Pensando sobre a existência de feminismos e, também, sobre a origem branca e burguesa do termo. É notório o caráter racial de dominação do feminismo branco em querer se colocar como representante-mor de todos os feminismos e da unificação discursiva desse movimento a partir da lógica brancocentrica. Parece ser exagero o que eu estou expressando, porém atentem-se na história do feminismo branco e como que muitas lideranças defendia a inferioridade dos negros, até mesmo no momento pós-abolição, exemplos não faltam, basta refletir.

Atualmente, o que eu ando observando é neutralização da participação de mulheres negras na esfera macro do feminismo, termo que ao ser ouvido deveria nos permitir múltiplas imagens sobre o “feminino”, mas isto não ocorre. Por quê? Abstenho-me de apresentar a minha perspectiva de uma possível resposta. Outra questão, nas teorias feministas nos espaços das universidades brasileiras, dos livros mais antigos até o mais recentes ocorrem um vício do universalizante, isto é, o discurso teórico do feminismo, branco, se apresenta como se o único problema que envolvesse as mulheres fosse o patriarcado, tanto quanto dispositivo como estrutura. Como se não houvesse também outros “dispositivos ou estruturas” que configuram a vida social de muitas mulheres.

Parece que a base do feminismo branco é “se eu vivo, todo mundo vive”, por isto secundarizam tanto outras experiências “femininas”, embora, de forma dissimulada, em muitos contextos de enunciação, muitas feministas brancas abram a revolucionária boquinha repetindo aquilo que já ouviram de mulheres negras, porém nunca consideraram em inserir nas teorias, aquelas escritas que viram livrinho que, por mais fininhos que pareçam, e carregam o peso do privilégio branco. O racial sempre teve uma potência assustadora na nossa sociedade e por mais que as whites sisters digam que o patriarcado é que deve ser combatido, com certa frequência se vê mulheres brancas visibilizando homens brancos como enunciadores legítimos das teorias feministas ao invés de outros perfis de mulheres, porém recusam fielmente que isto seja um problema racial cuja responsabilidade é delas.

Longe de demonizar mulheres, pois o nosso papel não é se apoiar mutuamente? Este discurso sempre surge quando cobramos das mulheres brancas o espaço, nada pequeno, do racial nas discussões feministas. E, por favor, parem de criar eventos em que a diversidade só aparece em um espaço, por exemplo, um evento enorme sobre feminismo e se tem os nomes das palestras: Feminismo e sexualidade, feminismo e medicina, feminismo e literatura e feminismo negro.

Descubra o erro, aliás, descubram o próprio erro, por que nós, mulheres negras, já o percebemos faz tanto tempo. Para alguns entendedores e entendedoras do pós- modernismo, o que rola é o problema da fragmentação do nosso tempo, não conseguimos perceber as coisas como coexistentes e implicadas, blá blá blá ou é mimimi? Sempre me esqueço das onomatopeias, desculpem. Sendo blá ou mi, digo uma coisa, quando não se enxerga que nestes espaços de discussão devem ter mulheres negras, sim no plural, e que não sejam apenas as mulheres negras africanas, que vem sendo usadas como massa de manobra para a não inserção do discurso feminista negro brasileiro na esfera discursiva do feminismo.

Por mais que eu não me identifique com o termo, por causa do vício do universalizante que paira a atmosfera discursiva do feminismo, eu defendo, sim, a inserção das teóricas feministas nas ementas das disciplinas sobre gênero nas universidades, estas que há muito tempo são puro retrocesso quando ainda mantém uma perspectiva etnocêntrica acerca dos conhecimentos. O que temos visto na esfera política nacional é somente a oficialização das bizarrices, porém as mesmas já ocorriam aos montes no espaço acadêmico. E não é cuspir no prato que se comeu, pois eu também sou acadêmica, pesquisadora, porque eu nem engoli direito tudo que eu vi e vejo dentro da academia. E muitos querem nos obrigar a comer… só que não.