The Dark Side of Love

Como o racismo e o romantismo influenciam os relacionamentos afrocentrados

“Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura.”
– bell hooks

Quando pensamos a história, logo nos remetemos ao factual. Dentro desse campo científico, existem microhistórias, “espaço” intelectual destinado a casos isolados ou específicos que não são abordados pela História Geral. Nesse método, é acordado o entendimento de que a história se constrói por diversos fatores, para além dos puramente sociais, como o meio ambiente, os fatores climáticos, a alimentação e até os processos químicos, influenciadores indiretos – e diretos – dos acontecimentos que definem os fatos presentes nas narrativas históricas. Logo, é fundamental compreender também a afetividade e a sua porcentagem significativa na história.

O campo dos afetos transcende às situações, às culturas e às diversidades. E, nessa dissertação, o amor e o que se entende por isso serão o foco da análise. Aqui será entendido por amor a definição da própria bell hooks, que é o conjunto de “cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade e confiança”.

O Movimento Negro, na década de 90, dentre tantas questões, entende que o relacionamento entre duas pessoas negras, além de terapêutico, é político. Ao manter esse amor negro, afrocentrado, trava-se publicamente uma luta contra a solidão, contra o embranquecimento da sociedade e contra a desumanização de negras e negros.

“Reaja à violência racial* (II)
[…] Hoje não é
diferente. Você já
se perguntou por que
hoje eu sou caça e você
caçador? Mas, se a
esperança demora a
morrer, eu só quero crer
que um dia você
sabendo do que nos une,
pode (quem sabe?) hesitar
Não bater com tanta força
ou parar pra pensar…
Poderá se libertar das
migalhas do opressor
e travar junto comigo
a luta de vovô.
*beije sua preta em praça pública” – Ori (Reinaldo Santana)

Esse debate em que o afeto aparece como luta não está presente apenas na militância atual – que, inclusive, tem aparecido problematizando essa pauta -, ele aparece também nos questionamentos das gerações anteriores, haja vista o poema de Ori em 1991. Porém, atualmente, a ideia de relacionamentos afrocentrados vai para além da questão política, ela perpassa pela romantização da imagem de parceiros negros notada em diversas páginas de redes sociais que compartilham imagens de casais beirando a perfeição.

O que ocorre, em relacionamentos afrocentrados, é uma grande quebra de expectativa gerada pela romantização de uma imagem ideal em que o parceiro ou parceira compreende e lida com excelência os problemas um do outro, baseado na ideia de que, esse outro partilha das mesmas experiências, se torna capaz de curar milagrosamente. Além disso, pode-se levar em consideração também os processos históricos da população negra e a forma como isso influencia o campo dos afetos.

Afirmado por Angela Davis e bell hooks, o impacto da escravidão se faz presente até hoje entre casais afrocentrados. De acordo com a ex Pantera Negra, a configuração da “família afrodescendente” é matriarcal, formada por mulheres fortes que estão sempre se impondo, sendo a mãe o pilar principal da família. É pela figura materna que os filhos são mais apegados e isso não é biológico, mas uma construção social. Enquanto o pai é ausente na maior parte dos casos e, quando não, é distante dos filhos e se sente passível de substituição. No caso da análise de Angela Davis, a sociedade negra pós-escravidão perde seus homens para a exploração e prisões frequentes por um longo tempo. Todo esse esquema é reflexo da vida nas senzalas, onde famílias foram constantemente divididas e o laço que mais se fazia resistente era o de mãe e filho. Também podemos levar em consideração a auto estima desses homens negros, que, durante a escravidão, ficavam em segundo plano por não poder ajudar suas parceiras ou proteger seus filhos. Essa situação interfere na forma como esses homens se relacionam com o próximo (mesmo dentro de um contexto de resistência). Logo, temos a primeira questão: como se configuram os relacionamentos heterosexuais afrocentrados – de forma generalizada -.
E para bell hooks

Nossas dificuldades coletivas com a arte e o ato de amar começaram a partir do contexto escravocrata. Isso não deveria nos surpreender, já que nossos ancestrais testemunharam seus filhos sendo vendidos; seus amantes, companheiros, amigos apanhando
sem razão.

