Texto de Jéssica Ipólito e Larissa Santiago

 

Ler blogs. Uma coisa que nem todo mundo faz hoje né?

Muita coisa tem mudado nesse mundão velho, mas tem uma coisa que permanece a mesma: a nossa fascinação pela tecnologia.

Bem, mas nesse textão aqui nós vamos falar de tecnologia e também como anda a nossa relação com ela, o que mudou e tem mudado e ainda vai mudar #mãedinah

Pra gente não começar do nada, vamos fazer um miniflashback e ir pra 5 anos atrás, 2013. Nesse ano, muitas coisas aconteceram e se você digitar no google – ou no duckduckgo – “o que aconteceu em 2013” vai aparecer uma retrospectiva enorme que dá até medo: incêndio da boate kiss, acidente no estádio do Corinthians, chuvas matam no rio… muita coisa mesmo. Mas pensando no panorama político, que é o que nos interessa, a gente vai ver que estava tudo um turbilhão: era governo Dilma, o Rio experimentava a copa das confederações e junto com ela as greves dos professores no Estado, além de, é claro, nossa velha conhecida manifestação do Junho de 2013, também citada como Jornadas de Junho – tem até verbete no Wikipedia.

Em 2013 foi também quando o Pastor Marco Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados ao mesmo tempo em que era aprovada a PEC das Domésticas. Com tudo isso acontecendo ao mesmo tempo, no campo das tecnologias da informação e comunicação, o desbunde era geral! A venda de smartphones subia mais que a de celulares “comuns”, os vazamentos de vídeos de conteúdo sexual no zap por parte dos boys já rolava solto (com a polícia médio investigando) e o twitter tinha acabado de abrir seu capital na bolsa de valores de new york new york, faturando bilhões.

Já o nosso cenário não parecia nada alentador: a medida em que usávamos mais as tecnologias (aplicativos, redes sociais e blogs – as Blogueiras Negras e o Gorda & Sapatão bombaaavaaaam), nós também começávamos a ser mais ameaçadas, vigiadas e violentadas.

Foi justamente nesse contexto que se intensificou o que começamos a nomear como “Primaver Feminista”: uma série de manifestações on e offline que revelaram o poder das feministas de mobilizar e agir dentro e fora da internet. Protestos marcados em eventos nas redes sociais que levavam um mar de mulheres as ruas contra as ações, falas e medidas do então presidente da comissão de Direitos Humanos na Câmara, Pastor Marco Feliciano.

Lendo aqui o artigo das mana Natália Néris e Mariana Valente, do InternetLab, percebo que elas reforçam aquilo que a gente já sabia:

A disputa das feministas pela mídia e nos processos comunicacionais não é nova. Ao menos desde a segunda onda,2 o processo organizativo do movimento passa pela reflexão crítica sobre os meios de comunicação, bem como pelo desenvolvimento de mídias alternativas para fazer circular temas e vozes marginalizadas: no Brasil, desde a década de 1970 jornais como Brasil Mulher (1975-1979), Nós Mulheres (1976-1978) e Mulherio (1981-1987) cumpriram esse papel.3 A internet agregou a essas práticas que já se encontravam em curso, mas a partir de suas próprias estruturas físicas e lógicas, que permitem a comunicação de “todos com todos”, na melhor expressão da “autocomunicação em massa” de que fala Castells.4”

Simples assim:  internet no Brasil, essa jovem de 27 anos, tem impulsionado de forma mais visível nossos ativismos nos diversos campos, sendo as feministas um bom retrato disso.

Mas como nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça, junto com centenas de iniciativas incríveis (blogs como as Blogueiras Feministas, Transfeminismo, revistas como a Revista Geni, Think Olga, Capitolina, grupos como LuluzinhaCamp, Preta&Acadêmica, Elogie Uma Irmã Negra dentre outras) vieram também violências e tentativas de silenciamento das mais inimagináveis. Inclusive, muitas das grandes iniciativas dentro do site azul surgiram de violências praticadas dentro do mesmo ¬¬ Sim, quem não se lembra do caso da rapper Preta Rara no seu primeiro post sobre “eu empregada doméstica” onde muitas pessoas foram hostilizá-la e destilar seus comentários racistas? Foi por isso que ela criou a page “Eu, Empregada Doméstica” que claro, recebeu muito apoio, mensagens de carinho e suporte, muito mais do que os comentários racistas que também surgiram por ali.

