Breve olhar sobre o mito do racismo velado

Numa manhã de domingo dessas, fui à varanda de casa e vi um grupo de homens negros, jovens e mais velhos, todos muito felizes atravessando à rua com sacolas de cerveja a caminho da praia. Ver aquela alegria, um mexendo com o outro me contagiou, mas logo uma preocupação veio à tona, e uma crise de choro me tomou compulsivamente. Pensei, ali seguem corpos vulneráveis e a disposição do racismo diário de uma polícia ainda com práticas racistas.  

Ao longo dos anos, principalmente nos espaços acadêmicos, pesquisas e estudos tem desmontado por completo o famigerado mito da democracia racial, tão propagado por Gilberto Freyre e outros seguidores.  Sinto que com a mesma urgência precisamos desmontar o mito do racismo velado.

O genocídio da população negra nunca deixou de acontecer, mesmo após 131 anos da abolição da escravidão. O histórico é longo, e as histórias viram números em documentos governamentais ou em noticiários. Cotidianamente jovens e crianças negras são alvos fáceis de bala perdida. “Mãe, levei um tiro, olha aqui”, disse Jenifer, menina de 11 anos, morta por policiais na porta do bar da mãe Kathia Cilene, no Rio de Janeiro. Com a morte de Jenifer, sobe o número de corpos negros que vem sendo derrubados, um a um, sem direito a defesa, alçando o Brasil como o país que mais mata por arma de fogo negros e negras.

Mais recentemente, o país assistiu um guarda de um supermercado assassinar um jovem negro por sufocamento, que mesmo acompanhado da mãe, não o livrou de um destino tão cruel. O jovem Pedro Gonzaga, de 19 anos, foi morto pela sua condição, um homem jovem e negro, identidade que reflete o estereótipo do algoz, do bandido, daquele que para uma sociedade abertamente racista, deve ser exterminado. Assim, todos assistem a um crime, como quem assiste a um espetáculo da vida, é só mais um corpo negro estendido no chão.

Todos esses fatos só nos mostram que o racismo à brasileira não é um racismo velado como muitos afirmam, na verdade nunca foi. A ausência de políticas públicas, ou a pouca efetividade delas, que de fato consigam transformar a vida população negra atendendo demandas tão urgentes como a saúde, assistência e a educação comprovam que são muitas frentes de extermínio. Crianças e mães pretas continuam a morrer nas maternidades públicas, continuam negligenciadas ou sofrendo assédio dentro das instituições que as deveriam proteger.

Desastres ambientais previstos pelo poder público, já fazem parte do calendário anual, marcado para acontecer todo ano no período de chuvas intensas nas mais diversas regiões do país, e nada é feito, afinal, sabe-se bem quem são as pessoas que vão sofrer com aquelas catástrofes, então entregam a população pobre, em sua maioria negra a própria sorte, uma higienização sem vestígios.

Desastres ambientais como o rompimento das barragens em Mariana, Brumadinho e as chuvas fortes em diversas regiões do país, têm deixado vítimas. Entre elas estão principalmente residentes de casas em morros e barrancos, áreas de risco, consideradas inadequadas, mas que para a maior parte da população é a única opção de moradia, são as principais vítimas de todo um sistema que se mantém à custa da desigualdade social. São para esses locais considerados inóspitos, onde os governos não tem interesse em promover melhorias, que as famílias têm sido empurradas, resultado de uma especulação imobiliária que tem como único objetivo o lucro e enriquecimento das empresas em detrimento da dignidade e do respeito à vida da população pobre.

São diversos os fenômenos que surgiram para desmascarar o mesmo problema: racismo institucional, racismo ambiental, racismo religioso e tantos outros que são face da mesma moeda, o racismo. Assim, fatiamos o amargo bolo para apresentar a sociedade como ele funciona nas mais diversas esferas e o resultado desse sistema tão perverso. Infelizmente, transformamos em ciência o que é sentido na pele, para que as nossas denúncias tenham legitimidade.

Para coroar todo esse cenário de violência racial, está em pauta o Pacote Anti-crime do ex-juíz federal e atual ministro da Justiça no governo Bolsonaro, Sérgio Moro. Esse pacote de maldades tem como único alvo o corpo negro e pobre, isso mesmo, já que ele praticamente dá carta branca para o extermínio promovido por policiais. Assim como o Pacote Anti-crime, o Projeto de Lei  727/2019 do Deputado Federal Daniel Silveira (PSL-RJ) está a serviço do genocídio, com a proposta de que seja autorizada a retirada de tecidos, órgãos e partes do corpo de pessoas falecidas para transplantes ou outra finalidade terapêutica sem precisar de autorização expressa familiar caso seja comprovado o confronto entre a vítima e forças de segurança pública. Tal medida abre uma possibilidade de caça da nossa população, em especial a juventude negra periférica como maior alvo.

Como bem coloca Carlos Moore (2007), “parece suficientemente óbvio que o racismo corresponde a uma forma específica de ódio; um ódio peculiar dirigido especificamente contra toda uma parte da humanidade, identificada a partir de seu fenótipo. É o fenótipo dos povos denominados “negros” que suscita o ódio – um ódio profundo, extenso, duradouro, cujas raízes se perdem na memória esquecida da humanidade e que remetem a insolúveis conflitos longínquos.” Esse ódio do qual Moore fala, ele não é mascarado, velado, disfarçado, na verdade, ele é escancarado, e os dentes do ódio racista, estão afiados e sempre prontos para pegar a próxima presa.

Referência:

MOORE, Carlos. Racismo e Sociedade – Novas bases epistemológicas para a compreensão do racismo na história. – Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.