O chamado a construção coletiva regional surgiu quando entendemos com Elionice Sacramento, do Quilombo Conceição na Bahia, que nos disse que a revolução se faz a partir do território. Aprendi ouvindo Leo, naquela tarde de brisa leve (uma quinta-feira de Oxossi) que os passos de longe são também lentos e bem planejados.

O território, o lugar onde se habita precisa ser ocupado com presença mais do que com ideias, entendendo agora porque Carmen Silva nomeia de holograma pessoas das redes, das ideias. Ou porque as pessoas da cidade confundem presença com visita, quando há sete anos você habita o mesmo lugar, a mesma cidade.

O Nordeste mostrou nessas eleições, assim como nos últimos anos, como é a opinião dos negligenciados, dos excluídos. O grito dos exluídos! Aquele mesmo grito que Érica Malunguinho dá em cada abertura da casa-quilombo Aparelha Luzia fundada no coração do sudeste por uma pernambucana: Neeeeeeeeeegrrrrrrrrrrra!!!!

O grito do Nordeste sempre foi liberdade. Sim, a liberdade que aprendemos mais uma vez a pensar com Professora Ana Flávia Magalhães (agô de licença, irmã), como trajetória de liberdade seja ela negada, registrada ou vivida. A liberdade sempre foi nossa, e por isso, tomar a liberdade, como fez Luiza do Sítio Ágatha na nossa oficina “Ferramentas para manas” na Criptofesta do Recife, não tem nada de errado.

As mulheres negras do Nordeste sabem disso e tem no seu sangue e na sua trajetória de resistência e de luta, sem nenhuma hora isso ser da boca/tecla pra fora: No fim de semana de 9 a 11 de novembro – aconteceu o Encontro Mulheres Negras Movem o Nordeste: contra o racismo, a violência e pelo bem viver e sua abertura uma análise de conjuntura como nunca antes vista. Pela primeira vez, depois das emblemáticas eleições de 2018 onde o satanás foi eleito, as mulheres negras reunidas regionalmente bateram na mesa pra denunciar o que foi o processo eleitoral e lógico, o que foi a construção anterior de um governo dito progressista e democrático que continuou pensando a manutenção dos privilégios de alguns e negligenciou as demandas e necessidades de outros grupos.

Estamos falando aqui de diferentes projetos políticos, dentro de uma mesma perspectiva de esquerda: pense por exemplo, no programa de segurança pública para o poder e para o povo negro. Parece haver uma disparidade corporal, inclusive, que pensa e executa os planos, e que na prática mata objetiva e simbolicamente em nome de um projeto maior de economia e sociedade.

A gente tá cansada de dizer nas entrelinhas né? Quando foi que fomos consultadas para construir politicas públicas reais de valorização e manutenção de equidade racial e social sem duvidar das medidas dos governos ditos de esquerda? Porque em administrações do PT ainda precisamos chorar mortes de jovens negros comparadas a gols feitos por artilheiros? Se isso tudo não está errado, então não sei o que está.

América Negra, diria o Ilê Aiyê. E por sua narrativa musical, afirmamos: Nós sabemos nossa história. Não vamos mais fingir que os processos políticos nacionais não significam nossa exclusão. Poxa! A gente constroe a esquerda nesse país: ou você não viu o Maracatu Rural abrir alas pra receber Haddad no Recife? Ou Você cegou pra imagem de maioria da manifestação pró- esquerda na Bahia e na Paraíba. Chega né gente? A gente nunca se negou a contruir um projeto político que leve em consideração as necessidades do povo negro, das mulheres negras. Mas o contrário nunca foi verdadeiro: Quando no poder, a esquerda nunca se lembra dos acordos ou muito menos leva em consideração que seus acordos econômicos nos matarão num futuro próximo.

E Bozo tá aí pra não nos deixar mentir! Mais complexo do que qualquer pensamento, esse é o retrato da negligência e do abandono de um emaranhado de ações e consolidações polítcas complexas que tornou possível, num país diverso, uma polarização que define sem maioria o destino de uma nação negra, indígena e ancestral.