A teórica feminista entende que o povo negro possui culturalmente tendência a ficar na defensiva quando o assunto é amor, pois sobreviver sempre ficou em primeiro lugar. Como dar cuidado se não cuidam de mim? Como me comprometer se tudo pode desmoronar? Como ter conhecimento se não tenho tempo? Como ter responsabilidade? Como respeitar se passo o dia sendo desrespeitado? Como confiar se não me deram confiança? Como dar amor recebendo o oposto? Primeiramente, a responsabilidade em provar-se como alguém forte parte do princípio de que os sentimentos são fraqueza. Estamos errados. Segundo, a forma como o racismo está impregnado no cotidiano fomenta a decepção e a agressividade desses parceiros. Terceiro, em decorrência da morte pela linguagem ou o epistemicídio, estudado por Frantz Fanon, a forma de comunicação tornou-se gestual, fato facilmente comprovado ao observar a forma como crianças negras falam fisicamente entre si. Então, mesmo reconhecendo a importância do carinho, e das demonstrações “convencionais” de amor, a expressão afetiva (especialmente no contexto da negritude) se dá por quesitos práticos, como trançar o cabelo, manter-se em algum emprego, pagar a conta de luz e cozinhar (válidas para além das relações conjugais). Afinal, mesmo no terrível contexto da escravidão, no qual havia uma constante busca pela afirmação da desumanização de pessoas negras, os sentimentos continuavam existindo das formas mais variadas. Eles resistiram.

Por isso, muitas pessoas relatam seus “fracassos” ao entrar no relacionamento afrocentrado e deparar-se com o machismo e o elitismo, ou mesmo com a falta de companheirismo do parceiro ou parceira. Como pode-se observar, esse “fracasso” amoroso entre pessoas negras em diáspora vêm acontecendo pelas questões presentes em sua existência, assim como pela relação com a reprodução de uma estrutura de afetos gerada a partir dos anos de escravidão. Assim como as expectativas pautadas por uma realidade branca não representativa. Dessas vivências, surgem diversas análises entre blogueiros brasileiros relatando que “Relacionamento
Afrocentrado não é conto de fadas da Disney”.

O amor rima com dor, quando leva-se em consideração o impacto causado pela escravidão. Contudo, é necessário ir além. Kabengele Munanga frisa o impacto que o corpo negro possui e que “o riso negro estremece verdadeiramente o ser inteiro”. Ao analisar o riso do negro, ele afirma que este alivia os males, contagia o outro e traz benefícios para a saúde, assim como afasta a solidão. Rir junto também é afeto, pois causa impacto na solidariedade de um grupo.

Historicamente, o povo negro aprendeu a rir de si próprio aliando a dança e a música como ferramentas para tratar do mal da alma – a depressão – e encontrar forças para defender sua dignidade. Em seu texto, há a seguinte constatação: “Às vezes, rir é fingir que não está chorando. Mas por que ocultar o choro? […] É preciso considerar as duas [extremidades]”. E, ao considerar os dois lados da moeda, compreendemos o todo, pois entendemos como funcionava o amor para africanos e africanas em diáspora e como tem funcionado para os negros na América. O amor vem acompanhado pelo riso. E ambos têm poderes terapêuticos
importantes para um povo que teve sua humanidade negada por tanto tempo.

Bibliografía Utilizada:

Hooks, bell. Vivendo de amor.

DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo. 2016.

MUNANGA, Kabengele. Riso Negro e Identidade. Revista da ABPN. vol 7, n 16. Mar –
Jun 2015. P 03 – 11.

FANON, Frantz. Peles Negras Máscaras Brancas.

GONÇALVES, Juliana. Afetividade negra – por que beijar sua preta em praça
pública é um ato de resistência. Dísponivel em:
https://www.ceert.org.br/noticias/genero-mulher/3587/afetividade-negra-por-que-beijarsua-
Preta-em-praca-publica-e-um-ato-de-resistencia

GONÇALVES, Juliana. Corporeidade negra masculina e a crise do afeto.
Disponivel em: https://www.ceert.org.br/noticias/genero-mulher/3772/corporeidadenegra-
Masculina-e-a-crise-do-afeto

RIBEIRO, Stephanie. Relacionamento Afrocentrado não é conto de fadas da Disney.
Disponivel em: http://almapreta.com/o-quilombo/relacionamento-afrocentrado-nao-econto-
de-fadas-da-disney/

CÉSAR, Caio. Hiperssexualização e autoestima do homem negro. Disponível em:
https://falapretinho.wordpress.com/2016/03/10/hiperssexualizacao-e-autoestima-dohomem-
negro/

BERTH, Joice. Responsabilidade afetiva x Amor preto: as exclusões que se
repetem. Disponível em: https://medium.com/revista-subjetiva/responsabilidadeafetiva-
x-amor-preto-as-exclus%C3%B5es-que-se-repetem-1a653e599eb3

AZEVEDO, Dominique. “Nós negrXs precisamos nos pensar como corpos de afeto
também”. Disponível em:
http://correionago.com.br/portal/nos-negrxs-precisamos-nos-pensar-como-corpos-deafeto-
tambem/

Imagem de destaque: arquivo pessoal.