O texto a seguir foi publicado originalmente em diversos idiomas. Todas as traduções, assim como as opiniões aqui expressas, refletem apenas o posicionamento da autora e das páginas onde foram publicados.

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Uma jovem ativista feminista do Brasil descreve o ciclo coletivo de dor, luto e esperança que ela e suas/seus companheirxs enfrentaram durante os recentes acontecimentos políticos

Esperança juvenil e ativismo feminista

Houve um tempo em que nós, ativistas feministas do Brasil, realmente acreditávamos que nosso trabalho, ideias e ações eram suficientes. Presumimos que poderíamos mudar as realidades de todas as mulheres e jovens. Por algum tempo, entre 2004 e 2006, como jovem feminista, eu cultivei a incansável rotina de arrumar as malas e viajar para Brasília, capital do Brasil. Em Brasília, onde todos os órgãos do governo estavam estabelecidos, nos sentíamos em casa, se podemos assim dizer.

Lá, podíamos interagir com o governo, particularmente com o Partido dos Trabalhadores, que acreditávamos ser nosso aliado. Este mesmo governo nos convidou para sentarmos na mesma mesa e dialogarmos como iguais. Pareciam, na época, ouvir as nossas demandas e nos manter atualizadxs sobre as facilidades e complicações na execução de nossos projetos e propostas. Embora o racismo e outros problemas que duramente enfrentamos agora já existissem, havia uma agenda coletiva. Eu sempre voltava para casa com uma leve sensação de missão cumprida.

Alguns anos mais tarde, inesperadamente, eu assisti de longe quando minhas/meus companheirxs e amigxs próximxs foram atingidxs por balas de borracha, gás lacrimogêneo e um vasto e palpável sentimento de impotência.

Camila Galdino durante o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, Cidade do México - 2009. Foto: Fernanda Grigolin

Camila Galdino durante o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, Cidade do México – 2009. Foto: Fernanda Grigolin

Nossa esperança foi derramada ao lado do sangue de Marielle Franco nas ruas sombrias do Rio.

O novo Brasil

Primeiro, tiraram a Dilma Rousseff. Ela foi uma das poucas presidentes mulheres democraticamente eleitas no mundo e a destituíram da administração do país por meio de um golpe de Estado que colocou Michel Temer – vice-presidente filiado a um partido político conservador – no poder. Com essa manobra, também anularam uma vitória feminista.
Em seus primeiros dias no cargo, Temer mostrou que o novo Brasil é composto por homens brancos e que a mesma mesa que usávamos para conversar e tomar café com aquele governo parceiro, passaria a ser ocupada por fascistas e militares. Naquele momento, as coisas já começavam a parecer diferentes, estranhas e muito desconfortáveis, mas tentamos seguir em frente, acreditando que poderíamos reverter essa história.

E de repente, todx negrx, pobre, mulher, LGBT e ativista dos mais diversos movimentos sociais foi atigindx pelas quatro balas que mataram a vereadora Marielle Franco na rua Joaquim Palhares, no centro do Rio de Janeiro. Nossa esperança foi derramada ao lado do sangue de Marielle Franco nas ruas do Rio. Entendemos que o poder e as armas que eles carregam eram mais fortes e mais rápidas que nossas vozes, ideologias e nossa vontade de um Brasil justo e igualitário. Esses tiros foram também visceralmente sentidos por milhares de pessoas que participavam do Fórum Social Mundial que aconteceu este ano em Salvador, Brasil.
Enquanto estávamos em sessões, discutindo e planejando ações concretas para efetuar mudanças no mundo, esses quatro tiros nos atingiram sem aviso prévio, privando-nos da chance de nos defender.

Com essa notícia, o clima de esperança e ambição do Fórum Social Mundial se transformou em luto, dor e impotência. Ainda assim, tentamos reunir os recursos mentais e emocionais que nos restavam (e mesmo aqueles que não tínhamos) para persistir, multiplicar e nos tornar Marielles, Claudias, Luanas, Amarildos, e muitxs outrxs que foram atingidxs enquanto lutavam para sobreviver ao racismo, ao patriarcado, à violência do Estado e à exploração econômica.

Desde então, tenho tentado acreditar que essa série de acontecimentos é apenas um pesadelo; e que sim, um outro mundo é possível.

Vereadora Marielle Franco. Foto: usuárix do YouTube: 5 minutinhos de Alegria

Com vozes abaladas e sotaques variados, elas diziam: “não estamos sozinhxs!”

Eu me lembro do dia 14 de março como um dos dias mais intensos e tristes do ano.
O café que tomei aquela manhã estava mais amargo que o normal. Eu chorei quando ouvi a Dilma falando em uma das sessões plenárias no Fórum Social Mundial. Ela parecia tão próxima de mim que eu podia sentir a convicção em sua voz. Chorei quando me lembrei do sol escaldante onde escutei com um sorriso tímido no rosto enquanto minhas irmãs negras do Brasil e de outros países latino-americanos expressavam suas emoções, com vozes abaladas e sotaques variados. Elas diziam que não estamos sozinhxs e mostravam que minha vida, emoções e lutas eram as mesmas que as delas e várixs outrxs de nós.

Alguns dias depois, enquanto ainda lutávamos para superar o luto e curar as feridas, assistimos na televisão quando Lula da Silva, o ex-presidente que mudou a história do Brasil, foi preso arbitrariamente e sem provas suficientes.

Desde então, tenho tentado pensar que essa série de acontecimentos é apenas um pesadelo; e que sim, um outro mundo é possível; que a presidenta não sofreu um golpe de Estado; que uma vereadora negra, lésbica e feminista não foi brutalmente assassinada; que o presidente Lula não foi preso por motivos políticos; que o direito ao aborto está se aproximando; que a violência contra as mulheres vai diminuir; que os militares vão se retirar das favelas do Rio de Janeiro e parar de assassinar pessoas negras e pobres. Mas como disse Simone de Beauvoir: “é horrível assistir a agonia da esperança”.

Ainda assim, carrego em mim esse desejo incansável da jovem feminista que nos anos 2000 arrumava suas coisas e embarcava em jornadas mensais para elaborar diálogos em Brasília. Continuarei acreditando na nova geração que já entende que não podemos viver apenas de políticas públicas. Também acredito em minhas/meus companheirxs de diversos movimentos sociais. À medida que continuamos resistindo nas ruas e em nossas comunidades, continuaremos nos tornando mais fortes. Acredito especialmente na luta de minhas irmãs negras que permanecem determinadas em desenhar um novo futuro. E desejo de verdade que, um dia, voltaremos às ruas, imunes aos tiros, e desta vez, para celebrar uma vitória duramente conquistada.

A multidão da Assembleia das Democracias no estádio Pituaçu em Salvador – Bahia, durante o Fórum Social Mundial de 2018. Foto: Mídia Ninja.

Originalmente publicado em:
Link em Inglês: https://www.awid.org/news-and-analysis/first-they-took-dilma-feminist-struggle-brazil
Link em Francês: https://www.awid.org/fr/nouvelles-et-analyse/tout-dabord-ils-ont-pris-dilma-la-lutte-feministe-au-bresil
Link em Espanhol: https://www.awid.org/es/noticias-y-an%C3%A1lisis/primero-se-llevaron-dilma-la-lucha-feminista-en-brasil

Imagem destacada – Camila Galdino