A primeira vez que tive contato com textos literários escritos por mulheres negras foi em um curso de extensão sobre literaturas africanas de Língua Portuguesa que fiz 3 anos após concluir minha graduação em Letras Português/Inglês na PUC-SP, uma universidade de renome. Passei toda a etapa escolar, inclusive a universitária, sem conhecer sequer uma autora negra de teoria ou ficção.

Como a ausência dessas autoras sempre foi comum para mim, nunca havia me questionado a esse respeito. Acho que fui ensinada a acreditar que mulheres negras não escreviam, portanto nunca havia questionado o porquê de sua invisibilidade nos espaços escolares e acadêmicos. Na escola básica estudamos os autores que fazem parte do cânone literário, ou seja, homens brancos, em sua grande maioria, e algumas mulheres brancas. Os poucos negros que estudamos, como Machado de Assis e Lima Barreto, são embranquecidos ou apresentados como escritores marginais.

Infelizmente essa invisibilidade acaba mesmo na atualidade sendo justificada por um discurso que apregoa a meritocracia, que faz com que a justificativa seja: pessoas negras não escrevem porque não querem, porque não têm interesse, porque não se dedicaram o suficiente e assim por diante. Sua ausência ou sub-representação em editoras e livros didáticos durante muito tempo não foi questionada e tornou-se natural.

Até hoje, mesmo com a lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nos estabelecimentos escolares, escritores e escritoras negras seguem sub-representados em manuais escolares e em eventos literários em geral. É importante lembrar que a Festa Literária de Paraty (FLIP) do ano passado homenageou Lima Barreto e convidou escritoras negras devido à grande polêmica da edição anterior, em que não havia autores e autoras negros.

 Sendo assim, é importante questionar, como disse Conceição Evaristo, as regras que fazem com que escritoras e escritores negros sejam reconhecidos pelo mercado editorial e pela sociedade apenas tardiamente, como foi o caso dela. Conceição é autora de romances, contos, poemas e ensaios teóricos sobre literatura. As personagens principais de suas obras são mulheres negras tratadas não como objetos ou corpos exóticos, mas como pessoas fortes que lidam com dramas cotidianos e que têm a vida atravessada por opressões do machismo e do racismo, por exemplo.

A primeira obra que li de Conceição foi “Ponciá Vicêncio”, lembro que chorei muito durante a leitura, foi uma obra muito impactante, a angústia de Ponciá por encontrar suas raízes tomou conta de mim. É um livro do qual me lembro com muito carinho. Em seguida li os contos de “Olhos d´água”, e alguns foram tão difíceis de ler pela dor de que eram acompanhadas as personagens, dores da violência, do abandono, da fome etc., que não consegui ler todos até o fim. Lendo “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” encontrei mulheres negras fortes, que souberam reagir ao preconceito, ao medo, que renasceram. Já em “Becos da Memória” ri, chorei com a personagem principal, e me lembrei muito de Carolina Maria de Jesus, porque é uma história que conta o processo de desfavelamento e as vidas dos moradores que precisam forçosamente deixar esse lugar com o qual criaram um laço de afeto.

Falando de Carolina, lendo “Quarto de despejo” fiquei fascinada com a lucidez dessa escritora, que fazia uma reflexão tão profunda sobre a sociedade, sobre as regras aparentemente invisíveis que fazem com que a população negra seja marginalizada pelo poder público. Me emocionei com ela e com sua coragem de levantar todos os dias para lutar pela sua sobrevivência e de seus filhos e admirei aquela mulher que namorava, mas não aceitava homem dando ordem em sua casa. Depois li “Diário de Bitita” e chorei, mas também gargalhei, porque ela conta umas histórias muito engraçadas, parecia que ela estava falando comigo, e quando terminei o livro senti falta de “escutar” a voz dela.

Pesquisando a história de Carolina, cheguei até a Jarid Arraes, uma autora maravilhosa que escreveu um livro contando em cordel a história de mulheres negras importantes para nossa história como Dandara, Maria Firmino dos Reis, Tereza de Benguela, Laudelina de Campos, Luiza Mahin, e tantas outras das quais nunca havia ouvido falar.

Falando sobre Luiza Mahin, uma ex-escrava abolicionista e mãe do grande poeta e advogado Luiz Gama, ela eu conheci lendo “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, um romance que conta a história da chegada de Kehinde direto do reino de Daomé e sua vida em terras brasileiras.

Lendo Cadernos Negros, do Quilombhoje, descobri a autora que atualmente pesquiso no mestrado em literatura, Cristiane Sobral. Quando li o poema que dá nome ao livro “Não vou mais lavar os pratos” fiquei intrigada e quis entender qual poética ela estava tentando desenvolver, usando símbolos aparentemente comuns, mas que estão totalmente relacionados ao machismo e racismo tão presentes na vida da mulher negra.

Frequentando saraus como o da Cooperifa conheci escritoras como Jenyffer Nascimento, Elizandra de Sousa, Débora Garcia, mulheres negras que falam sobre amor, mas também sobre a beleza da mulher negra, ancestralidade, violência contra a mulher, impactos do racismo, violência policial. São escritoras que apresento aos meus alunos e com as quais eles rapidamente se identificam.

Pesquisando sobre o genocídio da juventude negra, encontrei Lívia Natália, uma poeta e professora universitária, e seu poema “Quadrilha”, que chegou a ser censurado pelo governo da Bahia, me chamou atenção. Ela diz: Maria não amava João/ Apenas idolatrava seus pés escuros/ Quando João morreu, / Assassinado pela PM, / Maria guardou todos os sapatos./.

Nessas buscas para entender sobre o feminismo encontrei tantas referências nacionais que eu desconhecia: Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro e escritoras da nova geração que são inspiradas por ela. Nessas buscas me encontrei, encontrei minha história, achei minhas raízes, por isso afirmo que ler mulheres negras é uma experiência revolucionária. Essas narrativas falam sobre nós, sobre nossa história, sobre que somos e quem podemos ser. Nossos passos vêm de longe!!!

Referências

Correntezas e Outros estudos Marinhos (Editora Ogum’s Toques Negros)

Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus

Diário de Bitita – Carolina Maria de Jesus

Becos da Memória – Conceição Evaristo

Insubmissas Lágrimas de Mulheres – Conceição Evaristo

Olhos D´água – Conceição Evaristo

Terra Fértil – Jenyffer Nascimento

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

Punga – Elizandra

Coroações – Débora Nascimento

Cadernos Negros – Edição 40

Escritos de uma vida – Sueli Carneiro

Raça e Racismo na Cultura Brasileira – Lélia Gonzalez