A análise de conjuntura organizada pelas mulheres negras nesse Encontro Regional foi historicamente importante. Oxossi prensente bateu na mesa e disse: precisamos ser francos e esclacecer entre nós os processos, as divergências e diferenças pra avançarmos nacionalmente.

Foi dolorido e lindo!

Abrimos os caminhos com a música ancestral de terreiro com Ana Benedita, arte educadora, bailarina e cantora do afoxé Oyá Tokolê. Linda, doce e serena.

Análise de conjuntura: uma mesa como nunca se viu

Piedade Marques, Pernambucana e anfitriã começou lembrando que não foi a maioria que elegeu o facista: são poucos os contrários a democracia, mas ainda assim, com essa vitória todo os demônios saem da caixa! E por isso precisamos estar preparadas, entendendo que as redes de solidariedade e irmandade são muito importantes.

Maria Inês Barbosa, paulista radicana na Bahia, iniciou saudando as que chegaram antes de nós na ancestralidade e no espaço: pessoas da limpeza, organizadoras, todas que fizeram o trabalho que, caso não tivesse sido feito não seria notado. Maria Inês introduziu seu pensamento dizendo que nós somos também sujeitas dessa conjuntura e justamente por isso podemos usá-la, manipula-lá. Ela nos trouxe os dados contraditórios das eleições: quantidade relevante de pessoas de axé que votaram no PSL, além da diferença racial dos que votaram em Haddad e dos que votaram em Bolsonaro. Maria Inês inteligentemente nos mostrou como a igreja e seu fundamentalismo religioso se transformou num clube, onde a linguagem do capital foi amplamente disseminada e aceita. Finalizou apresentando aquilo que já havíamos prestado atenção em outras falas, como as de Linn da Quebrada: nós somos ameaça para eles! Haiti e tantas revoluções históricas mostram isso e nossa resistência se torna pavorosamente possível para a branquitude. E como mensagem, Maria Inês nos incentivou a projetar: projetar para o bem viver a curto, médio e longo prazo.

Jadiele Berto, jovem liderança paraibana, abriu nossos olhos para o reconhecimento de um sistema político, social e econômico que é conduzido por um grupo dominante que pensa avanços e retorcessos e que nos exluci dos processos. Nos lembrou também do golpe e das eleições de 2018 que concluiu o plano excelentemente orquestrado e cumprido. “As estruturas não mudaram quando a esquerda estava no poder. Porque? Não tiveram tempo? Ou será que é porque essa mesma esquerda se beneficia do racismo?”Complementando sua fala indignada e certeira: “porque o genocídio do povo negro não é considerado crise civilizatória? porque os assassinatos do campo não são considerados crise civilizatória?” Perguntou Jade, que também não nos poupou a memória para reafirmar que o Nordeste alimenta, nutre e lidera processos neste país, mas que é sistematicamente sugado, traído e corrompido pela hegemonia de outras regiões do Brasil.

Eu mesma levei reflexões sobre o histórico do recrudescimento e repressão dos movimentos sociais no que se refere a leis de vigilância e anti terrorismo e do cenário político que começou nos governos Lula-Dilma, quando da aprovação das leis em 2015 (Lei Antiterrorismo). Falei também sobre a chegada dos eventos internacionais: Rio +20, Jogos Olímpicos, Pan Americano que possibilitaram o investimento em vigilância bem como a gentrificação e higienização das populações negra e indígena nas cidades-sedes. E que nesse contexto, todo um futuro caótico e mais ou menos previsível  foi ignorado por nós, que àquela altura comemorávamos o governo progressista e esquecíamos de criticar e avaliar possíveis incoerências. Ainda na sequência, compartilhei nossa crença na internet de olhos fechados, em que não olhamos para os modelos econômicos, sociais e psicológicos feitos pelos brancos para fundar uma internet a qual não desconhecemos. Enfatizei que nesse cenário, precisamos estar atentas ao debate de tecnologia, inovação e criatividade que envolvem as ferramentas digitais: onde estão as nossas jovens negras? Conhecemos Fernanda Monteiro? Roselma Mendes? Introduzi o tema de segurança e cuidados, nos colocando num lugar de repensar nossas práticas diante dos nossos computadores de bolso (celulares) e entendendo como funciona a internet. Por fim, reforcei que segurança é uma sensação e que precisamos mais do que um aplicativo pra nos sentirmos seguras: precisamos de educação e uma mudança (gradual!) de comportamento.

