Minha maternidade inicia muito antes do nascimento da minha filha. Nos tornamos mães muito antes da gestação ser concretizada em exames laboratoriais, consultas com obstetra ou até no parto, podemos ser mães inclusive de crianças que registralmente não somos mãe. Vivenciei com as minhas irmãs a maternagem de 4 sobrinhos. Sou a filha caçula de 3 filhas, geradas pela Zaida. Meu pai faleceu quando tinha 11 anos e a mãe, como muitas outras mães pretas, nos criou com outras várias mães e outros pais. A família preta é assim: Avó, tia, irmã mais velha se confunde com mãe e tio, primo, avô se torna pai também. Na falta de um, a própria comunidade da conta de preencher a lacuna e assim todas as crianças se criam.  Nossa família não foi diferente e tive todas essas referências quando me descobri mãe da minha filha. Nossa gestação foi anunciada em nossa casa de candomblé. Cultuamos o sagrado através do candomblé bantu e minha filha seria regida pelo Nkisi Lêmba. Recebemos orientações em relação a sua gestação, depois do 6º mês viagens deveriam ser evitadas e nosso Nzo é no Rio de Janeiro, moramos em Porto Alegre. A insegurança da distância física, mas a segurança de que nunca estivemos desamparadas.

O nome da criança conforme é realizado em muitas tradições em África, não foi anunciado até o seu nascimento. Vocês não tem noção o transtorno que foi, em uma sociedade onde os nomes são escolhidos pelas mais inúteis razões, muito antes do nascimento, antes até mesmo da gestação, responder que o nome seria apresentado primeiramente à criança e posteriormente aos demais. Mas realmente não tivemos qualquer sinal de que o nome certo nos foi enviado ao longo das 36 semanas que gestei. Com 36 semanas e 03 dias e 01 dedo de dilatação, resolvi ceder aos apelos da minha mãe e me juntar a toda familia que iria a uma viagem para a serra gaúcha. Eu tinha me proposto a não ir, mas na última hora decidimos ir, mas de ônibus que seria mais confortável e todos já estavam lá. Minha sogra perguntou se eu estava levando bolsa da maternidade, mas eu pensei: “pra quê? Falta ainda praticamente 01 mês!” Dia 28 de outubro de 2017, passeamos com a minha mãe o dia inteiro. Dona Zaida queria uma blusa de linho e andamos em Gramado e Canela até às 17hs, para não encontrar a tal blusa. Chegando ao hotel tinha uma piscina enorme, as crianças brincando, meu cunhado tomava uma latinha de cerveja sentado na borda. Vocês tem noção que alivio que dá você estar bem mais pesada e cansada e ficar boiando em uma piscina de água quente? Pois é… meu cunhado disse pra não entrar: “Se tu entrar vai parir aqui dentro!” Mas eu pensei: “Ora as pessoas passam dias em trabalho de parto, não vai ser água quente que vai fazer uma criança nascer.” Fiquei 3 horas na água. No outro dia saiu o tampão quando acordei, mas gente, vocês já viram um café colonial na serra gaúcha? Fui comer! Comecei a sentir uma dor. Continuei comendo. Fui ao banheiro e… Líquido! A obstetra pediu para eu ir ao hospital ser examinada: “Adriana, tu está com 1 dedo de dilatação (o mesmo que já tinha antes da viagem), mas tua bolsa rompeu. Vai pra Porto Alegre que dá tempo de nascer lá.” E lá fomos nós (eu, Vitor e a mãe dirigindo), eu sentindo dor, mas cochilando entre uma contração e outra, chegamos! Salinha com bola, chuveiro, cama, barra, muito espaço pra caminhar. Li tanto, pesquisei, quis tanto um parto respeitoso. Que ao menos na sua chegada, a um mundo tão cruel, minha filha não fosse violentada. Que eu pudesse não acumular mais esse trauma. Duas horas após pedi analgesia. Sim, eu pedi! Vc não sabe oq pode pedir quando está em trabalho de parto e a analgesia foi bem bacana. Eram 16hs, eu dormi, acordei com dilatação total, tocava Tiganá (fiz uma playlist no Spotify com as músicas que eu mais gostava) e senti vontade de fazer força, primeiro empurrão: “Vitor vem ver, ela é cabeluda!” Gente, vai realmente sair alguém de dentro de mim? Que loucura! E saiu. Às 19:01 do dia 29.10.17, com 2,210kg, 46cm (uma pintinha magrela), nasceu a Lêmba Nyanga. Seu nome foi revelado somente através de um jogo realizado pelo nosso sacerdote Lêmba Diala, que a mais de mil quilômetros de distância entrava em trabalho de parto praticamente junto comigo.

