Há poucos anos ingressei num grupo de estudos, inicialmente sentia que pela primeira vez poderia estar entre pessoas negras (e não ser apenas a única do curso todo de todas as turmas) dentro de um contexto acadêmico, onde compartilharíamos além de novas epistemologias, nossas vivências em comum enquanto mulheres e homens negros. Logo de início, a realidade joga na cara que bolhas sociais não se sustentam, e que o preterimento companheiro de tão longa data das mulheres negras, sobretudo das de pele mais escura, estaria também ali, como o elefante branco na sala, e que não ia ter Ubuntu que nos livrasse daquela onipresença.

Percebido no tom de uma amabilidade própria com que quase sempre mulheres brancas são lembradas, uma situação em especial me chamava atenção, apesar de sermos uma maioria de mulheres negras na ocasião, havia uma amiga em comum a quase todas aquelas pessoas, e que mesmo não fazendo parte daquele grupo de estudos específico, era lembrada numa constância por sua doçura, meiguice e sorriso fácil, que eu já quase sentia vontade de conhecer o mais rápido possível pra poder desfrutar também dessa companhia tão agradável. Passadas algumas semanas, percebi que os elogios a tal moça branca iam se exacerbando a medida que esta era lembrada pela ala masculina, e eu pensava – Nossa, essa menina deve ser realmente muito legal, nem faz parte dessa atividade, mas as pessoas (sobretudo os homens negros) não hesitam em vomitar arco-íris e expelir unicórnios quando falam dela (eu é claro, com minha mente que grita o que não falo, e a minha preguiça habitual das pessoas que me torna alguém extremamente sem saco pra blá blá blá de macho que a gente já tá opaca de saber de onde vem).

Pois bem, passados dois anos, eis que surge a oportunidade de conhecer a moça, gente, na hora pensei, se sair um unicórnio inteiro da minha boca quando eu cumprimentar ela, juro que me tornarei para sempre uma pessoa melhor (isso também é claro, que na atual conjuntura machiracista era quase impossível de acontecer após passado o devido pente fino do senso crítico e a lupa da reflexividade, minhas amigas de nécessaire). Mas para minha surpresa…

Iniciamos rapidamente uma conversa, o fluxo dos assuntos fluía, tínhamos colegas em comum, foi chegando um momento que eu comecei a sentir um desconforto na garganta e pensei – Deus, são contrações de Braxton Hicks, vou parir um unicórnio pela boca! Na hora em que aquele chifrinho colorido começa a coroar pela minha boca, a nova colega branca começa uma discussão sobre duas cantoras negras nacionais, uma de rap e outra de pop, em meio a argumentos de preferencia entre uma e outra, e da nossa aparente concordância com o talento das duas, fato que nos uniu em defesa da nossa cantora favorita em comum frente ao comentário da nossa outra amiga que preferia a cantora de rap, pois na opinião dela, esta ‘quebrava-tudo’.

Eu com a chatice própria das pessoas sóbrias num ambiente que deveria ser mais descontraído, levanto a seguinte questão: -só estamos discutindo e comparando essas duas cantoras, bem como seus estilos, por elas serem mulheres negras, se fossem mulheres brancas seria impensável comparar estilos e trajetórias diferentes, e sobretudo exigir que a mulher negra tenha sempre que ‘quebrar tudo’ pra ganhar a estrelinha de mulher negra-sofredora que venceu na vida, continuei dizendo que temos o direito de cantar pop, mpb, abobrinha e qualquer outra coisa que não signifique exclusivamente experiencias de dor. Aí minha preta… Nesse ponto, ouço o comentário que me perturbou por dias e interrompeu abruptamente o nascimento do unicórnio siamês com arco-íris (risos), a moça meiga-branca e de elevado índice de fofura dispara: “Mas, também, a fulana (cantora de pop) não passou fome o suficiente para ter os discursos da outra (a cantora de rap).

Imediatamente ao ouvir isso, tive delírios homicidas, senti a deglutição de retorno imediata do unicórnio siamês com arco-íris e uma vontade quase incontrolável de correr do aniversário da minha amiga. Fato é, que fiquei atônita com a naturalidade com que uma mulher branca acredita numa tabela que parte de seu imaginário sádico-racista que mede o quanto uma mulher negra deve passar de fome na vida para ter sua trajetória legitimada pelo viés da branquitude, e ainda por cima falar uma coisa dessa numa sala onde todas as outras mulheres eram negras (inclusive a aniversariante). Nesse momento, me fechei naquele meu único lugar onde consigo lidar com essas pessoas, o não lugar.

Lembrei de todos os caras negros falando sem parar o quanto essa mulher era fantástica, das minhas amigas negras perguntando sobre ela e se dizendo saudosas de sua presença nos últimos dois anos, e conclui que não há limites para o privilégio branco, este permeia e contamina todas as nossas relações sociais e afetivas, como uma espécie de bactéria multirresistente. É preciso de forma urgente, que todas as pessoas se perguntem onde seu racismo está escondido, já as pessoas brancas precisam entender o quanto a cegueira de seus privilégios é importante para a manutenção deles. Quanto a mim, sigo passando nervoso, pois há dois dias atrás tive que ouvir mais uma vez de um colega  negro o quanto essa moça é legal e uma amiga impecável, pois ele, após um dia extenuante de trabalho expressou com orgulho o quanto precisou ficar até tarde com a dita cuja ajudando-a a terminar seu TCC que deveria ter sido concluído há uns dois anos, em ato contínuo, fiz cara de paisagem, e a simples menção, ainda que em silêncio de não empatia por uma pessoa que a única coisa que faz da vida é estudar, e que apesar de saudável, procrastina a entrega do seu TCC em dois anos, foi suficiente para esse colega começar a dizer que eu precisava conhece-la melhor etc…

Enfim, caí no clichê de não falar nada para não parecer invejosa, ou antipática com alguém que de fato não conheço intimamente, e me vi presa num silêncio incômodo, com medo de ser rotulada de negra raivosa e agressiva com uma moça só por ela ser branca, super querida por todos, e é claro provavelmente com abundância de muito rosa nas partes íntimas, preferência desde sempre muito em voga por aqui. Nesse ponto, chama a atenção a violência sofrida pela moça russa, a comoção imediata que isso causou, e a demora hipócrita no estilo próprio do racismo à brasileira em se identificar de imediato que as ofensas eram além de machistas, racistas.

Acredito que para além da consciência diária do enfrentamento da violência causada pelo machismo, esse fato ocorrido na copa em especial, serve e muito para as mulheres brancas refletirem sobre seus silêncios convenientes quando as preferências masculinas às beneficiam frente à uma cultura machiracista que restringe a mulher negra da interação social e ambiental em todos os níveis de suas vidas, cerne da solidão da mulher negra que é fruto direto de seu preterimento numa sociedade racista, machista, classista e sexista.

 

Imagem de destaque: The Conservate Kitchen Table