Bom, essa é uma das experiências mais recentes, inclusive. E veja, a gente sabe que antes delas tiveram muitas! A nossa própria, como Gorda&Sapatão e Blogueiras Negras inúmeras vezes ameaçadas, hostilizadas, sofrendo ataques racistas que hoje, é hoje viu gente, passaram a chamar “discurso de ódio”. Foi lá em 2015 que a gente descobriu que o que todas nós sofríamos era violência online, essa que não pode nem deve ser minimizada porque acontece no ambiente virtual – muitos casos inclusive já mostraram que esse tipo específico de violência tem consequências muito “reais” [como se a internet não fosse real, enfim]. Descobrimos que existe um jeito também de agir tanto pra prevenir quanto pra denunciar.

Desde de 2015 temos conversado com parcerias incríveis como as mana da Universidade Livre Feminista, MariaLab, Cunhã e até agora o cordão só tá aumentando! Isso é bom, porque como a gente acredita que pensar autocuidado na rede é uma mudança de comportamento, quanto mais gente souber melhor. Ao mesmo tempo entendemos que essa busca por falar e saber mais do tema é sintoma de que a violência não cessou e está cada vez mais ameaçadora.

Uma pesquisa recente revelou que, mulheres negras somam o percentual de 81% de vítimas dos discursos racistas no Facebook, com idades entre 20 a 35 anos, as mulheres negras são constantemente atacadas. Para nós aqui, não é nenhuma novidade mulher negra no “topo” das estatísticas, pois tem sido assim em todas as pesquisas que analisam raça e gênero. Conforme vamos rompendo com as lógicas eurocêntricas, heterossexuais, patriarcais, mais violências temos sofrido por não permenecer nesse lugar de inferioridade. E aí é que tá o pulo do gato, porque a cada dia mais estamos organizadas e irmanadas numa coletiviade ancestral, e realmente não vamos abrir mão de nada.

Vocês nos devem até a alma

Para projetar mais alto nossos acúmulos nos campos da comunicação&tecnologia, produzimos em 2017, a GUIA de Estratégias e Táticas para a Segurança Digital Feminista, NE-CES-SÁ-RIA para todas nós resistirmos na internet. E esse ano já veio PESADÃO-DÃO, agora mais ainda com o lançamento do curso à distância ciberAna – Segurança digital e auto cuidado nas redes para Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transsexuais (LBT’s), que estão à frente de processos políticos em suas comunidades, coletivos, organizações. Estamos preocupadas com a forma de fazer política pelos grupos de whatsApp, pois ali criou-se um ambiente rico de informações mas “pobre” na qualidade das construções, uma vez que sempre somos interpeladas por um card (que vem do nada no meio da conversa), um vídeo de bom dia, um gif, além das exposições (com prints e compartilhamento de áudios) que sempre acontecem!

O ciberAnas foi pensado para dar o ponta-pé inicial nessa conversa, no sentido de falar abertamente sobre nossas relações com a internet e como a gente se sente diante de tanta insegurança, bem como o ciberAnas visa oferecer estratégias de resistência e proteção nesse espaço virtual tão elouquente.

Os espaços de tecnologia e comunicação geralmente são repletos de homens brancos, mas isso tem mudado, com a criação de várias iniciativas [como o OxenTI Menina, Minas Programam, PretaLab, Midia Étnica] feita por minas, de forma a ocupar lugares na tecnologia pautando uma contra-narrativa na elaboração das ferramentas digitais e na experiência do usuário. Logo, a importância de ser focado em LBTs é uma forma de garantir que essas minas possam conhecer e ter uma outra experiência nas redes sociais, bem como fazer um efeito cascata que vai lavando as outras com essas águas virtuais (Viva nós e as Águas!).

Imagens, artes e animações: Tati Vaz & Biatriizxx