“Tamos aí”, é assim que “aquela pretinha legal, muito inteligente” de nome e sobrenome Lélia Gongalez fala com a gente em “De Palmares às Escolas de Samba, Tamos aí”. O assunto é o tamanho e alcance da “contribuição que a gente tem dado pra história e pra cultura de nosso país” e também da capacidade de entender o mundo através da “cabeça” dessa “amazona de torço estampado de esperança, montada num cavalo negro como sua ancestralidade”, como escreveu a poeta Néia Daniel.

“É aquele velho papo, temos que ser sujeitos do nosso próprio discurso, de nossas próprias práticas”, disse a “neguinha atrevida” que é referência e presença. Um futuro em que somos mulheres negras “de pé”, como dizia meu tio-avô Tenô com sua sabedoria do chão de quem viveu toda uma vida trabalhando na roça e na pesca no interior próximo desse continente.

Mas porquê repensar o pensamento de Lélia Gonzalez nesse contexto que segue as mesmas lógicas desde Antão Gonçalves (o primeiro a traficar pessoas negras sob o governo do Infante Português Dom Henrique)? O que significa reler e repensar o legado construído por toda uma geração de feministas negras desde os anos 60 e que tem sido alicerce para importantes conquistas nas últimas décadas?

Essa é a oportunidade que nos oferece “Lélia Gonzalez, Primaveras para as rosas negras”, coletânea organizada e editada pela União dos Coletivos Pan-Africanistas através da Editora Filhos da África, que também lança a coleção Pensamento Preto, um conjunto de textos que nos possibilita estudar e nos reposicionar diante dos desafios que todos enfrentamos.

Certamente a resposta a essa questão não é única.

Que o digam as companheiras que antes de mim se debruçaram sobre o tema: Luma de Oliveira, Patrícia Anunciada, Rosália Lemos, Angélica Basthi e Marta Muniz Bento, Gabriela Monteiro, Izis Abreu, Thiane Neves Barros, Beatriz Vieirah, Marinéia Ferreira, Márcia Carvalho, Adriana Baptista, Natália Néris, Larissa Santiago, Thaís Vieira, Rosane Borges, Marjorie Chaves, Carla Akotirene, Dulci Lima e Djamila Ribeiro, apenas para citar alguns dos textos aqui publicados e o Memorial Lélia Gonzalez, a quem creditamos a imagem que ilustra esse post.

Nesse momento gostaria de me ater à afirmação de Lélia Gonzalez quando sobre Palmares como o único espaço de efetiva democracia racial, “o primeiro Estado livre das Américas” e o quanto isso implica em grandes esperanças mas também responsabilidade diante de uma linda história que é apagada todo dia, escondida de todas nós herdeiras de um legado político, social e cultural que é preto, não pode e não será embranquecido sob a navalha da “cultura brasileira”.

Tem bumba boi, tem fofão, tem a gente lavando escadaria, tem banho de mar, tem comida, tem palavra, batuque e pensamento. Tem um movimento que é diáspórico, que compreende a nossa capacidade de ser a vanguarda pela tradição, pelos sonhos e lutas de quem veio muito antes e cantou a bola sobre a importância de nossa cara preta na rua, do nosso carnaval, de nossas festas sagradas em homenagem à Santa Bárbara e Nossa Senhora da Conceição como tecnologias sociais pretas.

Que fique em nossas memórias o que aconteceu em São Paulo, em plena segundona passada, bem ali no centro quando o Ilu Inã ocupou uma quadra inteira em volta da Aparelha Luzia sob as bênçãos de Exu, Ogum e Iemanjá emoldurados por raios, trovões e uma deliciosa chuva que lavou a alma de todos. Agora imagina isso como uma pequena parte de uma teia maior, que se espalha pelas ruas de todo o país constituindo uma rede de pessoas, saberes e conhecimentos que apontam para o horizonte.

Aqui estamos nós, toda a negada reunida. É aquele velho papo,  quem pode carnaval pode tudo.

Se organiza em torno de Crispim Terral, homem preto violentado numa agência da Caixa Econômica em Salvador, uma vítima do racismo que se sente autorizado a nos matar a toda hora, mesmo nesse janeiro em que a Lei Caó (Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989) completa 30 anos. Faz da memória a luta em nome de todos os corpos negros que tem sido alvo seletivo da violência policial, do feminicídio, do genocídio da juventude negra, do racismo, da transfobia, do discurso de ódio, da falta de acesso à saúde, emprego e agora aposentadoria.

É a gente compreendendo, atualizando e elaborando planos e práticas de existência diante da “desregulamentação total da vida”, como denuncia Regina Lúcia, militante do Movimento Negro Unificado de São Paulo. Ouvindo as nossas mães e tias das rodas de samba, da louça lavada, dos terreiros e da intelectualidade reunidas dentro e fora da academia, como Lélia Gonzalez, feminista negra por fora e por dentro cujo pensamento é do seu tempo mas também é de agora e de quem vem vindo por aí.

É  a gente na vida e na mocidade, como dizia a música.

É a gente pensando.