Quem é negra com o cabelo crespo, sabe da dificuldade de se aceitar, isso era bem mais comum na época dos nossos pais, quando mulheres negras eram submetidas ao pente de ferro quente, química, horas no salão, ou em casa mesmo para “domar” os cabelos, mas sabemos que tudo isso é fruto do racismo enraizado, literalmente! Muitas vezes, o cabelo da mulher negra foi motivo de piada, por colegas de classe, do trabalho ou até mesmo na rua, mas uma coisa precisamos colocar de uma vez por todas na nossa cabeça: Solte seus cabelos, eles são parte de você, aceite-o siga feliz e empodere-se.

Cena em que a mãe de Violet alisa seus cabelos enquanto ela segura sua boneca branca. Imagem: Netflix.

Foi lançado recentemente na Netflix o filme “Felicidade por um fio”, que retrata de forma simples, um pouco superficial, porém muito importante para todas as mulheres que estão passando por transição capilar. Por isso, deixo abaixo algumas razões para quem ainda não assistiu, começar agora! Principalmente mulheres negras.

Violet Jones, a personagem principal foi criada por uma mãe que está reproduzindo o racismo que provavelmente sofreu por causa do cabelo, criou a filha num regime militar, basicamente. Tudo deveria ser perfeito na sua filha, para que a olhassem como uma mulher dentro dos padrões que a nossa sociedade racista prega: magra, cabelo liso, bom casamento, emprego de sucesso e aparentemente feliz. A boneca de Violet prova isso, uma Barbie loira com cabelos lisos, essa era a referência daquela menina que não podia chegar perto da água, pois estragaria o seu cabelo. Em um momento do filme, a personagem diz para sua mãe: “Você me ensinou a ser a mulher que os homens querem, mas não a mulher que eu quero ser”.

Acreditando que seria pedida em casamento, Violet Jones se encontra com suas amigas e infelizmente um acidente acontece, aliás esse é o maior medo de Violet na trama toda, com medo de ser vista com seus cabelos naturais, por causa de um episódio racista em sua infância, então ela corre para um salão e conhece uma garota, e é interessante que ela reproduz a mesma coisa que a mãe dela fazia, só que com a garota, que usa seus cabelos naturais. Deixando a entender que a garota era “desleixada” por deixar os cabelos do jeito que são.

Algumas coisas acontecem e as coisas infelizmente não serão do jeito que ela esperava, então, depois de uma decepção amorosa, a protagonista toma uma atitude em relação às suas madeixas, e é aí que a história da sua vida começa a mudar.

Momento em que a personagem raspa sua cabeça na trama. Imagem: Netflix.

Essa cena é importante pois mostra como Violet está cansada e quer dar um fim a tudo o que pesa pra ela ser feliz, então, bêbada e com o coração partido, raspa sua cabeça. A meu ver é como se ela tivesse se livrando não da figura do cabelo em si, mas do peso que ter de cuidar dele mais do que a própria vida, tomava toda sua energia e fazia com que ela fosse um personagem, uma mulher presa num padrão que ela odiou desde criança, mas que teve de viver porque isso era o certo para sua vida, ela foi ensinada assim. E infelizmente, é o que muitas mulheres negras de cabelo crespo vivem hoje ainda, infelizmente.

Violet após raspar a cabeça e começar a se aceitar. Imagem: Netflix.

A partir daí se aceitar não foi e nunca é uma tarefa fácil, como todas que raspam a cabeça, sua sexualidade é posta à prova, bem como sua saúde, assim como aconteceu com a personagem.

A mudança de cabelo fez essa mulher se ver como ela realmente é, a mudar sua cabeça em relação a outras mulheres, sobre o machismo e sobre toda pressão estética que era submetida, além de se libertar de um ambiente de trabalho machista, aliás, esse é um dos pontos colocados no filme e importante citar. Violet é criadora de propagandas, e em busca de inovar, por causa da sua nova forma, cria uma campanha para cervejas que eleva a mulher de outra forma que não seja sexual e não coloca o homem como protagonista, e como podemos imaginar, outra campanha apresentada, totalmente sexista e machista, é o escolhido. O emprego foi outra mudança, ou melhor, processo de empoderamento que essa mulher está passando em sua vida.

Outro ponto importante citar aqui é que mesmo se envolvendo com dois homens no meio da história, eles não foram peças-chave para Violet se aceitar, pelo contrário, foram apenas pessoas que passaram pela sua vida, mostrando assim que ela por si, era suficiente e por mais apaixonada que estivesse, se libertar de ser o que sempre queriam que ela fosse, foi importante e sim, esse não foi um filme daqueles que a gente imagina o mocinho com a mocinha no final, porque o filme foi SOBRE ELA, e isso foi uma das coisas que eu, particularmente adorei, o fato de não nos colocarem novamente à mercê de um homem para sermos felizes!

Além de todas essas maravilhosidades, o filme mostra que uma mulher que se aceita como é, tem autoestima suficiente para tomar decisões que é melhor pra si e não baseadas no que a nossa sociedade prega que seja o correto e muito menos, à mercê de um homem.

É difícil para mulheres negras, mas é um filme inspirador para você que quer aceitar seu cabelo, mas tem medo do resultado, como Violet diz na trama: “ouça, mulheres podem usar perucas, se quiserem. Podem alisar o cabelo, se quiserem. É uma escolha. E não há nada de errado nisso. Mas precisamos saber que o nosso cabelo natural é bonito.”