Quando vi mulheres no palco

na convenção pelo Sufrágio da Mulher,

no outro dia,

Eu pensei,

Que tipo de reformistas são vocês?

com asas de ganso em vossas cabeças,

como se estivessem indo voar,

e vestida de forma tão ridícula,

falando de reforma e dos direitos das mulheres? É melhor vocês

mesmas reformarem a si mesmas em primeiro lugar.

Mas Sojourner é um velho corpo, e em breve vai sair deste mundo

em outra,

e vai dizer

quando ela chegar lá,

Senhor, eu fiz o meu dever,

e eu disse toda a verdade

ela não guardou nada.

Poema da feminista negra norte americana Sojourner Truth.

Versão traduzida retirada do livro Lugar de Fala de Djamila Ribeiro.

       

Conheci minha amiga na sede de uma organização de direitos humanos no Rio de Janeiro. Eu trabalhava por lá fazia muito tempo quando ela chegou de outra cidade. Eu já tinha a visto circulando pela organização, mas não senti nenhuma identificação inicial que nos aproximasse. Pensei: mais uma mina branca, convidada para trabalhar aqui, olhos claros, classe média. Eu era educada, respeitosa, cumprimentava formalmente, até um dia que, nem lembro ao certo, começamos a conversar um pouco.

Depois de um tempo curto trabalhamos juntas num projeto com pessoas afetadas pela violência do Estado. Percebemos que tínhamos a mesma revolta com as violações de direitos que todo dia adoecem e matam pessoas negras e moradoras de favelas e periferias.

Minha amiga foi ganhando a cidade, fazendo amigos, conheceu seu namorado legal, alugou uma casa e seguiu trabalhando. Sua postura forte e olhar determinado me deixavam bastante fascinada. Eu tinha admiração por seu trabalho e personalidade. Eu pensava: “os privilégios de uma sociedade fizeram com que ela fosse assim, forte, segura, determinada, inteligente”. Óbvio que coisas muito concretas nos separavam incluindo nossa relação com a cidade. Eu morando num município da periferia do Rio e ela num bairro entre o centro e a zona sul. Quando conheci sua casa pela primeira vez, não imaginava que seria na subida de uma favela do Rio e nem que seria um casarão antigo onde outras duas pessoas muito bacanas dividem o aluguel. Pensei mais uma vez: “privilégio”. Eu me dava conta que minha amiga tinha um “chapéu com penas de ganso”.

O tempo foi passando e eu acompanhava o quanto ela trabalhava bem, mas não recebia o reconhecimento institucional que eu achava justo para quem desempenhava um trabalho tão potente. Fomos nos aproximando. Eu percebia que também queria que meu trabalho fosse visto com outras perspectivas que não apenas “comprometido com a causa”. No meu caso, obviamente, além de ser mulher e negra, sempre fui da periferia do Rio, estudei quase toda a vida em escola pública e sempre percebi o quanto as pessoas me viam pela ótica meritocrática. Diferentemente, não era assim que minha amiga me olhava. Seus olhos me fitavam de um jeito que eu gostava, que eu me sentia à vontade e nem um pouco diminuída.

Com o tempo nos aproximamos mais, fomos compartilhando sorrisos, aprendizados, emoções, e ela sempre com um jeito muito próprio e autêntico de me olhar. Ela não tinha aquele olhar de “branca culpada” como quem vê em nós a chance de “redimir os pecados de seus antecessores”. Não. No nosso caso havia uma conexão, uma energia boa, forte, potente que vinha de uma para outra.  

Na correria do mundo do trabalho, na distância entre as casas, fomos criando formas de estar juntas, até que um dia, me vi perdendo uma grande amiga de forma brutal. Mulher, negra, origem favelada, uma inspiração para mim e para tanta gente: Marielle Franco. Depois do assassinato da Mari comecei a revisitar muita coisa dentro de mim. Eu sentia uma dor imensa, saudades, revolta e ao mesmo tempo a certeza cruel de que algumas vidas não importam independente do lugar institucional que ocupem. Acabei adoecendo.

Fui me dando tempo e paciência. Minha amiga me desejava força, estava disponível, entendia minha dor e necessidade de afastamento do mundo por um tempo. Numa tarde, jogada no sofá de casa, recebi uma mensagem dela com um cartaz de um grupo terapêutico voltado para mulheres negras. Não dei muita atenção porque tudo que eu não queria era estar em coletivo. Alguns dias depois de pensar resolvi ir ao primeiro encontro do grupo e lá estou até hoje.

