Há um pouco mais de três anos eu escrevi o primeiro texto sobre o colorismo e que pode ser lido aqui. Até aquele momento, segundo a minha pesquisa, não se usava esse termo para se referir à preferência de pessoas negras com traços mais próximos daqueles tidos como caucasianos. Isso, porém, não quer dizer que o tema não tenha sido pesquisado ou comentado antes. Um bom exemplo é o trabalho de Oracy Nogueira que fala sobre o “racismo de marca”, que seria o brasileiro e o “racismo de origem”, que seria o estadunidense. Nele, Oracy explica como no Brasil o que importa é ser entendido, lido, ou reconhecido como negro para ser discriminado, enquanto que, nos EUA, a descendência, não importando o quão remota, é o que conta. No Brasil, graus de escolaridade, situação financeira, entre outros fatores, também mudariam a percepção de negritude, enquanto nos EUA isso não faria a menor diferença. Desde o texto de Oracy, de 1954, muita coisa mudou tanto na percepção de quem é negro no Brasil, quanto de quem é negro nos EUA.

Apesar do racismo nos EUA enquadrar-se no que Oracy chamou de “racismo de origem”, negros e mulatos recebiam tratamento diferente por parte de seus senhores, ainda que isso não significasse o fim da discriminação e inclusão social fora da comunidade negra. Ora via-se os mulatos como mais degenerados que os negros, ora como mais palatáveis. Na comunidade negra percebia-se também a influência desse olhar branco que hierarquizava a descendência através da marca. Alice Walker chamou a atenção para esse fato num de seus livros. Ela, que tinha tido uma filha de pele mais clara e cabelos mais lisos, oriunda da união com o advogado de origem judia Melvyn Leventhal, percebeu como sua filha desfrutava de maior aceitação dentro da comunidade negra e deu o nome a esse tratamento de colorismo:

“tratamento prejudicial ou preferencial de pessoas, baseado unicamente na cor da pele entre pessoas da mesma raça” *

Mesmo antes de Walker esse preterimento de traços africanos na comunidade negra já tinha tido outras denominações. Arthur K. Spears usa o termo “colorstruction”, derivado de “colorstruck”, referindo-se à preferência por pele mais clara. O cunho de Walker foi o que mais se popularizou. A autora tocou num assunto muito doloroso para a comunidade negra ou qualquer outra que sofra com a obsessão branca na nossa sociedade: a internalização de ideais de beleza racistas.

Durante muito tempo essa questão foi vista como problema dos negros pela branquitude dos EUA ou como simplesmente “racismo contra si mesmos”, o que tem sido fortemente refutado por ativistas negros. A verdade é que essa internalização fala de uma vergonhosa e dolorosa lembrança, que quer ser esquecida. Desconfortável tanto para brancos quanto para negros, essa parte da história desestabiliza a imagem que comumente se tem dos relacionamentos entre (ex-)senhores e (ex-)escravos. Senhores brancos tinham como vergonhoso terem se misturado àqueles a quem negavam a humanidade, enquanto negros se envergonhavam por terem que se identificar com o branco que os havia escravizado para, assim, poderem alcançar a ascensão social. O maior peso a se carregar era o de ser o resultado da violação de suas mães escravizadas.

Em regiões do sul dos EUA não era incomum que os senhores de escravo proporcionassem aos seus filhos mulatos uma vida melhor através do financiamento da educação, etc. Alguns deles permaneciam na propriedade de seus progenitores e eram empregados nos afazeres domésticos por serem considerados “os animais de aparência mais agradável” (Reuter, 1969, p. 177), enquanto que as mulatas eram treinadas para o serviço doméstico e depois vendidas com o intuito de funcionarem como concubinas de seus novos senhores. Outros mulatos eram libertos e recebiam uma educação financiada por seus progenitores. Com o tempo essa classe de libertos miscigenados (muitos deles descendentes da aristocracia branca do sul dos EUA), e com melhor acesso à educação foi formando uma elite na comunidade negra e que até hoje preferencia pessoas negras de pele mais clara, cabelo mais liso, etc.

Nos EUA a miscigenação não era vista como uma solução para o que a branquitude chamava de “vergonha negra”, o embranquecimento era visto como um problema, já que a ideia de inferioridade e passibilidade de escravização estava ligada à cor da pele. Também por esse motivo, aos poucos as leis que determinavam quem era escravo ou não, foram mudando, pois nem em todos os estados a descendência de mãe escrava tornava o filho automaticamente um escravo. Assim, miscigenados com passibilidade branca podiam fugir para outro estado e recomeçar a vida como pessoa livre. A lei do “one drop” (uma única gota de sangue) foi sendo colocada em vigor e é por isso que, mesmo hoje, uma pessoa de pele clara, de cabelos loiros e olhos claros pode ser considerada negra nos EUA, se tiver antepassados africanos.

A lei “one drop” adveio da necessidade da sociedade escravocrata de delimitar os corpos e manter o poder sobre eles. A ideia, porém, entre os negros, de que clarear-se é o caminho para a inclusão parece ter permanecido na comunidade negra, manifestando-se na preferência por pessoas negras de pele mais clara. Ao mesmo tempo, entre brancos, mesmo apesar do apartheid e da lei do “one drop” darem a ideia de uma equidade de discriminação, uma pessoa negra com um fenótipo mais próximo do ideal branco, continuava, e continua sendo vista como “mais agradável”.

