Na animação  Madagascar 2 o Leão Alex e seus amigos voltaram ao seu habitat natural (a África) depois de um período domesticados e inseridos na cidade grande.

Num determinado momento, já  readaptados a Savana, o instinto de  Alex o (um simpático leão performance ) o leva a olhar para Marty, seu amigo Zebra, e vê um suculento pedaço de carne. Seu desejo foi tão avassalador que Alex termina cena mordendo o lombo de seu amigo. Alex, apesar da domesticação, sempre fora um leão e Marty, uma Zebra. Leões comem Zebras. Esta é sua essência.

Apesar do filme ser infantil e o enredo obviamente fictício, esta lembrança me veio logo depois do ato em que a comunidade negra organizou para o banzo coletivo por Pedro Gonzaga de 19 anos, morto pelo segurança Davi Ricardo Moreira Amâncio, no hipermercado extra na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Mas antes preciso começar do começo, para facilitar.

Estávamos todos de punhos cerrados, nos perguntando: Até quando e de que forma mais continuaremos morrer? Porque e quanto tempo mais nossas peles serão sinônimo de ameaça e perigo iminente? Durante tantas falas, (infelizmente recorrentes) de militantes e parentes que perderam os seus de formas similares, avisto uma enorme faixa escrito “Lula livre”. Estranhei, pois apesar de me indignar com a prisão política de um líder tão importante, aquela não era a pauta. Chorávamos mais um corpo preto silenciado. Chorávamos um jovem, homem, negro, o maior alvo do Estado, morto diante de expectadores inertes, como no episódio “Urso Branco”, da série Black Mirror, da Netflix. A Faixa me incomodou. E incomodou mais alguns. As duas pessoas que seguravam eram brancas (até aí tudo bem. Ou não…). Foram três tentativas pacíficas para que a faixa fosse fechada, pois a causa ali era outra. Porém não fomos ouvidos. E aí começa todo o desenrolar…

Os argumentos usados por nós foram que o ato era por mais um corpo, dentre tantos, que vem sendo ceifados de todas as formas não só durante os 300 anos de escravidão, mas até hoje 130 anos pós abolição. Aquele era um espaço para mais uma vez questionarmos porque nunca deixamos de ser alvos.

Mas antes quero fazer um parêntese pertinente. Vivemos uma polarização irracional, muitas vezes romantizada e distorcida de que um lado é melhor que o outro. Antes que alguém resuma o que escrevo pró ou contra alguém ou tomando algum partido, quero escurecer as coisas aqui: Lula foi um importante líder para comunidade negra em muitos aspectos, isto é inegável (Inserção do dia da consciência negra, Inclusão  do ensino da história da África no currículo escolar, estatuto da igualdade racial, criação da secretaria de política da promoção da igualdade racial, lei de cotas, um considerável aumento de negros nas universidades…)

Sem falar que eu, como moradora da Rocinha por 38 anos, posso afirmar que estávamos engatinhando para melhorias. Porém bem longe do ideal esperado para um povo tão usurpado em seus direitos básicos, desde sempre. No entanto não vamos negar algo vinha mudando ali. Há quem ache que na favela não se fale em política. Talvez não se fale mesmo, não da maneira que se esperam, lá as coisas são empíricas. Vivemos no fio da navalha e todo este caos violento (e generalizado) no Estado, sempre foi uma realidade pra nós. A gente sente política. Quando falta, quando enche, quando prende, quando solta, quando ensurdece, quando silencia. Quem está na parte de cima do navio não sabe, e nem tem noção, do que a negrada vive aqui no porão. A gente sente, quando a maré vira. A gente vibra  quando caem migalhas.

E é sobre isso que falávamos quando vimos tal faixa: O genocídio de  negros acabou durante tal governo? Apesar dos avanços, não podemos esquecer que, no que concerne a morte e cárcere da população negra, não tivemos boas notícias (nunca tivemos). No período de 2006 a 2016 o aumento de mortes e violência aumentaram 23% , onde destes 71, 5% das pessoas assinadas eram negras ou pardas e com baixa escolaridade, sendo ainda, 92% Homens e 53% jovens.  Nunca paramos de morrer (mais e primeiro) desde que nossos ancestrais foram sequestrados.

Será que aquelas pessoas brancas que seguravam a faixa precisavam destes dados todos para compreenderem que  aquele era o nosso ( tão famigerado) lugar de fala? Será que os argumentos de mães, mulheres e homens negros que estavam no carro de som, bradando seus relatos, sua vivências e dores, pedido basta, não eram suficientes para a faixa ser guardada? Não era uma disputa de egos que estava em jogo, foi só mais uma constatação de que é muito tentador para muitos brancos se valer dos seus privilégios e agir com a arrogância quase imperceptível aos olhos destreinados. Nós, unanimemente percebemos o que aprendemos desde cedo: a branquitude não consegue ser coadjuvante. A necessidade de protagonismo parece uma benção divina dada desde os tempos medievais e colonizadores, e por isso irrevogável.

Pedro Gonzaga, os 15 do Fallet,  Claudia Ferreira, Amarildo, os meninos de Costa Barros, Jenifer, Mestre Moa, Marielle, entre tantos outros foram mortos porque  nossa pele é marcada por este sistema, patriarcal, racista e capitalista.  Sistema este que acredita que devemos ser domesticáveis e silenciosos.

Mas e o filme Madagascar 2?! O leão Alex, apesar de adestrado e “socializado” não esqueceu a sua essência de leão: Leões alimentam-se de Zebras.  Assim como a branquitude, apesar de ser dizer progressista e aliada da causa negra, sempre que podem exercem sua essência colonial.

Este recado é para os que desejam aliar-se: Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Portanto respeitem nossas vozes quando estivermos falando. Silenciem-se!  Há inúmeros caminhos para  branquitude mostrar-se aliada a causa étnico racial: ceder protagonismo; reconhecer privilégios; dialogar entre os seus sobre atitudes racistas ou simplesmente ouvir sem interromper.

Não queremos protagonismo único como vem sendo feito há séculos pelos povos colonizadores, queremos ampliação de narrativas. Sobre nossas pautas falamos nós.

Entendam de uma vez por todas que se tem algo que  povo preto sabe fazer bem é reinventar sua resistência. Na micro e macro esfera burlamos como podemos esta violência a nossos corpos e ideias. E acrescento: A carne mais barata do mercado ERA a carne negra. ERA!

Referência

¹ Angela Yvonne Davis (Birmingham, 26 de janeiro de 1944) é uma professora e filósofa socialista estado-unidense que alcançou notoriedade mundial na década de 1970 como integrante do Partido Comunista dos Estados Unidos, dos Panteras Negras, por sua militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos e por ser personagem de um dos mais polêmicos e famosos julgamentos criminais da recente história dos Estados Unidos.