Um dos maiores problemas da educação no Brasil atualmente é termos muita gente falando sobre ela sem ouvir quem, de fato, interessa, ou seja, estudantes e professores. São muitos “doutores em educação” formados por comentários de internet e por percepções inculcadas a partir de uma educação nos moldes do conservadorismo do período do governo militar.

Ora, acreditar que a mesma educação disciplinadora e castradora que serviu aos interesses de um governo autoritário é o modelo que deve ser adotado como ideal após mais de trinta anos de reabertura democrática é no mínimo ignorância histórica e política.

Uma escola inclusiva não é uma escola da manipulação ideológica, é uma escola que fortalece identidades e busca formar indivíduos que respeitem as diferenças. Esse respeito irá se estruturar a partir da percepção de que a busca por igualdade só se dará na prática quando todos entenderem que as particularidades de cada um não podem servir como agente de exclusão social.

Ou seja, apenas enxergando o outro como portador de saberes, práticas e vivências distintas das nossas é que iremos conseguir avançar na busca por uma sociedade mais igualitária. Dessa forma, falar de escola sem ideologia ou sem partido é algo sem sentido que só pode partir de um grupo de pessoas que se colocam fora das discussões que estão dentro do espaço escolar, discussões essas que fazem parte da dinâmica da escola mesmo não fazendo parte dos documentos didáticos e pedagógicos que regem a educação.

O que é perceptível nesses grupos é um debate que perpassa não a educação sexual das nossas crianças e adolescentes, mas sim uma concepção conservadora e leiga da forma como essa temática é abordada nas escolas. Há uma falta de respeito com professores e a toda uma gama de educadores que estão no chão da escola mediando conflitos de toda ordem.

É sempre bom lembrar que silenciar sobre determinados temas não vai fazer com que os problemas dele decorrentes desapareçam. Não será fazendo de conta que o racismo não existe que deixaremos de ver crianças negras sendo excluídas dos acontecimentos escolares, não será fingindo que não existem crianças e adolescentes gays que impediremos que esses indivíduos sejam agredidos de inúmeras formas dentro da escola, não será idealizando e reproduzindo padrões de comportamento para as meninas que não haverá lésbicas e bissexuais nas salas de aula.

Discutir identidade de gênero em sala de aula, não é impor uma ideologia, é identificar que as pessoas existem em suas singularidade e precisam ser respeitadas. É mostrar para aqueles que sofrem com toda a opressão e violência social que dentro dos muros da escola haverá pessoas que não estão ali para julgar ou condenar suas vivências e identidades.

Como ensinar nossos pequenos sobre a violência contra a mulher, sem falar de gênero? Como mediar um depoimento de aluno sobre a violência que sofreu dentro de casa, sem pontuar a realidade na qual todos estão inseridos? Como diagnosticar uma criança abusada dentro de outros espaços sociais e indicar ações de proteção se querem que esse não seja o papel da escola? Como acolher uma criança negra que teve seu sua estética transformada em motivo de chacota, se considerarmos que racismo não é assunto a ser abordado no espaço escolar? Que escola é esse que querem moldar?

Então se vamos falar de uma “ideologia de gênero”, termo cunhado de forma muito errônea a meu ver, precisamos descobrir a partir de qual pressuposto teórico estamos usando o conceito de ideologia. Afinal, a forma mais comum de se compreender o conceito de ideologia é como visão de mundo que todos os indivíduos possuem.

Não há como negar que nossa visão de mundo é moldada de acordo com os espaços e regras sociais que introjetamos desde pequenos. Porém, o que vigora em nossa sociedade é uma visão de mundo conservadora e violenta, que naturaliza a morte de pessoas negras, mulheres cis e trans e toda a população LGBTI.

Não é preciso sofrer muito para perceber que a visão de mundo que norteia a sociedade brasileira se pauta pelo machismo e a dominação masculina. Ou seja, uma ideologia de um grupo histórica e culturalmente dominante: homens, brancos, cristãos e héterossexuais.

Assim, ao falarmos de “ideologia de gênero” na escola, vamos dar nome certo ao que se impõem enquanto tipo ideal de educação: um modelo conservador onde deve prevalecer a lógica patriarcal, carregado de fundamentação moral religiosa. Ou seja, a imposição ideológica já está posta há muito tempo e o que ocorre hoje em dia é a resistência a permanência deste padrão.

Dessa forma, o que se propõe enquanto “renovação” nas didáticas e documentos de orientação pedagógica não tem nada de novo, é a permanência da violência e da exclusão. Então a discussão não é sobre uma imposição ideológica e sim a prevalência de uma visão de mundo sobre todas as outras e essa ideologia é dominante em todos os espaços da sociedade, inclusive na escola.

Não estamos debatendo uma nova configuração pedagógica, inclusive nem há debate, o que existe na prática é o pensamento dominante tentando permanecer como único possível e sem aceitar questionamentos.

Essa forma de olhar a escola só fará com ela seja cada vez menos atraente as novas dinâmicas da juventude brasileira. Se há conflitos inclusive familiares por conta de percepções distintas do mundo moderno, uma escola que não abarca as mudanças sociais e com ela as identidades moldadas a partir de uma nova configuração sócio-cultural, será excludente e reprodutora de inúmeras violências.

Esse modelo de escola nunca será inclusivo ou transformador, será apenas mais um espaço de segregação e imposição de regras. Propostas de mudanças que não dialogam com o principal público do espaço escolar, não tem a preocupação legítima com os ocupantes desse espaço, pois não considera autonomias e individualidades. É apenas uma imposição de cima para baixo visando esmagar potenciais discordâncias a um projeto de precarização e destruição da educação pública brasileira.

Olhar para esse modelo que desejam impor não é perguntar que tipo de escola queremos para nossos jovens, mas sim que tipo de indivíduos a sociedade brasileira quer que a escola forme. E que sociedade é essa que impõe regras de forma autoritária e quer o silenciamento de professores e alunos!

Imagem destacada: AP/Joel Martinez Apimages.