Cena 1 – Olha no relógio: 9 horas. Ainda faltam alguns minutos para seu horário. Anda tranquila pela rua. Flanando, observando as pessoas com pressa. Cantarolando, observando a urgência alheia. Entra numa loja. Só uma olhadinha. Sente passos ao seu encalço. Sente uma presença em torno. Muda de direção, continua sendo olhada. Muda de semblante, não está mais tranquila. A cada passo pela loja sente outro atrás do seu. Só uma olhadinha. A função dele não é a segurança da loja? Por que eu sou uma ameaça? “Está precisando de alguma coisa?”. As lágrimas vêm. Humilhação.

Cena 2 – Os olhos estão fechados. O movimento do ônibus a leva para um outro lugar. Lembra do filho que ficou na vizinha. Não sabe quando terá vaga na creche. Lembra das notícias de reintegração de posse. Não sabe se ainda terá onde morar. O trânsito não a incomoda. Mais tempo sozinha. O homem ao seu lado encosta em suas pernas. Ele se aproxima ainda mais. Ela grita. Os olhares não são de cumplicidade, são de julgamento. Desce um ponto antes e caminha triste. O coração salta numa mistura de raiva e impotência. Sabe que vai acontecer de novo. Chega 20 minutos depois do horário combinado. “Você está atrasada! Precisei eu mesma fazer o lanche do meu filho antes da escola!”. Abaixa a cabeça. Invisibilidade.

Cena 3 – Precisa do emprego. Está preparada, qualificada. Acorda cedo, faz sua oração à Nossa Senhora da Luz, lê mais sobre a empresa. Estudou nas melhores instituições, mesmo com todas as dificuldades e barreiras. Incontáveis anos de estudo. Incontáveis anos de dedicação. Coloca aquela roupa que a deixa mais elegante, que não marca seu corpo. Prende o cabelo. Prende sua identidade. E a confiança? Está ali, cara a cara para decidir seu futuro. Sente um olhar a penetrar. Atravessar. Rasgar. Corroer. “Você é um pouco diferente do que estamos precisando”. A pele queima de decepção. Preterimento.

Cena 4 – Dança livremente com sua saia comprida. Sente um olhar em sua direção. Retribui. Os olhares viram sorrisos, que viram risadas, que viram conversas, que viram cervejas. Das cervejas para os beijos basta mais uma dança. A noite passa feito vento. O relógio já marca 5 da manhã. Conversas em comum, amores em comum, medos em comum, até sonhos iguais. Um encontro estranho, mas forte. Por um momento acredita que ele não vai querer só sexo. Que vai querer conhecê-la. Que vai ser diferente. Mais risadas, mais conversas, mais beijos, mais proximidade. “Você é linda. Te ligo amanhã”. Já sabe que o amanhã não chega. Desprezo.

Cena 5 – Acabou de parir. Um parto doloroso, diferente do natural que tinha sonhado. Violento, com pessoas estranhas e brutas ao seu redor. Só se lembra de ter acordado sem o filho na barriga e sem o filho nos braços. Olha para a parede e com a vista embaçada não consegue ver as horas naquele relógio branco barulhento. Uma mistura de cheiros a enjoa. Uma mistura de sons a incomoda. A barriga dói e quando leva a mão até lá se vê cheia de pontos. Chora alto. Sabe que não vai ser menos mãe por isso, mas uma angústia a invade. “Não reclama, já trago seu filho”. Pelo menos ele está bem. Negligência.

Cena 6 – A festa está cheia. Ela vê as pessoas circulando com bebidas nas mãos. O visor do celular mostra 20h50. Ela chegou mais cedo que o combinado. Fica sozinha esperando, enquanto repara nas risadas alheias. Cabeças se voltam para trás em gargalhadas. Fotógrafos registram os movimentos. As luzes a fazem cerrar os olhos. Um homem derruba um copo ao seu lado. Ela abaixa para tentar ajudar. Ele mal olha em sua direção e fala o que tantas vezes ela já ouviu. “Você pode limpar aqui pra mim?”. Não se abala, já está acostumada. Servidão.

Cena 7 – Sai do salão de beleza animada. Se sentindo confiante pela primeira vez. Talvez nunca tenha ido a um lugar que sabia cuidar de seus cabelos dessa forma. Que diferença, se olhou no espelho e se achou linda! O andar na rua é firme. A textura dos fios é irresistível ao toque. Sorri. Está atrasada para encontrar as amigas. Ansiosa, é a primeira vez que assume seu cabelo sem química. Ajeita os cachos altos e vê do outro lado da rua as suas 4 amigas de infância daquele colégio particular do bairro. “Nossa, que cabelo cheio é esse?”. Não escuta as risadas. Vergonha.

Cena 8 – Seu cabelo carrega um lenço colorido. Contrasta com o jaleco branco. Quando era plantonista não podia usar. Mas nunca se esqueceu da touca cirúrgica de gatinhos da colega de faculdade. Está cansada, mas olha orgulhosa seu consultório. Os brinquedos. A imagem de Iemanjá. Os livros. O sonho de trabalhar com pediatria se tornou realidade. O telefone toca, é a secretária. Mais um paciente novo. Mais uma mãe nova. Respira fundo e se prepara. Dessa vez os olhares vêm acompanhados de palavras. “Onde está a doutora que vai nos atender?”. Sente que nunca vai estar em pé de igualdade. Desconfiança.

Cena 9 – Brinca no parquinho com a sua pequena. Como todas as manhãs, dedica aquelas horas livres para ela. Seus cabelos são enrolados em dreads. Na ponta de alguns deles há um penduricalho colorido. A cada descida do escorregador a filha corre para beijá-la. E a cada beijo brinca com as argolinhas colorida dos cabelos da mãe. A tranquilidade daquela cena só vai embora quando chegam outras mães. Repetem e reforçam o que ela escuta diariamente. “Você é a babá dessa criança linda?”. Um suspiro de cansaço é sua única reação. Rejeição.

Cena 10 – A subida do morro é difícil. As pernas queimam e os joelhos cansam, principalmente depois de um longo dia de trabalho. Já segue pensando se tem feijão suficiente para fazer o jantar. Tem que ter, o dinheiro que tira do bolso não dá para um novo pacote. Lembra da roupa suja dos 3 filhos e do marido. Também não vai conseguir comprar sabão. Mas é só hoje,  amanhã vai entrar um dinheirinho. Entra em casa e o marido grita que está com fome. “Demorou, onde estava?”. Não responde nada, sabe que não adianta. Cansaço.

Essas são cenas do dia a dia que poderiam ter acontecido com qualquer pessoa. São situações corriqueiras que as mulheres enfrentam nas mais diversas formas. Mas o cruel é ser protagonista de todas essas cenas, incontáveis vezes, todos os dias, durante toda a vida.

Olhe em volta. Veja as mulheres do seu convívio, as amigas, as conhecidas. Quantas mulheres negras você tem ao seu redor? O que elas estão fazendo? Em quais cargos elas estão? Elas estão bem, felizes? Que papéis na sua vida elas estão ocupando? Qual é o valor delas para a sociedade? Humilhação? Invisibilidade? Preterimento? Desprezo? Negligência? Servidão? Vergonha? Desconfiança? Rejeição? Cansaço? A resposta para essa realidade é dura, mas necessária: muita luta.

E você, qual valor dá para as mulheres negras?