Festival Latinidades, Brasília, 2014: Angela Davis era a mais esperada, mas eu não sabia que além de vê-la ao vivo, eu conheceria uma pá de mulheres negras incríveis. Uma delas cantaria naquele evento. Ela passeava por entre as dezenas de pretas, sempre com um sorriso no rosto e cumprimentando a maioria de nós, por um minuto eu pensei já a ter conhecido.

Mesmo ano, Seminário Nacional Mulher e Cultura, Salvador. Ela estava na mesma mesa de Charô Nunes, discutindo Cultura e Contemporaneidade. De maneira deslumbrante trouxe sua trajetória, fazendo reverência a sua mãe, a suas crianças, ao RAP e a Brasília, onde tudo começou. Saímos amigas-irmãs, comendo acarajé, trocando figurinhas e fazendo de Salvador nossa casa de reencontro.

Latinidades, 2016. No ano em que a comunicação foi destaque, presenciei ela grandona, comandando um sarau de microfone aberto, chamando todas nós num transe e louvação a nossa ancestralidade presente – aquilo foi inesquecível! E eu nunca mais fiquei imune as palavras e a sonoridade de Vera Veronika.

Ano passado, quando vi e ouvi Mojubá, tive ainda mais certeza da responsabilidade e do compromisso dessa Rapper conosco. Uma música que vem e volta pro terreiro, que chama e nos convoca dançar com o corpo inteiro. Mojubá.

2018 e são 25 anos. Uma mulher na cena Rap, representando e cantando a resistência de tantas outras mulheres negras na cultura Hip Hop – no grafite, no break, no beat, nos discos. Se éramos invisíveis, isso era há 25 anos. Vera Veronika e suas muitas garimparam e trilharam a caminhada pra nós. Esse ano, seu disco Afrolatinas marca esse aniversário. Celebrar as mulheres negras no Hip Hop, cantar nossa liberdade, lembrar dos tempos difíceis, reverenciar as que vieram primeiro e dar o recado para as mais novas: Vera Veronika falou com a gente e o resultado tá aqui, pra ficar na memória das Blogueiras Negras. Vida longa, irmã! Que o Rap pede passagem.

O que motivou você a começar a fazer rap? Como sua história começa?

Eu sou Vera Verônika, tenho 39 anos, sou a primeira mulher a cantar rap no Distrito Federal e no entorno. O começo foi bem difícil porque não tinha outras mulheres cantando. Ser a pioneira faz você desbravar os campos e as barreiras. Mas tinha muitos caras cantando que deram apoio. O primeiro rap que eu ouvi foi de um rapper de Brasília, Ex-câmbio Negro, e aquilo me motivou muito a pensar e agir e poder dizer o que eu, enquanto mulher jovem, passava na periferia. O rap veio num momento da minha juventude daquela indecisão – o que eu quero ser e fazer, e qual é a minha indignação com tudo que está acontecendo no momento. Eu não sabia o que eram políticas públicas, ser uma mulher negra, empoderamento. Mas sabia que tinha algo a dizer a outras mulheres porque eu não queria aquilo pra mim e nem pra elas. Eu comecei a cantar e escrever rap e ser DJ, tudo ao mesmo tempo. A gente formou um grupo chamado Missionárias – éramos eu, Débora e Márcia – e a gente contava histórias dos livros que a gente conhecia sobre o poder da mulher, as heroínas… E aí nasceu a nossa primeira letra, que foi “Heroínas de Geração”, um marco da minha carreira enquanto mulher no rap que eu canto até hoje. Nessa trajetória, vi que eu podia fazer mais. E o rap me levou para a educação, eu terminei o ensino fundamental e médio, fiz concurso de Pedagogia, me tornei normalista e o rap me levou e me leva até hoje a ser um veículo de comunicação. Eu sempre afirmo que o rap é a revolução através da palavra, e é isso que a gente faz, leva informação.

 Há 25 anos, qual era o cenário do rap nacional? Como e quais foram as suas dificuldades?

Principalmente para os jovens de periferia, o cenário era libertador, porque você tinha o estilo musical e de dança, uma liberdade de expressão que você nem sabia que existia e estava acontecendo no mundo inteiro. E aí o rap, para todo mundo naquela época, era libertador. As nossas maiores dificuldades eram acesso – não existia internet, a gente não tinha acesso a lojas, grana, a gente não trabalhava para poder ter acesso. Nós vivíamos muito da ajuda que as pessoas davam. Nossas bases, como não tinha grana para fazer a batida para cantar no rap, eu aprendi a editar fita. Pegar a fita, cortar a voz, colocar o durex, ouvir de novo, voltar, cortar, pra que a gente pudesse cantar. Íamos para as festas com um walkman e um cabo, a gente pagava pra entrar e ficava lá pedindo ao técnico de som para mostrar o nosso rap. E eles sempre falavam “não tem como, a gente não tem a aparelhagem”, e eu já estava lá com o walkman e tudo. Até que fiz curso de DJ, onde conheci o DJ Chocolate, que está comigo até hoje, e aperfeiçoei. Acabei não seguindo a carreira de DJ, mas o rap continuou. Outras dificuldades eram de acesso às músicas e revistas, que chegavam primeiro em São Paulo e depois vinham para Brasília. Quem comprava, emprestava. Tinha os veículos de comunicação aqui no DF, rádios, rádios piratas, Mix Mania… Era assim que a gente conseguia ter mais acesso a informação. Como mulher, no começo a gente não teve tantas dificuldades, principalmente na questão do machismo, não passamos por isso porque éramos só nós, era uma novidade, todo mundo queria chamar pra cantar e ver no palco. Era uma realidade bem diferente desse machismo que a gente vê hoje na cultura hip hop.

