O que eu fiz de errado?”, “O que eu fiz de errado?”. Análoga as conexões mentais de uma criança na hora que uma coisa dá errado e que a culpada provavelmente será ela, a minha imaginação estava inquieta na busca de algum “erro” que eu havia cometido nos últimos anos. Essa era a situação de terror racial decretada pela voz daquele policial negro na minha casa. Minha “auto-caça as bruxas” mental se apressava em responder a minha imaginação racializada: “Mas eu não fiz nada de errado, não fiz nada de errado, meu Deus...”

Eram 6hrs da manhã quando um policial alto, negro acompanhando  mais seis policiais bateram na porta da minha casa. Após inúmeras batidas violentas, acordei, enrolei um lençol no corpo e coloquei a cabeça na pequena janela do andar de cima de minha casa, quando ouvi aquele homem com uniforme de policial dizendo: “Aqui é o número 201?” Respondo de imediato e assustada: “Não, aqui é o 101.” Após ver apenas o meu rosto negro aquele policial não conseguia mais discernir, para usar de pleonasmo, que 201 não é o mesmo que 101. Ele olhou no mandato de prisão que estava em suas mãos, viu que a busca era por um homem que residia no número 201, mas ainda assim pediu pra eu descer, pois queria conversar comigo. Uso a ironia aqui para dizer que mesmo após confirmar no mandato de prisão que estava nas mãos daquele policial que meu endereço não conferia com o endereço da busca policial, ele pediu para conversar comigo. Desço e abro a porta, ali estão mais de seis policiais e a produção jornalística de várias emissoras nacionais. Um dos policiais estava apontando um revólver para o meu rosto e do outro lado haviam mais policiais, além de duas câmeras da imprensa nacional com os holofotes no meu rosto negro. Comecei a me tremer e perguntava o que estava acontecendo, um deles falou em voz alta e de modo impaciente: “Você mora com quem?” Respondo, nervosa: “Moro com minha filha.” E um deles torna a perguntar: “Qual é o número aqui mesmo?” Respondo: “Aqui é o 101.” Eles dizem, em tom desconfiado: “Aqui não é o 201?” Respondo: “Senhor, já disse que aqui é o 101. Pelo amor de Deus, o que tá acontecendo? Senhor, eu provo que aqui é o 101 e não é o 201, deixa eu pegar aqui a conta de luz da casa.” Um deles diz em tom de sarcasmo: “Se fosse bandido já tinha até chamado para entrar em casa.” Eu digo: “Senhor, respeite porque eu não tô desrespeitando.” O policial diz com ignorância: “A gente tá trabalhando.” Já em estado de nervosismo completo, exclamo: “Eu sei, mas já disse que aqui não é o 201.” Eles retrucam com raiva: “Pois então cadê sua identificação? Como é o seu nome? Precisamos de sua identificação.” Eu disse: “Meu nome é Preta (nome fictício), vou pegar meu documento.” Saio para pegar meu RG na bolsa. Enquanto busco minha identidade na bolsa em menos de segundos eles saem da minha porta, pois tinham sido avisados por um morador “branco” daquela rua que, realmente, ali não era o 201, mas o 101. Trata-se de uma operação policial com muitos “erros técnicos”, pra usar de sátira sobre como é dada a realidade do corpo negro e da violência policial no Brasil e não entrar aqui numa reflexão argumentativa extensa com dados estatísticos e discussões teóricas sobre a ideologia anti-negra do Estado brasileiro (NASCIMENTO,1978; SALES JUNIOR, 2009; VARGAS, 2010; ALVES, 2011). Mas me encontro com inquietações nesse instante em que acabo de re-experienciar o terror policial anti-negro, pois vivi muitos outros na infância e na adolescência quando residia na Rua Nelson Mandela na comunidade Pôr-do-sol no Ceará. Se o meu corpo fosse branco dizendo que o meu endereço não era o que eles buscavam, esses policiais insistiriam que estavam no endereço certo? Se o meu corpo fosse branco os policiais insistiriam em me assediar mesmo não sabendo a minha identificação? Se meu corpo fosse branco, esses policias duvidariam que eu estava falando a verdade? Se meu corpo fosse branco eles teriam apontado a arma para o meu rosto mesmo sem saber quem eu era? Quando os policiais decidiram pedir a minha identificação, já haviam me assediado moralmente e violentado em termos verbais no âmbito do racismo sexual. Não foi pelo o meu Registro Geral que os policiais decidiram sair da minha casa. Eles nem estavam interessados em ver meu RG, nem quiseram ver a minha “identidade nacional”. Minha identificação já havia sido dada da brecha da janela: a cor da minha pele, negra! Já a certeza que eu não era quem eles buscavam foi dada por uma “voz de um homem branco”, morador do bairro, dizendo que ali realmente não era o 201. Se convenceram, me desculpem a insistência na ironia, que ali não era o endereço procurado através de uma “voz branca” de um morador desconhecido, ao invés de averiguar o meu registro nacional. Minha identificação legal pouco importava, eu era negra. E é essa a identificação “mais segura” no Brasil para as operações policiais. A cor da pele negra, basta! Essa identificação epidérmica foi e é “suficientemente segura” para aqueles policiais terem a certeza quem é a “mulher do bandido” que eles buscavam e quem é o próprio “bandido”.  A identificação é localizada na superfície, na linha epidérmica do corpo. Sendo a diferença racial epidérmica o significante primário e o árbitro mais constante e contínuo das diferenças entre quem é humano e não-humano no Brasil, na África e em toda Diáspora Negra. Entre quem pode ser oprimido e morto e quem pode mandar matar e oprimir. A aparência racializada dos corpos que possuem uma pele escura numa operação policial “apaga” toda e qualquer outra identificação/diferenciação que possa compensar a fisionomia negróide. Apaga o status econômico, mas pode intensificar e multidimensionar a violência anti-negra quando há diferença de gênero. Se eu fosse um corpo branco de um homem eles teriam me atacado com racismo sexual, com a seguinte expressão “se fosse bandido já teria até chamado para entrar em casa?” Se eu fosse um corpo branco de uma mulher eles teriam me colocado em questão sobre a verdade do meu endereço, teriam negligenciado o procedimento de solicitar a identificação legal? Agora, se fosse um homem negro na minha situação, o que os policiais haviam feito? Eles teriam “primeiro matado”, depois “prendido” e então averiguariam no papel de mandato de prisão e percebido um pequeno “erro”: que o número do endereço do mandato era o nº 201 e não o nº 101? Mas achariam que é quase o mesmo número e que isso não dá em nada?”. Se fosse um homem negro residindo na favela o que esses policiais haviam feito? Teriam invadido a casa, matado e depois iriam ter a certeza pela “voz de um homem branco” que 201 é a mesma coisa de 101 quando esse corpo é negro????

Imagem destacada – Jus Brasil