Um corpo negro no mundo. Um corpo negro e feminino no mundo. Ser negra é continuar desbravando o mundo cheia de ferida aberta não curada. Ser mulher é lutar diariamente para não virar estatística do feminicidio.

Nesse eterno looping cansativo, nossos corpos negros precisam de curas diárias para continuar a caminhada.
Começar uma escrita falando de dores não é a narrativa que mais me agrada, eu costumo dizer que falar de mim é o  desafio, porque quando falamos da trajetória dos nossos corpos negros, revisitamos memorias afetivas de muita tristeza, dores e enfrentamentos, então cada vez que falamos lembramos de vivências que marcaram a nossa vida.
Nesse meu corpo casa, muitas marcas de guerra, de dores, de alegrias, de resistência.

Existo em um corpo que por ser meu, torna-se uma experiência de reviver ancestralidade. Acredito que esse corpo já viveu outras vidas e hoje eu re-existo nele como comandante de uma embarcação. Em uma viagem subjetiva constante, ir e voltar no entendimento do nosso sexo, do nosso corpo e da nossa existência é um exercício libertador, construí uma identidade nesse mundo que dita todas as regras é um ato não só de coragem, mas de resistência e insubmissão. Sou uma mulher gorda, sempre fui uma criança gordinha e com manchas escuras nas pernas, eu sempre fui alérgica e qualquer machucado marcava minha pele, existiu na infância uma tentativa de ser desqualificada por isso ou apelidada, mas nunca funcionou, sempre tive um amor pelo corpo que habito, desde muito nova. 

Depois de um tempo, durante a adolescência, meus seios cresceram junto com meu corpo, com minha alma, minha vontade de viver. Meus seios se tornaram do tamanho de quem sou, gigante. Mas antes de entender o auto amor, em um curto período me deixavam com vergonha, e uma pergunta me atormentava: “Porque tão grande? Porque caído? Porque não se parece com o das mulheres da revista? Porque não é igual aos das mulheres da TV, ou até mesmo iguais os de mainha?” Um menino bonito me disse: “Seus seios são lindos, você é linda, tudo em você é tão bonito…” Aquilo marcou profundamente minha vida. Na época, a opinião dos homens ainda tinha algum peso na minha vida, então foi realmente revolucionário.
A menina que jogava bola no bairro, que odiava sutiã e amava cabelo curto, a “sapatona”, de um jeito pejorativo, foi uma das identidades que também marcaram caminhos da minha vida, identidade que silenciei até o auge dos meus vinte e poucos anos.
Me despi do véu amargo da dúvida. Ao olhar o reflexo do espelho, me vi enorme como meus seios, e todas as dúvidas amargas se desfizeram.
Lá eu estava, pele preta, com manchas no corpo, seios grandes, cabelos crespos, corpo gordo. O tempo passou. O tempo me deu uma missão: a de habitar uma vida dentro de mim, e eu que já era gigante, me tornei sublime, força bruta, corpo largo, muitas estrias, celulites e flores.
Meu corpo casa fez morada de duas, com cicatriz de cesariana, marcas por todo o corpo, seios sem bico, enormes, barriga escureceu todo meu corpo estremeceu e mais uma vez o auto amor me refez.
Lá eu estava, pele preta, mãe, com cicatriz, manchas, estrias, celulites, corpo gordo, cabelo crespo. O tempo passou. O tempo me deu uma missão, de habitar uma vida dentro de mim, e eu que já era gigante me tornei mãe de orixá. Raspada. Catulada. Confirmada. Curada. Me refiz. Renasci.
Lá eu estava, mãe, com cicatriz, manchas, estrias, celulites, corpo gordo, cabeça raspada, curas de axé em todo meu corpo, em sintonia com minha sexualidade, escolhas de caminhos, posicionamento político, olhos atentos e faro aguçado.
O tempo passou e eu entrei na universidade. Cotista, dias sem dinheiro para o ônibus, dias sem dinheiro pro almoço, sobe e desce: um alvoroço, sem bolsa permanência, afinal de contas quem liga para nossa existência? Acadêmica questionadora, nos corredores batizada como problemática, se reivindicamos o óbvio da nossa existência, naquele espaço somos marginalizadas. Resistimos e re-significamos a nossa presença na universidade, transformei em espaço de luta e pude vivenciar os melhores debates e as melhores formações políticas dessa vida.
Lá eu estava, mãe, com cicatriz, manchas, estrias, celulites, corpo gordo, cabeça raspada, curas de axé em todo meu corpo, em sintonia com minha sexualidade, escolhas de caminhos, universitária, cotista, ativista, olhos atentos e faro aguçado.
Nas letras da Luedji Luna me encontrei, Dentro Ali com Meu Corpo No Mundo. Nas letras de Xênia França que a cota é pouca, e o corte é fundo. E sua letra faca que corta Bia Ferreira nos disse: Cota não é esmola! Na fotografia de Helen Mozão me tornei poesia viva, nos desenhos da artista Ananda Santana minha história é resgatada em meio as cores e traços. Todas as mulheres negras são transversais no Tempo, o que elas são agora, começou com passos de outros corpos negros. Somos continuidade de caminhos traçados pelas nossas ancestrais. Nossos passos veem de longe. Eu sou porque todas nós somos. Eu, mulher negra, re-existo. Espada sempre apontada, fé cega e faca amolada.