Blogueiras Negras: escritas escreviventes

Esse texto é parte da minha pesquisa de iniciação científica em Literatura, orientada pela maravilhosíssima professora Nicia Zucolo, onde fiz a relação entre a escrita literária da Carolina de Jesus em Diário de Bitita com escritoras negras que publicam na internet, com foco no Blogueiras Negras. Além de contextualizar sobre o que é o B.N no âmbito da pesquisa em questão, enfatizo nesse capítulo a importância do Blogueiras Negras na visibilidade de escritas de autoria negra e na propagação da luta coletiva.

Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.
Carolina Maria de Jesus, em Quarto de despejo.

Antes de publicar seu primeiro livro Carolina de Jesus já era escritora. Escrevia poemas, peças teatrais, músicas, e antes da primeira publicação em editora já havia publicado em jornal, mas a sua maior ambição era ser lida e publicada em editora, ser reconhecida como a escritora que foi.

Hoje, escritoras negras ainda enfrentam dificuldades para publicar e terem as suas produções literárias valorizadas. A escritora profª Drª em Literatura Conceição Evaristo (2017), em entrevista à TV Revista Cult, comenta sobre a dificuldade de mulheres negras para publicarem, e afirma que “pra nós mulheres negras escrever e publicar é um ato político” (EVARISTO, 2017). Em entrevista à Carta Capital, Conceição explica a motivação dessa escassez:

Um crítico literário pode dar visibilidade ao seu texto ao mesmo tempo que pode acabar com você como fizeram muitas vezes com Carolina Maria de Jesus e continua se repetindo. O sistema literário está nas mãos das pessoas brancas. Por isso a importância das editoras que dão espaço para a autoria negra (EVARISTO, 2017).

São poucas as iniciativas que visam contribuir para a inserção da produção literária de autoria negra no mercado editorial. Vale destacar o espaço que a Editora Malê proporciona para a publicação de livros de autores negros, e a coleção Feminismos Plurais da editora Letramento, organizada pela filósofa Djamila Ribeiro, é uma coletânea de livros escritos por escritores negros.

Carolina de Jesus foi uma das primeiras escritoras advinda da periferia a publicar um livro. A pesquisadora Fernanda Miranda, dissertou sobre a produção literária de Carolina na tese de mestrado Os caminhos literários de Carolina Maria de Jesus: experiência marginal e construção estética (2013), ela afirma em entrevista ao site Aventuras na História que a escritora foi pioneira do estilo de escrita que coloca a periferia no centro da narrativa a partir de uma perspectiva de dentro e não de fora: “Ela é precursora da Literatura Periférica” (MIRANDA, 2018). No artigo A árvore Carolina Maria de Jesus: uma literatura vista de longe, Gilmar Penteado (2016) desenvolve uma discussão sobre escritores que são da periferia e escrevem acerca do meio em que vivem, e defende que esses são ramificações que se iniciaram em Carolina. Muitas escritoras negras fazem parte desse grupo, uma vez que não contam com o apoio das grandes editoras, e um dos motivos se dá por serem negligenciadas pela crítica literária, conforme afirmou Conceição Evaristo.

Na atualidade, a internet tem sido uma ferramenta eficaz para visibilizar essas escritoras, e uma alternativa diferenciada de publicação. Um dos veículos digitais que tem dado notoriedade à produção literária de mulheres negras é o blog Blogueiras Negras. No texto Carolina Maria de Jesus, a escrita como adaga, uma das coordenadoras do site, Larissa Santiago, reconhece em Carolina de Jesus a inspiração para a escrita e existência do blog:

Escrevi querendo escrever como ela. […]. Não conseguirei, óbvio, mas em poucas palavras deixo a minha profunda devoção e admiração por essa literatura fina, que inspirou e inspira este blog. Que é espelho pra muitas autoras deste site, que é uma das matronas das Blogueiras Negras (SANTIAGO, 2017).

No texto, Larissa escreve ainda sobre a deslegitimação da academia perante Carolina, que, apesar de hoje ter mais reconhecimento, ainda não é reconhecida unanimemente como literatura:

A academia não está preparada para Carolina, assim como não está preparada para as nossas epistemologias, nossos novos jeitos de pensar, escrever, produzir. A velha academia assim como seus velhos homens brancos não estão a altura das nossas mulheres, das nossas experiências e escrevivências [Salve Conceição!] (SANTIAGO, 2017).

