É com muita alegria que observamos atualmente que, apesar de barreiras construídas historicamente para nos silenciar, mulheres negras seguem resistindo contra opressões oriundas de sua condição social, racial e de gênero, e uma das grandes aliadas nessa resistência é a linguagem.

Infelizmente temos um cânone literário que privilegia homens brancos e de elite. Escritoras negras sequer aparecem nesse cânone, sendo geralmente silenciadas e invisibilizadas, consideradas como escritoras de uma categoria menor, cuja obra não é relevante para aparecer em manuais didáticos.

No entanto, na contramão dessa tentativa de silenciar e apagar nossas narrativas, a obra de Carolina Maria de Jesus, “Quarto de despejo”, tornou-se leitura obrigatória no vestibular da Universidade estadual de Campinas (UNICAMP), assim como as letras das músicas dos Racionais, que denunciam o racismo institucional e a violência contra a população negra.

Nesse sentido, também hoje vemos uma efervescência de autoras que buscam romper com o apagamento literário produzindo textos de diversos gêneros como contos, ensaios, romances e poemas. As obras dessas autoras têm sido divulgadas por meio de saraus, redes sociais, eventos literários, vídeos, fanzines etc. É importante destacar que hoje, mesmo com a dificuldade de serem absorvidas pelo mercado editorial de cunho racista e machista, essas mulheres seguem produzindo e espalhando poesia pelo mundo.

A poética de escritoras negras aborda assuntos diversos, fala de amor, de alegria, de emancipação, de violência racial e de gênero, de estética negra, de maternidade, de opressão, de solidão, entre outros. É uma vasta obra que tem o poder de nos emocionar, nos mobilizar, nos levar à reflexão, despertando nossa consciência por meio de “escurecimentos necessários”, como diz Cristiane Sobral.

Cristiane é uma autora carioca cuja poesia nos leva a uma reflexão sobre questões raciais e de gênero, pois na sua poética a mulher negra sempre aparece questionando, levantando o cabelo black power, apontando o racismo, tirando a sujeira debaixo do tapete, expondo-a para que todos possam encará-la e tomar uma atitude. Eis o poema “Retina Negra”:

“Sou preta fujona/ Recuso diariamente o espelho/ Que tenta me massacrar por dentro/ Que tenta me iludir com mentiras brancas/ Que tenta me descolorir com os seus feixes de luz/ Sou preta fujona/ Preparada para enfrentar o sistema/ Empino o black sem problema/ Invado a cena/ Sou preta fujona/ Defendo um escurecimento necessário/ Tiro qualquer racista do armário/ Enfio o pé na porta e entro.”

Uma grande autora também é a baiana Lívia Natália, que em sua obra nos faz um convite a uma viagem embalada pelo mar, mas sem deixar de nos levar a enxergar o verdadeiro cenário em que estamos inseridos na sociedade. Um de seus poemas, intitulado “Quadrilha”, chegou a ser censurado por denunciar a violência contra jovens negros:

“Maria não amava João/ Apenas idolatrava seus pés escuros./ Quando João morreu, assassinado pela PM, Maria guardou todos os seus sapatos.”

Outra autora de grande importância atualmente é Jarid Arraes, que em sua obra procura dar visibilidade a mulheres negras cuja história é silenciada. Jarid, por meio de seus cordéis, dá voz e protagonismo a essas mulheres e as enaltece por meio de sua poética. Sua obra “Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis” traz a história de mulheres como Carolina Maria de Jesus, Aqualtune, Tereza de Benguela, dentre outras. Sobre Carolina, lemos em sua obra:

“Por racismo e elitismo/ Pouco dela hoje se fala/ Mas tamanho preconceito/ Seu legado jamais cala/ É por isso que eu lembro/ E meu grito não entala.”

Outra autora que nos emociona com sua poética é a paulistana Débora Garcia, que em sua obra enaltece a mulher negra e desenvolve um trabalho de valorização da cultura afro-brasileira por meio da participação em saraus e de diálogos com jovens de escolas públicas. No poema “Revelações” lemos:

“Sim, assumo/ Meu passado foi negro…/ E se me perguntar/ Digo, sem medo de errar/ Que meu futuro/ Negro será!”

Uma autora também de grande relevância é Nina Rizzi, que em sua obra também resgata a figura de mulheres negras invisibilizadas, como a da rainha Nzinga, de Angola, por exemplo. Em seu poema “variação barroca pra casa grande & senzala”, lemos:

“a casa-grande era branca./ descalça, não entrava, não a via./ vivia na casa branca. enquanto eu, num banzo tão encarnado, dona.”

   Essas mulheres negras escritoras são apenas alguns exemplos que ilustram como nossa luta contra sistemas de opressão como machismo e racismo são incessantes e que nossa resistência ocorre de formas diversas. Palavra é poder, sendo assim nossas palavras pretas têm o poder de  “parir novas cabeças”, como diz Cristiane Sobral. Que possamos cada vez mais ler e prestigiar escritoras negras e cultivar a palavra como instrumento de luta.