Valdecir Nascimento iniciou sua fala exaltando o quanto o Nordeste radicalizou, afirmando que nós temos muito pra ensinar ao Brasil, e nos colocou que a tarefa que está posta após esse cenário de eleições é uma tarefa para a nossa vida: nunca vai acabar. Numa análise muito minuciosa, Valdeci disse que nossos corpos estão em disputa, seja pela direita ou pela esquerda, mas que estão sendo disputados para a subalternidade, sempre! Ela também ressaltou que essa vitória é símbolo da perda da batalha ideológica, mas apenas da batalha. E com um discurso forte, com tanta energia vibrando na mesa, Valdeci nos deu uma lição interna como movimento, sacudiu as mulheres negras presentes e incitou comentários e perguntas um tanto quanto provocadoras.

A audiência interativa reagiu com intervenções artísticas (Salve Cris Nascimento e Flora!) e  muita inteligência nas colocações: falamos que a estrutura não está preparada para a nossa análise, o nosso olhar e justamente por isso eles elegeram um cara que ameaça a nossa existência, alguém que quer nos exterminar justamente por que somos capazes. E reagimos como Jadion: estamos prontas para a revolução! Disse ela – Do lugar de onde viemos e desde o que fizemos nos dá essa garantia. O desafio e a pauta é grande porque quase tudo nos foi tirado e é por isso que sabemos como e o que fazer.

Isso é mais que discurso, pretas. A ação das mulheres negras organizadas no Nordeste é prova de que as mulheres negras são a vanguarda da revolução – trazendo pra este texto a referência do documentário dos Panteras Negras – e não é só conversa mole esse tal de mover as estruturas, não, é porque o que tá na base, quando se sacode [tipo árvore] mexe com tudo que tá em cima, manja? Ou você esqueceu e não se ligou qAue quando a gente entra na universidade ou conquista um emprego melhor ou ainda tem acesso a casa própria, nossa família inteira entra numa mesma onda? A gente move a estrutura de uma sociedade estruturalmente racista e sexista. ESTRUTURA é a palavra, por isso a insistência em apontar o racismo como ESTRUTURAL porque se a gente conseguir eliminar o tal sistema, a gente elimina sujeitos e condutas racistas: é mudança radical! Na raíz!

E o tempo pede medidas radicais. É preciso despessoalizar o debate (e você vai ouvir/ler esse argumento mais de uma vez nesse blog), engulir o choro e apontar os racismos diários e constantes. Vai ser preciso desmascarar as atitudes racistas disfarçadas de bondade camufladas sob o manto da democracia racial e enfeitada com a esmola do estiga do negro cordial. CHEGAAAAAAAAAAAA.

Nós sabemos como foi Palmares, parcêra. FUDEU! A gente conhece Canudos, Revolta dos Malês, as Vedetas em Itaparica e toda a resistência no Recife oitocentista. ACABOU PRA VOCÊS. É chegado o tempo que não vai ser mais possível ser racista sem ser chamado de racista, né não Patrícia Naia? Estamos na época de gritar nas praças, nas redes, nas ruas que nossa dignidade e humanidade não vai ser enterrada mais em corpos de negras jovens, nem vamos admitir apagamentos sistêmicos e cinismos adjetivados de bondade e compaixão. Liberdade pra gente que é o oposto de subalternidade y o desejo de lutar por que de nós, tudo foi tirado, até o medo.

Medo, pra vocês. Do nosso levante, de um Haiti diante dos olhos, de uma revolução negra e feminista, de uma mudança lenta e vigorosa como nos ensinou Dandara, Acotirene, Luisa Mahin, Nzinga de Angola e Felipa do Pará. E tantas anônimas guerreiras brasileiras!

Por vocês, no espírito e na ancestralidade, com Oyá e Xangô, repetimos incansávelmente: Nós sabemos a nossa história.