A professora da UNB Regina Dalcastagnè desenvolveu uma pesquisa sobre o perfil/cor de quem publica e dos personagens de obras da literatura brasileira. Sua pesquisa é delimitada entre 1990 e 2004 e as obras analisadas são das editoras: Record, Companhia das Letras e Rocco. A pesquisadora resume o quadro da população negra como autores e personagens: “Se negros e pobres apareciam pouco como personagens, como produtores literários eles são quase inexistentes” (DALCASTAGNÈ, 2005, p. 15).

Num país com 54% da população negra autodeclarada, segundo o IBGE, a escassa publicação de autores negros e representação de pessoas negras na literatura é sintomática do racismo brasileiro, que se articula de maneira institucional, estrutural, cultural, política e econômica, limitando possibilidades de atuação artística de pessoas negras.
Escritoras negras encontraram espaço em blogs como o Blogueiras Negras uma maneira de falarem por si mesmas, escreverem suas próprias histórias e serem autoras da sua própria narrativa, produzindo um contra-discurso aos que invisibilizam a existência e contribuição de pessoas negras no Brasil e as estereotipa também.

No artigo Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (2009), Conceição Evaristo desenvolve um estudo sobre a literatura de autoria negra e afirma que esses escritores produzem uma contra-narrativa à literatura canônica:

Afirmando um contra-discurso à literatura produzida pela cultura hegemônica, os textos afro-brasileiros surgem pautados pela vivência de sujeitos negros/as na sociedade brasileira e trazendo experiências diversificadas, desde o conteúdo até os modos de utilização da língua. Por exemplo, enquanto o livro A cor da ternura (1989), de Geni Guimarães, pode ser lido como uma espécie de autobiografa ficcionalizada da autora, o livro Caroço de dendê (1996) de autoria de Beatriz Moreira da Costa, Mãe Beata de Iemanjá, traz vivências de terreiro que se transformam em temática narrativa para a autora (EVARISTO, 2009, p. 27).

Além de invisibilizar escritores e apagar personagens negros, a literatura brasileira contribuiu muito para a perpetuação de estereótipos racistas sobre pessoas negras, pois a população negra foi inexistente durante muito tempo na nossa literatura, e isso se reflete na sociedade atual. A tradição de invisibilizar escritoras negras vem desde Maria Firmina dos Reis – a primeira romancista negra do Brasil – e o Blogueiras Negras tem o objetivo de romper com essa regra imposta produzindo discursos positivos sobre a população negra.

Escritoras premiadas como Conceição Evaristo são a exceção, e justamente por ela ser uma das poucas mulheres negras a ter reconhecimento por sua produção literária, se faz necessária a busca de mecanismos para romper esse ciclo de exceções. O Blogueiras Negras é uma das ferramentas tecnológicas apropriadas por escritoras negras para que nenhuma “Maria Firmina dos Reis” seja invisibilizada, e que as “Carolinas” não sejam mais esquecidas, estereotipadas e silenciadas.
Por tudo isso, máximo respeito às criadoras, administradoras, a todas as mulheres que constroem o Blogueiras Negras. Por fazerem nossas vozes ecoarem, somarem e multiplicarem na luta antirracista! Vocês fazem parte da minha construção como mulher negra ativista e de muitas mulheres negras também.

Evoé, Blogueiras Negras!

Referências
DALCASTAGNÈ. Regina. A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004. In: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n.º 26. Brasília, julho-dezembro de 2005, pp. 13-71.

EVARISTO, Conceição. Conceição Evaristo: “Nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”, 2017. Disponível em: . Acesso: 30/02/2018.

___________________. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. In: SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 13, n. 25, p. 17-31, 2º sem. 2009

___________________. TV CULT entrevista Conceição Evaristo, TV Revista CULT, duração de 8 minutos e 51 segundos, 2017. Disponível em: . Acesso: 30/07/2018.

MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. O best seller da favela, 2018. Disponível em: . Acesso: 30/07/2018.

PENTEADO, Gilmar. A árvore Carolina Maria de Jesus: uma literatura vista de longe. In: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília. N. 49, pp.19-32, set./dez., 2016.

SANTIAGO, Larissa. Carolina Maria de Jesus, a escrita como adaga, 2017. Disponível em: . Acesso: 30/07/2018.

Imagem destacada: Carolina Maria de Jesus, em São Paulo, 1961, Cult.