e a ouvi falar. E sua fala é a fala de tantas outras de nós, que também admiro demais e com as quais também tenho tido a constante alegria e gratidão de viver junto. É por isso que é um grande desafio pra mim descrever isso em texto. Pra mim, o momento que vivemos juntas esta segunda, 18 de junho de 2018, é como se fosse um ponto no tempo e espaço que nossos pensamentos em toda sua diversidade ocuparam simultaneamente. Um ponto onde várias linhas se cruzaram. E desenrolar algumas dessas linhas, aquelas que meu pensamento alcança, é um pouco o que resolvi fazer para ver se dou conta do desafio de tecer esse texto.A cada passo e abraço que dou, uma memória vem à tona, evidenciando a presença que todas as mulheres negras que já conhecia naquele espaço têm na minha vida. E a cada encontro que tenho, isso fica cada vez mais nítido. Estamos constantemente tecendo as histórias umas das outras e é isso que garante a linha contínua do movimento de mulheres negras, ponto do qual partiu a fala de Patricia hoje. Aos poucos eu vou me sentindo pertencente e criando raízes nesses espaços, com referências que ultrapassam gerações. Eu sei que quando estamos balançando a cabeça em concordância com Patricia, não estamos afirmando apenas o nosso saber próprio e sim um saber coletivo que é o mesmo que essa senhora está compartilhando conosco. Quando ela diz sobre a importância de sabermos que nós temos a nós mesmas para contar, eu lembro de ter dividido essa confiança com Larissa Santiago, Thânisia Cruz, Sara Branco, Naiara Leite e Viviane Ferreira, companheiras que me abraçaram nessa caminhada, que salvaram minha existência (precisamente). Quando fomos provocadas por Patricia sobre a necessidade de construir um argumento melhor sobre negritude e antirracismo, eu lembrei da fala arrepiante que Thula Pires fez no seminário em que a escutei pela primeira vez, sobre a necessidade de questionarmos a abordagem de “garantia de direitos”. Minutos depois, quando outra mulher negra nos provocou sobre a necessidade de pensarmos qual é nosso ponto em comum, tive a oportunidade de compartilhar com a própria Thula como aquela sua fala no seminário fez diferença na minha forma de pensar, e ela colocou novamente pra mim: “precisamos pensar por quê, pra quê e pra quem?”.  

Entre as coisas que Patricia falou, ficou bastante marcada sua preocupação com as/os jovens negras/os. Disse que seus livros sempre foram escritos pensando na juventude. Ao ser perguntada sobre a problemática da organização dos movimentos negros no contexto atual, sobre a dificuldade de se encontrar uma pauta comum, ela constantemente trazia como exemplo o movimento Black Lives Matter (BLM). Ficou marcado pra mim quando ela pontuou que a pauta comum do BLM é a proteção das vidas negras. E aí veio aquele resumão na minha cabeça: Patricia veio falar sobre a herança e a linha contínua do movimento de mulheres negras, sobre a importância de trabalhar com a juventude, sobre um movimento que cuja proteção da vida negra é o que importa e sobre a importância do autocuidado. E aqui estamos nós (eu e minhas amigas e companheiras negras jovens feministas), pós Marcha das Mulheres Negras, que traz a importância não só de viver, mas de viver bem, como um novo paradigma de movimento antirracista. Aqui estamos nos articulando nacionalmente pela primeira vez enquanto negras jovens feministas, mas nos entendendo enquanto fruto e nos localizando enquanto continuidade dessa linha contínua do movimento de mulheres negras.Ao passo que minha cabeça fazia essa matemática, uma senhora disse: “Não estamos tão atrás assim”. Outra veio e afirmou rindo “Não tamo mesmo, estamos à frente” (e eu pensando: “Moça, a senhora tá sendo telepática?” xD ) A mesma senhora falou sobre a importância que os textos de Patricia tiveram para que ela conseguisse concluir o pós-doutorado num espaço extremamente branco e que estava negando tudo a ela. Patricia respondeu que ela escrevia pensando nas mulheres negras vivendo essa situação (nessa hora eu virei aquele emoji dos olhinhos de coração e pude compartilhar esse sentimento com Sil Bahia). Eu imagino a emoção dessa senhora de estar compartilhando aquele espaço com uma mulher que mesmo à distância a ajudou a reunir forças para seguir. Patricia disse um pouco da estratégia dela de circular em todos os espaços, da ação comunitária à academia, sem ter parado de transitar. Isso é uma das coisas que eu tenho como vontade e orientação. Não parar num lugar só, não cristalizar minha posição. Ver um exemplo vivo e tão admirador disso é uma oportunidade absurda. E quando paro pra pensar que eu olho a volta e vejo mais de um, me sinto mesmo privilegiada.

No final de tudo Lúcia Xavier ainda veio agradecer e falar que, assim como Patricia nos inspira, esperamos que ela se inspire conosco. Sabemos que ela se inspirou hoje e em outros momentos. Ela mesma disse que ela sabia que estava esse tempo todo atuando lá, entre outras, enquanto essas mulheres negras atuavam aqui (suas contemporâneas concordaram veementemente, porque isso é pura verdade). Lúcia presenteou e abraçou Patricia e aquilo foi a definição do amor e respeito que duas mulheres negras inspiradoras (as quais eu admiro muito) podem ter uma com a outra. A felicidade das duas naquele abraço era compartilhada por todas nós. Hoje, eu pude estar com Patricia Hill Collins e ouvi-la. E assim mais uma vez ouvi, Lucia Xavier, Rosália Lemos, Raika Julie, Aline Evelyn, Mônica Sacramento, Rachel Barros, Thula Pires, Sil Bahia, Mônica Cunha e todas as outras que estavam lá, mesmo que tivessem apenas usado como espaço de fala o seu tempo de apresentação. Assim também ouvi muitas outras mulheres que não estavam lá, Rosangela Valle, Thereza Valle, Elizabeth Vianna, Jane Thomé, Marielle Franco, Lélia Gonzales, Neuza Santos Souza, Larissa Santiago, Thânisia Cruz, Viviane Ferreira, Nalui Mahin, Sara Branco, Naiara Leite, Bia Onça, Flávia Oliveira…Nossas falas enquanto agentes ativas da transformação social inscrevem-se em nós para alimentar esse ininterrupto tecer de histórias de resistência. Como uma complexa mandala que nos organiza e nos impulsiona para o centro daquilo que temos de mais sagrado – a riqueza e diversidade das nossas experiências enquanto nossas referências de viver.

Imagens: Criola