Como a escrita afrofeminina na disputa do campo simbólicoprovoca um combate aos discursos elitistas sobre literatura

O ainda recente episódio da candidatura de Conceição Evaristo à cadeira na ABL e sua consequente negação, mesmo com o intenso apoio popular, diz muito pouco sobre a escrita literária da  mineira, mas diz bastante sobre a literatura brasileira, a validação de dado conceito de cultura e os discursos por trás dessas construções.

Historicamente, as mulheres buscaram – e permanecem buscando – modos para subverter o silenciamento da sua participação nas diversas esferas sociais (seja nas ciências, nas artes…). No que concerne à escrita literária realizada por mulheres negras, ou literatura afrofeminina, a consciência da intersecção do racismo e do sexismo (e da maneira como agem na coerção de suas vidas, obviamente) reverbera no texto, traçando um discurso de enfrentamento no campo literário.

Decerto que escrever, para a mulher negra, é adentrar um espaço de profunda desconfiança. Enquanto atitude política, constitui  um signo de rompimento com as representações hegemônicas que povoam o nosso imaginário, além de buscar restituir, à história, as vozes negras que foram negligenciadas.

Autoras como Conceição Evaristo, Alzira Rufino, GeniGuimarães, Esmeralda Ribeiro, Jarid Arraes, por exemplo, realizam uma escrita comprometida e de caráter político, que visa mudanças profundas na sociedade brasileiras. Ao construirem uma literatura que rejeita os papéis pré-determidados para a mulher negra, problematizam o lugar social desse sujeito e os constantes mecanismos de invisibilização da sua existência e da sua produção criativa.

Assim, as autoras negras criam textos que questionam e combatem os discursos elitistas sobre a literatura, além de darem uma boa “sacudida” em determinados conceitos, velhos conhecidos da crítica literária.

Entendemos que os discursos sobre literatura (o que é ou não literário, quem define, quais as características de um “bom texto”) também criam amarras para que essas mulheres consigam alçar o status de escritoras. Ainda hoje, por exemplo, há uma resistência, por parte de alguns estudiosos e críticos literário, em reconhecer a literatura escrita por Carolina Maria de Jesus, considerando sua vasta produção apenas um relato biográfico.

Assim também, os prêmios literários, as feiras de literatura, os grupos de pesquisa e extensão das universidades, configuradas como instâncias de legitimação da literatura, endossam discursos excludentes sobre os sujeitos da literatura. Um caso de bastante repercussão aconteceu na FLIP, em 2016. No ano em que homenageava a poeta Ana Cristina César, a organização da 14ª Feira Literária Internacional de Paraty sofreu duras críticas pela falta da escritoras negras na programação principal e, também, pela justificativa apresentada para a questão.

Seguramente, essa perspectiva decorre da lógica racista e sexista, responsável por negar a subjetividade da mulher negra e sua condição de intelectual. Esse contexto acaba por afastar muitas mulheres negras da atividade literária, construindo barreiras aparentemente impenetráveis, e reforçando o discurso de que aquele não é o seu lugar.

Há uma negação da intelectualidade da mulher negra e, consequentemente, uma dificuldade considerável em publicar, distribuir, acessar os grandes circuitos literários, chegar às principais livrarias, alçar reconhecimento por sua atividade e reconhecer-se enquanto escritora.

No entanto, graças à internet, à movimentação de grupos de mulheres negras, ao apoio de outras escritoras negras reconhecidas, à pequenas editoras e à coletivos literário esse cenário tem apresentado outras nuances.

Os livros Pretextos de mulheres negras, de 2013, antologia literária publicado peloColetivo Mjiba, e Olhos de Azeviche: dez escritoras negras que estão renovando a literatura brasileira, de 2017, da Editora Malê, por exemplo, são coletâneas que reúnem textos de diversas escritoras negras (22 vozes presentes no livro do coletivo e 10 nomes compondo a produção da editora carioca) com o intuito de dar vazão a essas produções poéticas que enfrentam a estrutura racista-sexista do contexto literário brasileiro e a dificuldade para publicar.

Na orelha do livro Olhos de Azeviche, a editora apresenta um das razões do projeto:

A coletânea Olhos de Azeviche traz dez escritoras que estão renovando a literatura brasileira, cuja escrita apresentamos neste verão de 2017, mobilizados por reduzir o abismo que ainda há entre quantidade e diversidade de escritoras negras brasileiras e os espaços de divulgação e circulação dos seus textos (LISBOA, Ana Paula et al, 2017).

A literatura afrofeminina insurge, tanto na escolha temática, quanto na sua textualidade, como material de combate aos discursos elitistas sobre a literatura. Enquanto o discurso hegemônico mantém os limites da concepção de objeto artístico em conceitos elitizados e distantes dos grupos sociais marginalizados, a escrita literária de mulheres negras subverte essa lógica de produção literária, criando um textualidade a partir da sua experiência enquanto mulher e negra no Brasil, considerando as nuances desse lugar de fala. O fato desse texto existir em si, enquanto materialidade textual, apresenta uma rasura no sistema estabelecido.

Aquilo que merece ou não status de literário está para além do que diz o cânone, quem (n)ele escreve e se inscreve. Há críticos literários e estudiosos que insistem em falar em termos como literariedade, valor, sem compreender que essas ferramentas são incapazes de dar a dimensão da escrita dos textos de diversas autoras negras, pois, são noções que fazem parte de uma concepção de literatura diferente daquela que é compartilhada por essas escritoras. Portanto, as ferramentas que esses textos vão nos exigir são outras.

Ao se colocar como aparato de disputa no campo simbólico, a escrita literária de mulheres negras revela demonstra mais um capítulo do nosso poder de resiliência.

REFERÊNCIAS

FAUSTINO, Carmen; SOUZA, Elizandra (Org.). Pretextos de mulheres negras. Ilustrações de Renata Felinto. São Paulo: Coletivo Mjiba, 2013.

LISBOA, Ana Paula. et al; AMARO, Vagner (org.). Olhos de Azeviche: dez escritoras negras que estão renovando a literatura brasileira – contos e crônicas. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

Imagem destacada: Ben Hill Church