A história da minha identidade negra levou 60 anos para ser construída. Foram 60 anos de luta, criando 5 filhos negros em uma sociedade racista em que temos que sair casa diariamente preparados para enfrentar determinadas situações que exijam posicionamentos firmes de quem somos.

O negro sofre racismo diariamente desde o momento que sai às ruas, seja  no trabalho, nas escolas, nas lojas, nas baladas, nos coletivos e até dentro do seu próprio carro. Assim, sempre falava para os meus filhos evitarem andar sozinhos nas ruas principalmente em altas horas da noite.

Foram criados na periferia de São Paulo, em escolas públicas, em meio às drogas e à criminalidade. Filhos estes que são hoje excelentes profissionais nas carreiras que escolheram, pais presentes e maridos parceiros.

Filhos que me deram netos que tem orgulho de sua ancestralidade negra, mesmo com o gradiente de cor, sendo alguns negros de pele mais clara.

Eu, negra, mulher, mãe, avó, servidora pública estadual e graduada em Sociologia e Políticacom 59 anos. Divorciada há 24 anos, líder comunitária, baiana de escola de samba, ativista, umbandista, pesquisadora da cultura negra .

Sou várias mulheres em uma, tendo cada uma delas a sua história. Há momentos em que as histórias se cruzam, outros momentos em que uma se sobrepõe às outras e momentos em que algumas delas simplesmente deixaram de existir.

Casei aos 20 anos de idade e vivi 16 anos em um relacionamento abusivo, como ainda ocorre com muitas mulheres. Esta violência continuou acontecendo durante muito tempo após a separação.

Anos depois, quando ele já estava casado novamente, sofreu um grave acidente que o deixou com algumas sequelas e acamado por muitos meses. Foi então, após o acidente, que cessaram os episódios de violência psicológica e moral.

Passados mais alguns anos, a segunda esposa o abandonou e hoje ele mora perto da minha família e recebe os cuidados dos filhos e noras.

A mulher que sofreu aqueles vários tipos de violência doméstica não existe mais. Passou a se dedicar aos filhos, ao trabalho e à sua comunidade, auxiliando no que fosse possível, dando aulas de reforço escolar, distribuindo brinquedos no Natal e no dia das crianças, além de realizar também captação e doação de roupas, móveis e calçados novos e semi-novos.

A conscientização e identificação com a minha negritude chegou com quase cinquenta anos, quando fui fazer parte da Ala de Baianas daEscola de Samba Império de Casa Verde.

O conhecimento que adquiri com aquelas senhoras e as amizades que fiz mudaram a minha vida.

Depois de ter contato com senhoras que eram do candomblé, com a vestimenta de baiana, com os seus turbantes, colares e pano da costa, surgiu a vontade de conhecer um pouco mais sobre a ala e sua representação. Acredito que surgia a pesquisadora que sou hoje.

Sempre quis saber um pouco mais sobre o negro antes da escravidão, sobre a preservação de algumas culturas africanas e sua importância no cenário brasileiro. Até então, eu não possuía curso superior e os ensinamentos nas escolas estaduais deixam a desejar neste assunto. Aliás, a alienação permanece mesmo após o curso superior, na maioria dos casos.

Foi então que decidi fazer o curso de extensão na USP de História da África e do Negro no Brasil, por dois anos. A partir dos dois anos cursados, eu me descobri negra, além da pigmentação da minha pele! Como eu poderia me orgulhar da minha cor e da cultura negra se o que eu sabia unicamente é que eu descendia de escravos? Quem se orgulha deste tipo de descendência? E todo preconceito sofrido na escola, nos locais de trabalho, nos eventos? E a vergonha da exposição todo dia 13 de maio? Eu queria ser invisível nestas datas!

Aprendi nos meus estudos que meus ancestrais não eram escravos e sim um povo livre, bonito, inteligente, cujos filhos foram sequestrados e escravizados. Os orixás não eram demônios como nos faziam crer as religiões cristãs que nossos pais nos batizaram. Zumbi nunca foi escravo! Ele era livre e decidiu lutar pelo seu povo escravizado e sofrido! A África possui uma cultura tão rica e diversa, contada pelos mais de dois mil idiomas falados naquele continente!

O sistema de cotas tão falado e polemizado na mídia não é esmola, é reparação pelo tempo que o negro foi impedido de frequentar os bancos escolares, enquanto o branco ia crescendo intelectual e profissionalmente! Foram mais de trezentos anos!

Quanto conhecimento! O que de mais fantástico aprendi foi na aula sobre Irmandades, mais especificamente sobre a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, confraria fundada somente por mulheres negras do candomblé no século XIX, descendentes de escravos, em Cachoeira, BA, Brasil.

Este foi o Tema de Conclusão da minha faculdade de Sociologia, o estudo de sua origem e seu destino, sendo agraciada com a nota máxima.

Como cheguei à Cachoeira, como cheguei até as irmãs? Para minha surpresa, a mãe Nóia, na época, integrante da Ala de Baianas, me informou ser filha de Cachoeira! Seus familiares e amigos me ajudaram com o trabalho de campo!

Desde então, marco minhas férias no mês de agosto para participar das festividades em Cachoeira que ocorrem de 13 a 17, com pessoas não só  do Brasil como também do exterior!