Neste espaço encontrei acolhimento, cuidado, amor e produção de novas relações.

Quando perguntada sobre como cheguei ao grupo eu disse “cheguei por indicação de uma amiga”. Me dei conta de que minha amiga que teve privilégios a vida inteira foi a ponte para que eu chegasse em outras mulheres com as vivências tão parecidas com as minhas. Alguém poderia pensar: “mas isso é colonizador! O caminho do cuidado veio por uma pessoa com privilégio?” Eu diria que foi o bonito encontro entre gênero e raça. Minha amiga foi ponte porque ela era parte do meu mundo de afeto, amor e apoio feminino. Ela era uma das mulheres que estavam e – está – caminhando comigo.  

Minha amiga não foi minha salvadora, mas foi uma linda ponte para o meu fortalecimento juntamente com outras mulheres negras. Sua postura sempre foi a de quem reconhece seus privilégios e não os maquia para que tornem-se menos explícitos, fingindo ser o que não é para ser legal e aceita entre as negras.

Na mesa do bar, na casa, em nossas andanças na cidade, ela sempre foi alguém que não mentiu sobre seu chapéu com penas de ganso. Ela nunca o escondeu, mas nunca o exibiu utilizando-o como recurso de legitimação nas relações com pessoas diferentes dela. Isso não significa que as opressões não estejam aí no mundo real, capilarizadas nas relações, mas acho que minha amiga entendeu que um mundo sem racismo se faz com muita luta, mas também com amor. Reconhecer privilégios não é colocar-se numa posição de culpa que acaba reproduzindo o racismo em outras dimensões, mas trata-se de se reconhecer como alguém que sabe exatamente do lugar onde se está partindo, e que, portanto, reflete e problematiza o que se deve fazer com isso.  

Com minha amiga tenho vivenciando na vida real das relações, a beleza de celebrar diferenças reconhecendo que vivemos num mundo desigualmente estruturado, mas que nós descobrimos a força de nossa cumplicidade e amor a partir do reconhecimento do lugar de cada uma.

Eu sei que o chapéu de penas de ganso da minha amiga existe e que embora ela não exiba, ele está lá e sempre estará. Nossa formação social produziu esses chapéus e certamente aquela que tem o seu deve aceitar o desafio de “reformar a si mesma” como aclama Truth. E eu acredito que essa reforma de si só é possível na relação com outras mulheres, fortalecendo nossas pontes, reconhecendo diferenças, desigualdade e que  partimos e falamos de outros lugares.

Acho que todo o dia temos o desafio de generificar a raça e enegrecer o gênero fazendo aquilo que bell hooks, feminista negra, já nos chamou atenção para uma “ética do amor” que supere nosso desejo autocentrado por mudança.  

Se o racismo estrutura nossas relações sociais, vamos construir outras relações nos níveis mais capilares do cotidiano, que sejam baseadas no afeto, na troca, considerando desigualdades, reconhecendo-as e buscando enfrentá-las também a partir da forma como escolhemos nos relacionar. Que possamos estars juntas com outras, produzindo amor como enfrentamento à cultura de dominação que, como diz Hooks, é “anti-amor” e violenta.

Acho que eu ensino muito à minha amiga e ela também muito à mim. Quem sabe um dia a gente consiga ter um mundo sem chapéus com pena de ganso? O caminho até lá será árduo, talvez nossa geração não seja capaz de ver isso, mas certamente temos um papel central no mundo contemporâneo em lutar, resistir e amar.

Ao escolher amar, começamos a nos mover contra a dominação, contra a

opressão. No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover para

a liberdade, a agir de maneiras que libertem a nós mesmas/os e a outrem. Essa

ação é o testemunho do amor como a prática da liberdade.

bell hooks.

Ao caminharmos juntas, tudo fica menos pesado, mais bonito e mais potente!

Um salve cheio de amor para minhas companheiras do grupo Comporpretas Kelly, Mariana, Adriana, Miriam, Dandara e Gabrielle e para minha querida amiga Olívia.

REFERENCIAS:

HOOKS. Bell. O Amor como prática de liberdade. No original: Love as the practice of freedom. In: Outlaw Culture. Resisting Representation. Nova Iorque: Routledge, 2006. Tradução para uso didático de Wanderson Flor Nascimento.

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Coleção Feminismos plurais. Belo Horizonte, Letramento: 2017.