Sou bailarina e mulher negra, hoje tenho 26 anos e comecei o Ballet Clássico aos 12 anos de idade, sim, na pré adolescência. Lembro de ter autonomia suficiente para sair de casa uma hora mais cedo e pegar dois ônibus até chegar na academia de dança. Consigo sentir a ansiedade da primeira aula e me recordo com felicidade do elogio da professora sobre o “físico bom” que eu tinha para modalidade. Óbvio eu era magra, realmente muito magra, e odiava meu corpo. Nessa época eu era adolescente e estava construindo a passos lentos o meu senso crítico para comentários alheios então ser elogiada por ser magra foi bom. Nesta academia eu aprendi tudo que sei hoje, as técnicas, as posturas o ritmo e o amor pela música e dança clássica. Tive uma professora muito boa como profissional e ser humano e ela era uma mulher branca. Na dança , em específico no Ballet Clássico, é muito difícil encontrar pessoas negras, professores então é quase utopia. Lembro de só ter eu de negra na sala de aula no começo, até porquê era bolsista. Depois me recordo de ter outras companheiras de turma, mas sempre poucas e sempre ou quase sempre bolsistas também. Quando tinha atividades para entregar sobre bailarinas famosas ou quando chegavam novos quadros na academia eu NUNCA me sentia representada e naquela época não me dava conta disso. Lembro dos penteados para as apresentações e do famoso “coque da bailarina” que tinha que estar bem preso e de preferência com a aparência de um cabelo liso. Imagine então o cenário desastroso, eu negra de cabelo crespo, tinha que me adequar ao grupo se não eu “não estaria de acordo”. Assim eu fazia, com toda ingenuidade possível. Alisava meu cabelo crespo e ficava horas arrumando o coque. Não tinha referência de bailarina negra. A compreensão sobre ter referencias no Ballet Clássico de mulheres e homens negros, hoje aos 26 anos de idade, me tocou profundamente. Teve muitos outros detalhes que recordei, passaria horas contando sobre essas feridas ainda em cicatrização. Ontem encontrei esse quadro no Pinterest e me veio uma inquietação enorme junto de uma peculiar emoção onde lembrei das minhas alunas. Sim, minhas alunas! Olha que fantástico, virei referência e me apropriei disso ! Não fiquei “famosa” e também nunca fui protagonista de espetáculos famosos e não trabalho em uma “academia top”. Eu sou REFERÊNCIA para minhas alunas negras em um projeto social ! Elas podem sonhar para além, podem ser oque quiserem ser, podem ter referência e encontrar novas possibilidades. Acredito na arte como forma de empoderamento, como ato de apropriação do corpo e compreensão do mesmo. Sendo assim, ter referência na arte através do movimento corporal auxilia na identificação e resignificação do corpo negro na sociedade . Vivenciar com minhas alunas negras e brancas ( por que não ?) as desconstruções de fenótipos corporais racistas e preconceituosos é praticar o real sentido da arte, que é dialogar com o momento histórico vigente, construindo uma nova perspectiva para o futuro e isso é reconfortante e ajuda no meu próprio processo de cicatrização.

Imagem:Ingrid Silva, bailarina solista do Dance Theatre of Harlem, de Nova York, Glamour