A eleição é um período em que fica nítido o abismo de representatividade política que separa pessoas brancas de pessoas negras. Apesar de sermos mais da metade da população brasileira, compondo 55% da população apta a votar, este número não se reflete entre os candidatos e é ainda pior quando consideramos os eleitos.

Nas eleições de 2018, candidatos e candidatas negras para cargos eletivos são apenas 46,2% do total. Se considerarmos a corrida presidencial, a distorção é ainda maior: 73% dos candidatos a presidência e vice-presidência se autodeclaram como brancos. Na eleição anterior, que foi a primeira em que foi obrigatório a auto-declaração de raça, o número de deputados eleitos brancos ou brancas foi de 80% e de senadores foi de 81,5%.

Os números acima mostram que a população negra no Brasil é sub-representada nos espaços de poder públicos. Como consequência, vemos que, eleição após eleição, nossas pautas têm sido negligenciadas. É fruto de um passado escravocrata que perpetua o racismo e a concentração de poder político, econômico e ideológico nas mãos de um mesmo grupo: pessoas brancas, em especial, homens brancos. Podemos dizer que o Brasil apresenta um contrassenso: é uma minoria que é autorizada a resolver os problemas de uma maioria.

Além de o povo negro ser a maioria da população, somos também os que mais sofremos com políticas que atacam direitos que foram conquistados durante a história, por estarmos historicamente em maior situação de vulnerabilidade. A experiência do Golpe de 2016 – que retirou a Dilma Roussef da presidência da república para aprovar medidas impopulares, como a Reforma Trabalhista, a extinção da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a PEC 241, nos mostra que os mais atingidos em cortes de investimento público são as pessoas negras.

Se a população negra é aquela mais vulnerável, quando falamos de mulheres negras identificamos que somos aquelas que estamos mais desamparadas pelas políticas públicas. As mulheres negras são aquelas que mais morrem por femicídio. Também são aquelas que tem o mais alto índice de violência obstétrica e que mais engravidam em função do estupro, por não receberem o tratamento adequado nas horas que sucedem a violência. Além disso, as mulheres negras são o grupo que recebe os piores salários e ocupam os postos de trabalho mais precarizados no país. São dados que provam que é necessária uma política para compensar os prejuízos causados por uma escravidão de mais de 300 anos e que teve como consequência o racismo que extermina o povo negro ainda hoje no país.

A eleição para nós se coloca como uma grande contradição. Se por um lado, nós sabemos que as eleições por si só não são capazes de revolucionar as condições de vida do povo negro, por outro lado, sabemos que entre os projetos apresentados há aqueles que nem ao menos reconhecem a demanda das pessoas negras deste país. Entre os 13 candidatos e candidatas a presidência no pleito de 2018, 5 não se referem a nenhuma política pública para a população negra em seu plano de governo. Além disso, podemos identificar que há, em particular, um candidato que já expressou publicamente posições racistas, machistas e homofóbicas. É o mesmo candidato que tem defendido a venda e garimpo nas terras quilombolas, assim como o fim da demarcação das terras indígenas.

Ou seja, apesar da decepção com a forma como a política no Brasil se organiza, é necessário saber que não existe neutralidade quando o que está em jogo são as condições de vida de nosso povo. Não existe espaço vazio em política. O voto nulo ou branco não anula nenhuma eleição, apenas os votos válidos são considerados na contagem final, se a maioria dos eleitores votar nulo, todos esses votos serão descartados e ganhará o candidato com o maior número de votos válidos.

O que é mais central no momento é sabermos que o debate é sobre propostas políticas e não sobre pessoas. Quando escolhemos um candidato e/ou candidata escolhemos uma determinada proposta política. Neste sentido, devemos priorizar propostas que combatam radicalmente o racismo. Não é possível votar em candidatos que apoiem a intervenção militar no Rio de Janeiro. Assim como não é possível votar em candidatos que não se comprometam em revogar a Reforma Trabalhista que precarizou ainda mais o trabalho do Brasil.

Para nós, é muito mais que um debate sobre QUEM COMANDA e sim sobre PARA QUEM ESSA PESSOA COMANDA. Para a maior parte das pessoas que estão historicamente no poder, leia-se aqui homens brancos, manter os privilégios é crucial para que sejam mantidas as desigualdades. Para o povo negro, o caminho é justamente o inverso: devemos acabar com os privilégios pois eles são o pilar das desigualdades. Para tal, só há um caminho: conhecer as propostas que estão em jogo e decidir de forma racional quem tem mais condições de diminuir o abismo que separa negros e brancos no Brasil.

Para quem não tem todos em um lugar só, seguem abaixo os Planos de Governo dos Candidatos à Presidência, em ordem alfabética:

Alckmin:
https://t.co/G1vgEtXFGi

Bolsonaro:
https://t.co/Lgj1Oc6ds5

Boulos:
https://t.co/Smc40CduWK

Cabo Daciolo:
https://t.co/NGmJYRVzhU

Ciro Gomes:
https://t.co/rEE6bderRF

Haddad (Lula):
https://t.co/sGJ74f9Zet

Henrique Meireles
https://t.co/jX6oKwTrz6

João Amoêdo:
https://t.co/w0WtyUQupV

Marina Silva:
https://t.co/8ycr39S9ov

Vera Lúcia
https://goo.gl/x9LBn1

Só 3% dos eleitos em 2014 se declaram negros


http://www.ebc.com.br/noticias/eleicoes-2014/2014/10/congresso-nacional-brancos-sao-maioria-dos-candidatos-eleitos
https://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/19/opinion/1411153026_470187.html
https://noticias.r7.com/brasil/eleicoes-2016-8-em-cada-100-candidatos-sao-negros-02092016
https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/08/25/percentual-de-candidatos-negros-cresce-mas-segue-abaixo-da-proporcao-da-populacao.ghtml
https://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/elas-nao-cabem-na-201cdemocracia201d-brasileira

Imagem de destaque – RomaNews