Quando escrevi sobre o colorismo pela primeira vez, eu pouco falei sobre todo esse processo histórico por trás dele nos EUA. Também pouco enfatizei a questão do colorismo dentro da comunidade negra estadunidense. Achei melhor adaptar o termo à situação brasileira, onde a miscigenação continua sendo vista como a melhor opção para a “vergonha negra” e o apartheid não se baseia na lei do sangue, mas sim na leitura subjetiva dos corpos, apoiada nas ideias racistas sobre o que é negro, e o que é branco. É assim que um mulato fica branco quando se torna jogador de futebol famoso, já que a riqueza é uma característica branca, e uma mulata que mora nos Jardins fica negra quando é iniciada no Candomblé, religião demonizada pela sociedade brasileira.  

As últimas discussões envolvendo esse termo no Brasil mostram que, se antes de uma conscientização negra maior, nós todos buscávamos também alcançar o estandarte “pele clara e cabelos lisos”, hoje, conscientes da violência por trás dessa ideia e orgulhosos de nossa negritude, nós não sabemos muito bem o que fazer com o enorme número de tons de negro que destoa do ideal de negritude que construímos. Assim como nos EUA, mais claros e mais escuros veem-se hoje com desconfiança, e acusações regem as discussões sobre quem pode ser considerado negro ou não.

Termos como “bege” para se referir a negros de tonalidade mais clara e “retinto” para se referir aos de tonalidade mais escura, como tenho lido em textos sobre colorismo, mostra como as discussões continuam sendo regidas pelo ideário branco. Afinal apenas objetos são bege, que é, aliás, por coincidência ou não, a cor das calças dos agentes penitenciários (capitães do mato?), na canção dos Racionais Mc. Que ligação o nosso subconsciente não estaria fazendo ao eleger esses termos?  E quem seria duplamente “tinto”, manchado, na expressão retinto? Talvez Cã, com a “mancha” da vergonha, e esta mesma mancha figurada na cor da pele como maldição divina?

Entender o colorismo é entender a obsessão pela brancura na nossa sociedade e essa obsessão nasce com o olhar do branco sobre ele mesmo, muito antes do contato com o africano. No livro “White – Essays on Race and Culture”, Richard Dyer analisa a representação da branquidade na cultura ocidental e como a idealização da imagem e do corpo branco fortalece as ideias e os discursos racistas. Dyer tematiza a negação da corporeidade na cultura ocidental e como essa negação encontrou no escravizado, que era visto unicamente como corpo, o seu depósito de negatividades. Ideais racistas somente deixarão de ter poder quando a ideia que a própria branquitude tem de si for desconstruída. Seria maravilhoso se descobrir-se negro, e descobrir que ser negro não é aquilo que se tem ouvido durante os últimos quase 500 anos, e fizessem desaparecer todos os traumas que o racismo e a violência da escravidão nos trouxeram. Mas infelizmente, não é assim que funciona a psique humana. E basta ver qual a cor dos assassinados, dos mais pobres, e dos mais violentados, para entender porque ser branco, ou ser entendido como tal, continua sendo tão desejado e importante na nossa sociedade. Isso, sem nos esquecermos dos efeitos causados na nossa memória coletiva pelos diversos estudos pseudocientíficos que quiseram provar que os negros seriam inferiores aos brancos e que, ainda hoje, vez ou outra voltam a serem citados mesmo por professores universitários.

Para Dyer, o maior trunfo da branquitude é a representação que ela faz dela mesma e que é entendida na nossa sociedade como não-racializada, a única raça da qual a branquitude se vê representante é a própria raça humana. Estamos discutindo a nossa “visibilidade” e quem pode representá-la, enquanto a branquitude nos esmaga diariamente em todas as manifestações culturais com as suas diversas tonalidades de “humano”. Para representar a princesa inocente contrata-se a loira virginal, para representar a mulher volúvel, contrata-se a morena oxigenada, para representar a esposa e companheira, contrata-se a de cabelos castanhos. E para nós restam as caricaturas desses papéis, dos mais claros aos mais escuros somos sempre o avesso do humano. Somos aqueles que precisam ser vistos, que precisam ser apontados, que precisam ser dissecados, pornograficamente expostos para que a branquitude possa continuar invisível, na sala de projeção, donde continua lançando sobre os nossos corpos tudo aquilo que não admite no seu conceito de humanidade.

Obs: Obviamente não acredito na existência de raças, quando me refiro à raça, me refiro à construção histórica e social do termo, à ideia que se tem de “raças” na nossa sociedade.

Textos de apoio:

* orig. ing.: “prejudicial or preferential treatment of same-race people based solely on their color”. Walker, Alice. In Search of Our Mother’s Gardens. Womanist Prose. London: The Women’s Press, 1984, p. 290.

Spears, Arthur K.. Culture Critique and Colorstruction: Black-produced Media Images of Blacks, Transformation Anthropology, 3.1, 1992, p.24-29.

Nogueira, Oracy.  Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem : sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. In: Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 19, n. 1, (2007), p. 287-308.  https://core.ac.uk/download/pdf/30354417.pdf , acesso em: 20.07.2018.

Dyer, Richard. White – Essays on race and Culture. London, Routledge, 1997.