 Hoje, vemos a grande projeção das mulheres negras no rap. Ao que você atribui a mudança?

Eu acredito que foram várias mulheres, como Sharylaine, Edd Weller, Rúbia, Dina Di, Hieda Hills, Regina… Foram muitas mulheres que deram a cara a tapa e enfrentaram várias dificuldades para estar no cenário do rap nacional. Hoje a gente diz que essa mudança se dá através da visibilidade e do empoderamento, do poder que deram pra que outras mulheres seguissem essa trajetória. Mas infelizmente somos poucas, e essa invisibilidade da mulher no hip hop ainda é muito latente, e foi nessa perspectiva que eu quis gravar meu DVD comemorativo de 25 anos, para a gente sair dessa invisibilidade. No Distrito Federal, somos mais de 40 mulheres que cantam, fora as crews de bgirls, DJs, grafiteiras, mulheres da produção, dos slams, das poesias. Ou seja, somos muitas, mas somos mulheres negras dentro de uma cultura ainda invisibilizada, então acredito que essa grande projeção se dá no momento em que a gente rompe essas barreiras, mostra o nosso trabalho e dá a cara a tapa.

E as manas do passado? Elas estão na ativa? Se não, ao que você atribui esse apagamento?

Falando no Distrito Federal, que é a minha quebrada, muitas mulheres que começaram comigo ou depois de mim, não resistiram porque a maioria teve que escolher o caminho – trabalho, filhos, um relacionamento. Infelizmente, muitas vezes até um relacionamento abusivo, em que o cara conhece a menina no rap, no hip hop e depois de um certo tempo não deixa mais ela exercer essa atividade. Isso faz com que muitas dessas mulheres se apaguem. Mas a gente resiste. Sempre que encontro uma menina mais nova ou da minha época, ou depois de mim, sempre tento entender porque se deu essa desistência da cultura e do movimento. Geralmente elas não desistiram, foram as atribuições da vida e as correrias do dia-a-dia que fizeram muitas minas desistirem, não estarem na ativa no momento. Mas acredito que as mulheres do rap aqui do DF, de 10 ou 12 anos pra cá, a maioria tá na ativa, tem feito trabalhos muito bons, não só de cunho cultural, mas também social. A maioria delas está engajada, indo nos presídios, unidades de internação, fazendo roda de conversa e empoderamento feminino, da estética da mulher negra, do cabelo, do turbante. Então isso ainda faz com que a gente tenha forças. Eu digo a gente, das antigas, vendo que o trabalho está sendo propagado e que as mulheres estão seguindo. Mas infelizmente muitas manas que desistiram foi por essa correria da vida ou por relacionamentos abusivos.

Quais são as expectativas e planos pra Vera Veronika nessa comemoração de 25 anos?

Quando eu pensei esse projeto, um DVD de comemorativo, eu quis em englobar o máximo de mulheres e artistas possíveis, porque a visibilidade da mulher era o meu maior gargalo, a maior preocupação. Então o DVD foi todo produzido por mulheres, desde a filmagem, edição, direção, concepção, tudo. De uma equipe de 70 pessoas, 90% foram mulheres, então isso me faz ter mais gás, ver que estamos no caminho certo. Agora, lançamos o DVD no YouTube, já está lá para quem quiser assistir. Como são 25 anos, eu fiz 25 músicas. Tem um show com 14 músicas e mais 11 videoclipes, totalizando os meus 25 anos de carreira. No projeto inteiro participaram mais de 200 artistas, que em algum momento fizeram parte da minha trajetória enquanto cantora de rap. Agora estamos divulgando o DVD, fazendo shows e já comecei a rascunhar o meu livro, que vai contar esses 25 anos de história das mulheres do hip hop no DF – o que somos, o que fazemos, quando começou, quem parou e porque parou, dá todo esse feedback. O que estamos fazendo, o que as mulheres da cultura hip hop do Distrito Federal produziram. Os planos são muitos – cantar, estar nas periferias de todo o Brasil e de fora do país, mostrando que o rap é sim revolução através da palavra, que resgata, salva e é um caminho a seguir.

Dá o recado pras pretinhas que tão começando agora:

Pras minhas pretas, eu digo que os obstáculos sempre serão muitos, mas quando a gente tem uma meta a seguir, um desejo coletivo, sempre dá certo. Então o meu recado é lute, acredite, se profissionalize, conheça mais – porque o conhecimento é uma arma que ninguém tira da gente e a gente pode usar essa arma pra todos os lados. Ela não fere, ela traz amor, vida e revolução. Sigam em frente, na música, no teatro, na poesia, na cultura, porque ela é libertadora e faz com que a gente se reinvente a cada dia. Para as minhas pretinhas, só amor.

 

Motumbá, Vera Veronika! Que sua música ecoe e que a nova geração te veja e veja as anteriores pra saber nossa história, pra entender de onde viemos. E como não pode deixar de ser, escutem. Compartilhem, espalhem >>> http://bit.ly/AfrolatinasVeraVeronika