Lêmba Nyanga foi parida em comunidade, não a pari sozinha de forma alguma. E não falo de médicos e enfermeiras. Falo de família e ancestralidade. Falo de um companheiro que esteve presente em todos os momentos, que acompanhou exames, que assistiu filmes, leu artigos e que se manteve forte e articulado para identificar a minha vulnerabilidade e assumir o controle. Diferente de mim e da maioria das pessoas negras, Lêmba Nyanga tem um pai biológico, presente e interessado. Foi o Vitor quem levou a nossa filha para conhecer a família que aguardava ansiosa na recepção hospitalar e cabia a ele a missão de apresentar o seu nome. Óbvio que causou estranhamento. Infelizmente vivemos em uma sociedade onde a compreensão de nomes estrangeiros ignora os africanos. Na África os nomes são escolhidos conforme o seu significado e determinam quem a criança será ao longo da sua vida e o significado do nome da minha filha é: “Lêmba cura através do amor”. Antes da gestação da Nyanga, perdemos outro bebê, uma gestação interrompida na 17º semana, a cura que precisávamos também se referia a esta experiência. Não posso ser mais agradecida à ancestralidade por promover esta cura, uma cura diária e contínua.

Nossa família é uma família negra retinta, quando todo sistema se articula para que nós negros nos odiemos cada vez mais, onde miscigenar é uma política pública, nossa família se cura através da resistência da existência. Não é um conto de fadas, longe disso. Não é nada fácil ser uma família negra educada e estruturada, quando todos esperam que sejamos selvagens e agressivos. Muitos não se contém e elogiam, demonstrando uma perturbação jamais vista perante famílias brancas. A família branca é o esperado, é o habitual, onde as crianças tem um bom comportamento em público e os pais demonstram empatia na sua educação. Certa vez em um restaurante, enquanto almoçávamos uma mulher branca e desconhecida se abaixou na altura da mesa e passou a passar as mãos nas pernas da Nyanga, que imediatamente baixou a cabeça, claramente constrangida. Paralisei, enquanto o Vitor reagia. Ainda me culpo por não ter conseguido verbalizar que minha filha não deveria ser tocada sem autorização, que ela não era propriedade daquela mulher, que aquilo era desconfortável para toda família. Chegamos em casa e conversamos que aquilo nunca mais iria se repetir, que iriamos nos fortalecer e algum de nós sempre iria reagir, mas ainda tenho dificuldade. Dificuldade de não ver na Nyanga a criança que eu também já fui. Sendo compreendida como exótica, sendo a única criança negra nos espaços, aceitando comportamentos desagradáveis para ser aceita, almejando uma brancura que nunca teria. Todas essas lembranças se encontram em uma caixinha inconsciente que a maternidade abriu e preciso aprender a lidar, somente estando fortalecida, vou fortalecer a Nyanga. Nesse processo, conto com a ajuda de outras mães negras com relatos semelhantes e outras estratégias de sobrevivência. De forma quase que intuitiva, trocamos conselhos, nos amparamos quando chegam os relatos da escola e também compartilhamos o choro, quando só nos resta isso mesmo. Não há problema em não conseguir mudar o mundo para que nossos filhos cresçam seguros. O racismo, que será o maior inimigo na criação deles, é um sistema que existe a milhares de anos, e está muito longe de ser extinto. Mas para nossa sanidade mental, precisamos ser otimistas de que pequenas transformações têm acontecido e que a sobrevivência é possível. A sobrevivência com relativa qualidade, onde nossos lares sejam ambientes seguros, que a educação não violenta das nossas crianças seja uma realidade, que a paternidade efetiva e responsável não seja uma exceção, que a alimentação familiar de qualidade seja acessível e preventiva. Que possamos compreender que não é por que fomos uma geração sobrevivente a todos os tipos de violência física e mental, que não podemos fazer minimamente diferente, ou pelo menos tentar fazer. Tentar nos referenciar em nossas verdadeiras origens, não ter medo de enfrentar o sistema, de ir na contra mão do senso comum, que é o senso comum da branquitude e não se adequa à nossa realidade enquanto povo. Todos os dias tento fazer diferente, seja nas bonecas negras que não tive, seja nos beliscões que levei e não darei, ou na carne que evito oferecer e que me é um vício difícil de abandonar. Não sei se no futuro nosso esforço será recompensado de alguma forma, mas a tentativa foi feita.