Nas minhas pesquisas fiquei sabendo que Tia Ciata homenageada em cada baiana das escolas de samba foi uma das fundadoras da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte! Acaso? Não acredito em acasos…

Quantas mulheres negras, mães de família ou jovens não tem acesso a tantas informações a respeito da sua ancestralidade ou da cultura do povo negro!

Decidi ampliar meus conhecimentos indo para a faculdade, cursar Sociologia e Política, mais por minha atuação na comunidade, embora tivesse esperanças de que neste curso teria um aprofundamento sobre o curso que fiz na USP.

Paralelamente à graduação continuei minhas pesquisas em busca da minha identidade. Uma conscientização leva tempo de maturação porisso a importância da aplicação da Lei 10.639/03 que completou 15 anos em 2018.

Deve-se conhecer e valorizar as várias culturas presentes em nosso país; reconhecer as qualidades de cada cultura, repudiando todo tipo de discriminação seja ela de ordem religiosa, étnica, sexual, entre outras e valorizando um convívio pacífico e criativo entre os diferentes.

São necessárias algumas mudanças no cenário escolar para que se reverta esse perverso quadro de discriminação racial na escola.

É necessária uma formação continuada de professores, a retirada de material de conteúdo racista do acervo das escolas e a criação de um núcleo específico nas secretarias da educação a fim de trabalhar sobre o assunto.

Quem quiser aplicar a lei em sua Instituição de Ensino e não tiver material, tenho indicações de muito material.

Sempre houve muito receio de lidar com este tema publicamente e é por isso que muitos professores se mostram, hoje, incapazes de lidar com temáticas como o racismo em sala de aula. Contudo, práticas racistas existem diariamente nas escolas, pois, como instituição, é um termômetro de discriminação e de desigualdade.

Conscientes ou não, alunos, professores e funcionários se vêem em situações preconceituosas.

A entrada para a Ala de baianas foi um divisor de águas para o resgate da minha identidade negra.

Nestas lutas diárias, venci mais uma recentemente. Uma luta interna, que refletia no meu exterior, na minha aparência.  

Comecei a alisar meus cabelos com 12 anos! Há muitos anos deixei de alisar os cabelos, e adotei as trancinhas, trocando-as cada vez que as raízes cresciam. Algumas vezes substituía por cabelos sintéticos, encaracolados. Gostava, me sentia muito bem. A aceitação era geral! Por 30 anos!

algumas semanas, tirei as trancinhas e não as coloquei mais. Nada se compara à liberdade de sair nas ruas, ir a eventos e ao trabalho com meu cabelo natural, lindo e macio.

O melhor é que eu não me preocupei com a aceitação dos outros, com as manifestações racistas que virão, pois se não gostarem, o problema é deles e não meu. Demorou uma vida pra eu ter esta consciência. Antes tarde que nunca!

Eu estou feliz assim. Pode ser que eu volte com o kanekalon, pode ser que não, mas será por opção, não por vergonha dos meus cabelos naturais.

A sociedade nos ensinou desde pequena que o bonito é o cabelo liso, balançando e se movendo ao vento! Que cabelos crespos tinham que estar presos ou escondidos.

Ah, sociedade racista, quantas lutas impuseram às nossas meninas durante tantos anos…Quantas quedas de cabelo, quantas cabeças feridas devido ao alisante, ao hené, à chapinha, ao pente quente, às químicas…

Quando estava no curso que me abriu a mente para as questões raciais, um certo dia, a profa. Dilma de Melo e Silva, perguntou se entre os 120 alunos do curso tinha alguém que jamais havia pisado em um terreiro de candomblé. Somente eu e uma outra pessoa levantamos a mão.

A profa. Dilma nos orientou a conhecer um terreiro, a perguntar quando tivéssemos dúvidas, a pesquisar e conhecer, para defender em ocasiões de intolerância.

Até então eu era católica, mas frequentava o kardecismo. Fui conhecer as religiões de matriz africana, fui pesquisar, tirar da minha cabeça tudo o que eu já tinha ouvido falar a respeito para ter minhas próprias conclusões e opiniões.

Hoje, minha casa é de umbanda, e continuo a pesquisar o candomblé, religião pela qual me apaixono todos os dias e que me trouxe grandes amigos, que levarei para o resto da vida.

Atualmente faço parte do INTECAB, Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro Brasileira, cujas atividades faço questão de participar, colaborar e aprender.

Um grande abismo separa esta mulher negra de 60 anos daquela de 20 anos atrás. O conhecimento e a consciência política a transformaram…

O corpo da mulher negra é um corpo político, pois sua pele resiste, seus cabelos resistem, sua dança resiste, a religião dos seus ancestrais resiste e seu ventre que carrega corpos negros continuarão este caminho de resistência.

Sendo corpo político, preciso prestar atenção ao trato com ele, às atitudes deste corpo de 60 anos, que influenciará filhos, netos, bisnetos, toda uma geração, como a faculdade após os 50 anos, o ativismo, o posicionamento político, as ações sociais e o respeito às religiões de matriz africana.

Eu, mulher negra, sexagenária, resistirei sempre!

 

Imagem destacada: arquivo pessoal